Números

Desde que Nuno Crato relacionou, há dias, o desemprego dos professores com o decréscimo de alunos no ensino não superior, a questão tem convocado os números mais díspares. No Público de hoje, por exemplo, podemos encontrar, a poucas páginas de distância, os números da OCDE num artigo de Clara Viana e os números do PORDATA na crónica de Santana Castilho. Ambos põe em causa os números do Ministro, mas com base em números diferentes. No post em que concordei com Crato, embora sem citar números, o meu velho camarada Carlos Botelho acusou-me de embarcar no “canto da sereia” e uma leitora, mais directa, de mentir.

Fui ver os números do PORDATA. No ensino secundário público, via de ensino, há uma subida até 2009, ano em que estavam matriculados 377 981 alunos, e uma descida em 2010, ano em que se contam 369 979 alunos matriculados. Note-se que não estou a incluir aqui o ensino profissional, onde a diminuição de matrículas é mais antiga e ainda mais acentuada. No ensino básico regular, sem incluir o ensino recorrente, o recuo demográfico faz-se sentir de forma claríssima: de 988 998 alunos em 2006, passamos para 932 297 em 2011 – sempre a descer.

Admito que me estejam a escapar variáveis e até que estes números sejam insuficientes para justificar os professores que não foram colocados. A responsabilidade será também de opções políticas como a reforma curricular, os mega-agrupamentos, o aumento do número de alunos por turma e – last, but not the least – a envergonhada contenção de custos. É bom que se diga que são opções, ou seja escolhas de quem decide, e políticas, ou seja consequências de uma visão do ensino. Podemos discutir tudo isto, mas números são números. E mais importante do que a estatística, repito, é saber se as tais opções políticas são ou não benéficas para os alunos. Infelizmente, estamos longe de tal debate.

PP

5 thoughts on “Números

  1. É uma tarefa árdua, os Portugueses têm uma aversão, possivelmente maior do que a média dos países, à existência de de uma realidade objectiva independente da vontade do observador. Claro que se sabe que a realidade tem várias facetas e que os números têm que ser usados com cautelas, pois trazem consigo muitos pressupostos, mas seria muito proveitoso um maior rigor nos números para então se poder discutir as preferências de cada um.

  2. […] 12/09/2012 Por João José Cardoso Deixe um Comentário Quando há, e haverá, mais alunos, subtraímos os cursos profissionais. Filed Under: curtas Tagged With: cursos profissionais, educação, estatísticas de educação […]

  3. Disraeli dizia que havia três tipos de mentiras: mentiras, mentiras danadas e estatísticas. E quando estas últimas são usadas como um ébrio usa um poste de iluminação – para apoio e não para obter luz -, são uma espécie de pontilhismo digital numerológico. E desdoiram a reputação rigorista de um ministro empático, catedrático, matemático. Ai desdoiram desdoiram…

  4. Pedro, é simples. Horrivelmente simples. O Estado desistiu da Escola. That’s all.

  5. Carlos de Sá diz:

    Os números, por si mesmo, são inúteis. Servem para tudo, até para mascarar a vontade política do ministro Crato: a de reduzir o ensino público ao programa de Salazar. O aumento das turmas para 30 alunos é apenas o item mais saliente de um vasto programa que visa impedir a mobilidade social da geração que actualmente frequenta o ensino básico; a famigerada “revisão” curricular é que melhor espelha as opções ideológicas deste discípulo do Botas, sendo que a “contenção” na remodelação de escolas a cair de podres é, mais do que um acto de cega poupança, uma declaração de guerra ao ensino público.

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