O governo perdeu a rua, a frase dos últimos dias, foi o que se viu: uma manifestação ordeira e pacífica , com música e crianças. A última deste género, ainda na vigência do governo de Sócrates, foi igual. Na altura os socráticos entretiveram-se a desprezar o método de contagem de manifestantes, num exercício ridículo , e as tropas de assalto do actual PSD asseguraram que o povo queria mudar. Isto não pode espantar ninguém. A pergunta certa é: aonde levam estas sucessivas manifestações de indignados? A lado nenhum, óbvio. Mudou o governo e é o que se vê. Mudará este e regressam os anteriores vilões.
Se a política da Troika é violentíssima, a resposta popular devia ser violentíssima. O que registamos de há dois anos para cá é uma coreografia , um vira mandado, um armuzelo deprimente da revolta e do protesto. Até LML, de costume ponderado, fala numa tentativa de invasão do Parlamento a uma hora em que só lá estavam aos habituais, os mesmos do tempo de Sócrates. A principal razão parte da mecânica da reivindicação:
1) Estas coisas não podem nascer do acaso. Não se espera que uma cultura de subserviência e de indiferença gere uma verdadeira revolta, que teria de incluir violência, paixão e raiva. O que temos é um espectáculo de falsas oposições, gerido pela classe dominante, que permite as arruadas e os desfiles enquanto forem ordeiros. A classe dominante inclui o Bloco de Esquerda, medusa mediática super-instalada à mesa do espectáculo e o PCP, que se habituou, por instinto de sobrevivência, a respeitar a gestão totalitária da encenação.
2) Da manifestação de 2001 à de ontem, resistem as mensagens mentirosas, enroupadas nos diversos actores. Os vilões passam a salvadores e vice-versa, numa gestão da energia das recordações, muito bem apoiada pelos encenadores mediáticos. Estes tratam cada manifestação como um produto espectacular que em nada se distingue dos grandes fogos ou das grandes finais de futebol. O séquito de comentadores ontem indignados e ao lado do povo, como hárpias sorrateiras, comem à mesa do espectáculo ( televisões, jornais, rádios) durante todo o ano .
3) Os grupúsculos esquerdistas masturbam-se nos blogues e masturbam-se diante da polícia de choque. Expressão teatral de uma vaga revolta, que , para usar uma expressão de há cinquenta anos, busca as razões nos saldos das ideias. É gente que não sai de Lisboa e do seu casulo radical-chic, que nunca vemos nem lemos à porta das empresas que abandonam milhares de trabalhadores. Também é verdade que nada teriam para lhes dizer.
4) O poder, o verdadeiro, conta com as lendas referidas nos pontos anteriores. Os elogios ao povo que ontem se manifestou são sinceros, porque os gestores apreciam estas declarações de subordinação. Vivemos para trabalhar e trabalhamos para pagar o espectáculo. Como um rapazola que, quando o circo chega à cidade, se oferece para dar de comer aos leões e em troca pode assistir à estreia.
FNV
É mais ou menos isto, sim senhor.
Brilhante…
Entre todo o discorrer de lugares comuns direitistas no seu post há um que vale a pena reter:
“A pergunta certa é: aonde levam estas sucessivas manifestações de indignados? A lado nenhum, óbvio.”
Isto representa a hegemonia do capitalismo. Não se consegue pensar para além dele. Como você sugere, o lugar além do capitalismo é o lugar nenhum. O que é irónico é como se apresenta na prática aquilo de que o capitalismo sempre se arrogou – o de garantir a liberdade de pensamento. O que o capitalismo conseguiu foi que se tornasse impossível o pensamento para-além-do-capitalismo e fez isso tornando esse lugar virtualmente impensável. A liberdade de pensamento capitalista, simplesmente propõe que só há pensamento dentro do capitalismo; é uma liberdade feita da proposta de uma diferença simples entre pensar (dentro do capitalismo) e não pensar (além capitalismo).
eheheh…”lugares comuns direitistas”.. vc não sabe de quem é frase de há cinquenta anos, pois não?
Deve ser aborrecido usar esse filtros.
FNV,
Não percebi bem o que você quer dizer. Receio que você tenha sido demasiado subtil. O que eu digo com a tirada dos lugares comuns vem de ter visto repetidamente o fundamental do que você diz em blogs e opiniões à direita – inclusive em blogs e opiniões de militantes/simpatizantes do PS.
Viu? Estranho, muito estranho, que “blogues à direita” façam uma leitura I.situacionista/I.letrista da reivindicação, mas tá bem..
Isso já é doença.
“O que temos é um espectáculo de falsas oposições”
Curiosamente esta observação (a propósito de oposições e semehantes exercícios de indentificação) aplica-se a este post; bem como, por exemplo, áquele louvor feito às subtílissimas palavras da camarada Matos a propósito do Bush e do Obama.
Por que razão dizemos que a cultura popular é subserviente e passiva? Porque o povo geralmente não reage e não se manifesta. Chegados a uma situação em que este finalmente se mexe um pouco concluímos que é uma reacção forçosmente inconsequente porque a cultura e o habitus predominante são a passividade. É como dizer que não vale a pena um fulano começar a estudar ou a frequentar eventos culturais pela simples razão que não costumava fazê-lo. Filho de sapateiro, não queiras tocar rabecão! Quem nasce para minhoca não chega a jacaré. Cada um no seu lugar, cada povo com o seu modo de governo. Presume-se, no nosso caso, democrático na forma no máximo dos máximos!
Mas gabo gabo-lhe a coerência, visto que a análise política aparentemente é feita para esse povo que imagina. Um povo de néscios. Para quem é, bacalhau basta. Senão vejamos, o Bush e o Obama são idênticos porque ambos perseguem o Al Qaeda
utilizando meios militares ; o Bloco de Esquerda ou o PC são iguais ao PSD e ao CDS porque todos aceitam o jogo democrático e elegem deputados, … A conclusão a tirar é que os únicos outsiders que restam — os únicos concebíveis logicamente em todos os mundos possíveis — são os tipos que vão para a manifestação de cara tapada atirar pedras e cocktails molotov …
é, exactamente isso nem sei porque me dei ao trabalho de escrever tanto.
Caro, caricaturo para ilustrar o que segue naturalmente da sua análise política
(e o que me parecem ser os pressupostos implícitos, mas quanto a estes posso enganar-me).
Após a sua eleição em 1932, Franklin Roosevelt terá dito aos representantes dos trabalhadores: “I agree with you, I want to do it, now make me do it.” Eu sei que o
Passos não concorda com o povo, não quer ajudá-lo, e por nada o fará. Porém
a condição necessária, embora não suficiente, para aparecer um líder que cumpra ainda que parcialmente os interesses da população é que esta os manifeste. É lixado, porque é muito mais fácil para uma pequena rede de senhores influentes coordenar posições do que para a população expressar de forma coerente as
suas reinvidicações. A população porém está em clara maioria, é essa a sua vantagem. O New Deal fez-se. O que se fez uma vez pode mutatis mutandis voltar a ser feito.
Apoiado. Se a sociedade fosse justa, esses radicais chiques, esses pequeno-burgueses alienados que se dedicam ao design, na justa e correta definição da camarada Helena Matos, seriam obrigados a vergar a mola durante um ano numa fábrica de metalomecânica.
“Se a política da Troika é violentíssima, a resposta popular devia ser violentíssima.”
Aqui há, em relação a esta violência de que fala, duas categorias distintas. A violência revolucionária, quer dizer, aquele momento sempre inevitável quando o regime se desintegra e tudo parece possível. Neste caso é, a meu ver, necesário, uma direcção política que se aproprie da violência para lhe dar uma Constituição política nova, se o conseguir é claro. Mesmo a universalização do regime burguês na Europa Ocidental passou pela Revolução Francesa e pelas guerras napoleónicas, ainda que o percurso de Napoleão tivesse de ser corrigido para que tal viesse a suceder. No caso inglês isto não é tão claro mas em todo o caso a superação do regime de Cromwell e o retorno do Monarca já implicou uma passagem a um regime efectivamente parlamentar que também não deixou de ser uma resposta às reivindicações republicanas embora dentro da manutenção da monarquia. E ainda, não esqueçamos que a revolução industrial teve o apoio decisivo das colónias, enfim, a violência deslocou-se, por exemplo, para a Índia para que pudesse ser diluída na metrópole.
A outra categoria da violência é o que Lacan chama “acting out”, quer dizer, é a violência própria da impotência em realmente transitar para um novo regime – é digamos uma violência tipo birra. Faz-se birra para se conseguir mais umas batatinhas mas sem realmente por em causa o regime vigente. Para esta violência não cabe a participação efectiva dos comunistas, uma vez que não leva a lado nenhum, senão talvez à prisão e até ao repúdio da maioria do povo.
Os comunistas, a meu ver, laboram com duas opções fundamentais – ou serem eleitos pelo voto ou, no caso de desintegração do regime, passar à acção revolucionária. O que os comunistas rejeitam é o acting out – daí que a próprios comunistas nas manifestações não se dêem muito bem com anarquistas e esquerdistas e que sejam inclusive acusados por estes de colaboracionismo – embora o que eles querem dos comunistas não seja uma verdadeira revolução mas apenas mais mãos para atirar cocktails molotof à sede do FMI.
Já quanto à CGTP as suas manifestações em geral não são violentas e se chegam à violência, aos confrontos entre trabalhadores e a polícia, há em todo o caso sempre um conjunto concreto de propostas concretas pelas quais lutam. A CGTP nunca vai à luta sem propor ao mesmo um pacote legislativo.
está melhor, respondo mal possa…