Frankenstein.

Recordo bem as catilinárias da direita contra o “facilitismo”. José Manuel Fernandes era director do Público e iluminava os portugueses com uns textos muito atamancados, de uma indigência que é universal entre os convertidos de todas as ideologias, apelando aos “esforço” das criancinhas para embaraço dos gentios e esplendor da nação. Maria de Fátima Bonifácio, Helena Matos, dois ou três gnomos do Insurgente compunham o bouquet de sábios que invectivavam o “eduquês” na língua de pau do liberalismo lusitano. A essa gente espessa, inacessível ao juízo crítico e à circunspecção, a pátria, muito orgulhosa da sua quarta classe, respondeu com a sensatez do costume, escutando e obedecendo.

Hoje observo um pequeno escravo de dez anos assoberbado pelo estudo. Entra na escola às oito e meia, sai às cinco e faz os deveres atè à hora do jantar. Aos fins de semana prepara os testes da semana seguinte. Nos dois dias em que vai à natação deita-se mais tarde, porque a aprendizagem legítima, a da bayer, não perdoa aos meninos que praticam desporto, nem perdoaria a quem quisesse fazer desenhos ou tocar guitarra. Como é natural, abomina a escola.

Um punhado de imbecis produz uma geração de robots. Ao menos escreverá melhor do que eles.

Luis M. Jorge

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20 thoughts on “Frankenstein.

  1. Grandessíssimo post. As escolas transformaram-se em fábricas e os desgraçados dos alunos, crianças, inclusive, serão o que resta do proletariado sonhado outrora pelo JMF e HM. Só faltou falar, acrescido à ausência de música, desenho e actividade física decente, dessa coisa medonha que são os textos de literatura infantil/juvenil que os obrigam a ler e que terá decerto como resultado um ódio indisfarçável à leitura. E continuam eles a falar do ultrapassado eduquês, porque não sabem falar de outra coisa.

  2. fnvv diz:

    Estou divertidíssimo: O que julgarás tu , e os que vão salivar com a malha nos adversários do eduquês ( ?), que era a escola do garoto há dez anos? Um recreio do Agostinho da Silva ?

    • Melhor do aquilo em que se está a tornar.

    • Miguel diz:

      Um puto de dez anos é obrigado a estar na escola das 8 às 17, e depois ainda tem de ir fazer os trabalhos de casa… Isso é uma coisa de doidos. O que é que lhes andam a ensinar que os obriga a tanto estudo? Análise Real, Mecânica Quântica, Genética, e Epistemologia?

      • fnvv diz:

        Tenho 30 e tal sobrinhos, dez sobrinhos -netos e dois filhos. Um certo conhecimento prático não é tudo, mas às vezes ajuda.
        O meu mais velho, agora com 19, já com 9 e 10 tinha toneladas de matéria para estudar e toneladas de aulas. Assim continuou e a minha mais nova vai no mesmo caminho, não vejo diferença nenhuma, não faço a mínima ideia do que o Luís está a falar. Foi com o PS que aliás começou o lager escolar: não se podia sair da escola, aulas de 90 minutos (!!!)etc. Facilitismo????
        Essa história do eduquês, nunca a percebi bem, salvo um ou outro detalhe ( quadro de honra e assim).

      • Filipe, não sabes do que estou a falar? Há dezenas de palermas a invectivar as escolas em que “não se trabalha” e tu revelas que afinal as crianças chegam carregadas de trabalhos – é disso que estou a falar.

      • fnvv diz:

        ah pronto filho , desculpa, sabes que não tenho a tua argúcia.
        agora a sério: isto dura há séculos, dói-me ver os miúdos assim, nem tenho coragem para desenvolver, apesar de ter dado aulas ( sup.priv. mas aulas à mesma) 15 anos.

    • João. diz:

      Agostinho da Silva é um dos meus portugueses favoritos de todos os tempos. Tomo como seu projecto de fundo – o que labora sobre o espectro da Era do Espírito Santo – a consumação do projecto cristão, paradoxalmente no entanto contra a Era do Filho naquilo que vale como a sua preversão.

      Que o Filho de Deus tenha sido sacrificado para nos livrar da culpa inverteu-se na reafirmação da culpa, inverteu-se numa condição em que quanto menos eu me sinto culpado mais eu me sinto culpado, ou seja: como te atreves a aceitar o perdão se Deus morreu na cruz por ti? Como podes viver despreocupado com o pecado se o teu pecado foi limpo pelo sacrifício do Filho de Deus? Ingrato. Miserável. Não, não esqueçamos o sacrifício do Filho, carreguemo-lo connosco. A morte de Deus não nos livrou da culpa, acentuou-a. A nossa miséria acentuou-se. Deus teve que morrer por nós. Esta é a culpa de que não nos livramos.

      Acontece porém que, segundo o cristianismo, Deus morreu por nós para nos livrar do pecado original e, portanto, da culpa eterna. Eternizar a culpa, agora por iniciativa própria, como se fosse a nossa resposta ao acto de Deus, pode ser portanto uma basfémia, uma heresia, uma desobediência. Pressupõe que Deus não foi sincero, que nos deu um presente que demanda eternos actos de agradecimento, como se nunca nos pudessemos apropriar do presente, como se não tivesse sido realmente um presente.

      A criança que recebe um presente que lhe demos sinceramente sem nos agradecer, que simplesmente pega nele e o usufrui é a criança livre da dívida. Só às crianças isto é de certo modo livremente permitido e mesmo assim com algum contra-gosto. Sempre gostamos mais quando a criança nos agradece apesar de tomarmos o presente que lhe demos como gratuito.

      O recreio de Agostinho da Silva, a meu ver, deve ser lido à luz da superação da culpa auto-inflingida, da educação como geração de dívida – dívida para com a sociedade, como se depois da escola restasse pagar a dívida. Mas o projecto de Agostinho a meu ver não é a da aniquilação dos sentimentos morais, como se a ideia fosse a realização de uma condição hedonística, orgiástica. O projecto dele, a meu ver, é o de pensar o que é um homem livre da dívida eterna, da dívida perante esta dívida. Que relação com Deus, tem um homem que aceita o perdão, que não se propõe em dívida para com esse perdão. O que é um homem que nasce sem culpa, o que é o mundo deste homem?

    • Miguel diz:

      Há que fazer uma distinção. Sobrecarregar os putos com um número demasiado elevado de horas de aulas e trabalhos de casa é um disparate. Para a quarta classe, bastam cinco horas diárias, cinco dias por semana, de aulas bem organizadas e um programa bem feito. Trabalhos de casa devem ser leves, introduzidos apenas para sedimentar as matérias nas quais os alunos revelam ter necessidade de reflectir e praticar um pouco mais; pontualmente, pequenos projectos de grupo adequados à idade. E chega perfeitamente. Outra coisa é destruir o ensino com programas débeis, desvirtuando o conteúdo das disciplinas, etratando os alunos como atrasados mentais. Creio que o eduquês, na sua vertente real (convém descontar as invenções), pecava pela última.

      Trabalhar demasiadas horas revela uma de duas coisas: má organização e má disciplina, ou grande entusiasmo e ambição. Grande entusiasmo e ambição a aprender as cenas da quarta classe é algo que não faz grande sentido para putos de dez anos. É demasiado fácil, são coisas que não apresentam dificuldades de maior, desde que sejam bem orientados durante as aulas.

  3. caramelo diz:

    O antigo ministro Marçal Grilo esteve no outro dia a trocar lamúrias com a CFA no Expresso sobre o eduquês, uma coisa que segundo ele que foi importada da Europa do norte, terra de gente que anda de chifres na cabeça e come carne crua e que veio estragar a nossa nobre arte de decorar poemas. As crianças agora não decoram poemas. O Marçal Grilo sabe poemas de cor e a CFA também., incluindo, diria eu, o famoso épico nacional da taboada, tão importante para formar o carácter da nação como os Lusiadas. A Ana Cristina Leonardo diz que as crianças agora terão ódio à leitura. Ópá, nem queiram saber o amor assolapado à leitura que vicejava antigamente. toc, toc toc pela estrada fora, lá vai o burrinho.

  4. Antigamente não vicejava o amor assolapado à leitura e ninguém estava preocupado com isso. Antigamente, a leitura era para privilegiados, ponto. O problema está em quando se quer democratizar o amor à leitura e os livros que dão aos putos a ler são a coisa mais chata e moralista que Deus ao mundo deitou (para já não falar dos bonecos). Passe um dia a olhar para os livros infantis que se publicam em Inglaterra, ou mesmo em França, e descubra as diferenças. Quanto ao eduquês, já há muito que deixou de ser um problema. Talvez reflectir sobre as alterações que os meios tecnológicos provocam no cérebro em termos de atenção e concentração fosse mais útil do que andarem a discutir se os putos ficam calados à porrada ou com biscoitos. Quanto aos horários escolares, são os próprios pais quem defende que a escola deve funcionar em regime Loja de Conveniência. As famílias tornaram-se mínimas, as mães desataram a trabalhar e os putos estão entregues a si próprios. Como é que isto se resolve, não sei. Mas não é certamente por causa do eduquês que as coisas são o que são.

    • caramelo diz:

      Ana Cristina, eu só comentava o suposto ódio à leitura que terão agora as crianças. Que alguma (não toda e cada vez menos) da literatura infanto juvenil feita em Portugal é chata e mediocre, é verdade, mas isso é outra coisa. Muita dessa literatura francesa e inglesa infanto-juvenil de que fala está cá traduzida. Na infantil, sobretudo, tenho casa em casa coisas fantásticas, incluindo a ilustração. Poderia acrescentar a brasileira, a começar pelo Monteiro Lobato; não conheço melhor. Não sei até que ponto alguma literatura infantil inglesa (e americana), por exemplo, não será uma delicia sobretudo para os adultos, mas isto é só uma pequena provocação lateral. Portanto, os putos têm muita variedade e qualidade, seja nas escolas (que agora têm bibliotecas), seja nas livrarias e grandes superfícies. É fácil verificar. Motivos para ódio à leitura terão tido noutras ocasiões, não agora.

  5. balde-de-cal diz:

    no liceu aos 15 anos (1946) li em latim a 1ª catilinária de Marco Túlio, não do irmão como por vezes aparece
    o meu Prof era engenheiro mecânico e também dava matemática
    »quousque tandem Catilina abutere patientam nostra« espero estar certo o começo

  6. Essa escola quase “concentracionária” que o Luís M. Jorge procura exemplificar não começou com as criaturas incompetentes que agora a governam. Foram Sócrates/Lurdes Rodrigues que deram um impulso tremendo à coisa.
    É verdade que estava na moda, nos tempos da criatura anterior, um discurso superficial sobre o “facilitismo” – o actual ministro também era um exemplo disso quando se afastava dos comentários ao ensino da Matemática e opinava sobre Rousseau (que tresleu) e sobre o “romantismo”. Mas também havia vozes competentes que denunciavam o estado de coisas. Seja como for, tanto os competentes como os superficiais acertavam. Há que dizer ainda que o tal “facilitismo” não é exclusivo da “esquerda”, mas também acaba por ser praticado pela “direita” – esta, geralmente burra, adopta por ausência de pensamento próprio os vícios da “esquerda”. Quando abre a boca, para se distinguir dos devaneios da “esquerda”, pronuncia barbaridades que fariam corar certas correntes do próprio Estado Novo. Enfim, a Escola está entregue aos bichos…

  7. caramelo diz:

    Eu nunca percebi bem a cena do eduquês, até porque os que que falam da coisa o fazem com uma linguagem que os faria chumbar na quarta classe. Nos diplomas normativos, circulares, etc, com as orientações pedagógicas do ministério, o texto é de facto muito técnco e complexo, mas os miúdos, na sala de aula, aprendem a ler, a contar, a fazer operações complexas, a aprender história, o mundo, a vida à sua volta, e estas discussões não os parecem afetar. Qualquer criança tem agora mais conhecimentos, nas discplinas nucleares, do que um miúdo da mesma idade de há quarenta anos. Se isso basta, ou não, é outro assunto. Eu acho que não basta e nisso concordo com o Luis Jorge.
    Eu fiz o exame da quarta classe em 73, um ano antes de começar a rebaldaria pedagógica, os famigerados experimentalismos, etc. Ora, aquele meu exame era de facto um primor da cristalização de uma longa época de serenidade hm pedagógica: tive um suficiente e não um bom, porque, quando me perguntaram qual era a cidade museu, eu disse que era Viseu (deu-me para a rima); não, era Evora. Respondendo ao Miguel, era na altura que os miúdos eram tratados como atrasados mentais, não agora. Atrasado mental sinto-me eu agora outra vez, por vezes, a tentar ajudar o meu filho na matemática, mas nada que não se resolva com algum mínimo esforço de actualização e a ajuda do meu próprio filho. Mudaram alguns conceitos operativos, algumas formas de fazer contas, etc, que os miúdos aprendem com facilidade. Faz-me é impressão que ele saia da escola ao fim da tarde e ainda traga todos os dias trabalhos para casa. Crianças desta idade precisam de tempo para brincar, estar com os pais, ver bonecos na televisão e ir esfolar os joelhos a jogar à bola, não só ao fim de semana.
    Muito se fala também sobre os hábitos e a qualidade da leitura. Diz-se que os miúdos agora são analfabetos, em oposição a uma época em que liam e percebiam o Aquilino e o Padre António Vieira, em latim, logo na primeira classe. Tivemos umas gerações extraordinárias, embora não se saiba o que é feito delas. Sobre a mitologia muito em voga da diferença entre os hábitos de leitura e variedade e qualidade da literatura infanto-juvenil, e não só, gostava de dizer mais alguma coisa amanhã, estou com sono agora.

  8. Miguel diz:

    “Miguel, era na altura que os miúdos eram tratados como atrasados mentais, não agora.”

    Eu sei caramelo, estou de acordo com isso (tenho os testemunhos de familiares e amigos que bastam para o confirmar), e com o teor geral do teu comentário. O que eu queria dizer com aquela frase ambígua é que a acusação feita ao eduquês consistia em dizer que este último desvirtuava as disciplinas nucleares (com umas palermices acerca do Rousseau pelo meio que eram geralmente aceites de forma acrítica, o que sugere uma boa piada a propósito da excelência do pensamento crítico promovido pela escola do antigamente), e não que precisavam de mais horas de aulas. Mas vivo fora de Portugal há mais de quinze anos, por isso estou completamente desfasado com o que se passa no terreno.

    • caramelo diz:

      Miguel, o que se passa aqui é que os programas do básico são extensos e pesados, não há cá tempo nem vontade para frescuras de pedagogias estrangeiradas, e que quem cita Marco Túlio em latim, toma-se e é tomado por um grande sábio e uma flor da sociedade, tal como nos salões do Primo Basílio. É mais ou menos isto.

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