No meio do caos, ainda há gente, como Portas ou Seguro, que manobra para se alimentar dos restos do cadáver. Os zoólogos chamam-lhes necrófagos, o povo, sempre mais concreto, chama-lhes abutres. Mas quem viu com um mínimo de realismo o que se passou este fim-de-semana, há-de ter notado que nenhum político foi poupado à infâmia. Passos teve a resposta que merecia – tal como a oligarquia partidária que nos trouxe até aqui. Leiam os cartazes, lembrem-se das vaias no Largo do Rato, pensem na quantidade de gente que saiu à rua e terá votado no centrão. Nunca tive qualquer simpatia pelo leitor de apócrifos de Sartre que nos governa, ao contrário de muitos dos seus actuais críticos, mas se o PS e o PP prevêem beneficiar de eleições antecipadas, então prevejam melhor. Lembrem-se da Grécia.
PP

Concordo e chamo a atenção para a análise do Daniel Oliveira:
“Sim, Portas tem razão quando diz que não houve uma fusão entre o PSD e o CDS. Mas se os partidos da coligação são dois, um governo é apenas um. E a medida em causa não foi anunciada pelo PSD. Foi anunciada pelo governo de Paulo Portas. Tudo que houvesse para negociar era no governo que teria de ser negociado. Não é na praça pública. E é a isso que estamos a assistir: a uma negociação entre ministros feita em conferências de imprensa. É surreal.
(…) quando se apercebeu da monumental asneira que apenas tinha intuído tentou salvar a sua pele. Só que, por mais que custe ao ministro de Estado, não se pode ter as vantagens de ser ministro e estar a salvo das consequências disso mesmo. (…)”
http://arrastao.org/2631613.html
Por mim estou de acordo com o post. A matéria em pauta está tão polarizada que as únicas posições políticas dignas são as do sim ou não, no caso, as de Passos Coelho e as do PCP e BE. De certa forma faço um elogio a Passos Coelho embora o faça na medida em que é, para mim, um inimigo político claro e distinto. Já Portas e Seguro são os meias tintas, os do nim, quer dizer são mais do que inimigos políticos da esquerda – são, a meu ver, inimigos da política como tal.
Portas não aprova e aprova ao mesmo tempo a medida do governo e Seguro a mesma coisa, de um lado diz que é inaceitável e de outro que não quer abrir uma crise política, ou seja, que é aceitável. Seguro, no fundo, [como Portas também], não quer pegar na batata quente, quer que Passos faça o trabalho sujo para tentar que as próximas eleições lhe caiam no colo sem que nunca tenha arriscado uma subtracção clara em relação às políticas do governo.
Será interessante ver se o PS de Seguro avança com a moção de censura e o que vale uma moção de censura, não tanto porque não vai ser aprovada com maioria mas porque o próprio Seguro já disse que não quer uma crise política – a meu ver já esvaziou completamente qualquer sentido a dar a essa moção mas não me admira que prossiga com ela na mesma como não me admira que recue e não prossiga.