A arte é excepcional

Descontando  a histeria da catilinária  dedicada  a JPP,  o Carlos Vidal tem razão: a arte é excepcional. Nos últimos anos propagou-se uma  ideia infecciosa,   infecção essa revista e aumentada pela crise: o Estado não deve dar dinheiro aos vagabundos subsídio-dependentes. Não me é estranho o  debate porque já nele entrei nas páginas da revista “Ler”, já publiquei ficção e muito gosto de saber  das manchas da poesia.

Concordo com Silvina Lopes * quando  concorda  com  Malraux: partir do conceito de arte como um anti-destino, pois ela só pode existir enquanto separada de qualquer finalidade política, social, científica. Há uns meses, a convite da Anabela Mota Ribeiro, fui à Bertrand de Aveiro, mais o Richard Zimmler, falar sobre literatura.  Logo a abrir,  disse que a literatura não servia para nada. Desmontados os preconceitos  iniciais, e lavados os ouvidos  internos , as pessoas perceberam ( não concordaram) . Servir rima muito mal com arte.

A poesia, por exemplo, não serve para rigorosamente nada. O Carlos de Oliveira falava,  com suave amargor,  das máquinas de escrever poemas, que já no tempo dele parece que por aí andavam.  Essa poesia, a maquinal, talvez sirva para sessões de declamação, ateliês e essas bodegas, mas a poesia não.  Enquanto arte, a poesia  encontra-se  até  no renegar do mundo, fora dele,  alheia ao valor-mercado,  seja o das ideias,  seja  o da apropriação. O  Vampiros, de Zeca Afonso,   não tinha nada a ver com política. Em Coimbra  há um punhado de gente  que sabe quem eram e por que   vinham de noite pela calada  e comiam tudo sem deixar nada.

O Estado pode financiar  a arte porque não a financia. O que faz é garantir que um artista, que pode vir ser bom ou mau, ou que já é bom, possa comer, beber e lavar-se. O que o artista faz não foi financiado. O cliché renascentista já só serve para filmes: Miguel Angelo recebeu a encomenda  de pintar A  Batalha de Cascina no Palazzo della Signoria de Florença e ainda  o  deixaram montar um ateliê  especial no Hospital dos Tintureiros, em San Onofrio.

Já mais próximo do nosso tempo de comida de plástico e de arte  da telenovela, Larkin trabalhou  30 anos na Brynmor Jones, uma livraria da universidade de Hull: foi financiado pelo Estado.  Montale  foi nomeado, em 1967,  senador vitalício  pelo presidente da república, Giuseppe Saragat: foi financiado pelo Estado. A concepção arcaica de que o apoio do Estado tem de ser através de um ordenado ou de um subsídio é boa para conversa de café.

* Silvina Rodrigues Lopes, “Precedências  desajustadas”, in Persistência da obra/ Arte e política, org. Tomás Maia, Assírio, 2011

FNV

12 thoughts on “A arte é excepcional

  1. henrique pereira dos santos diz:

    Não quer ser mais explícito com a história dos vampiros, para quem não é de Coimbra?
    henrique pereira dos santos

    • fnvv diz:

      Não é necessário nem elegante,caro Henrique.Em privado, ok.

      • henrique pereira dos santos diz:

        O pudor, apesar de muito vilipendiado, é um sentimento nobre. Tinha apenas curiosidade de ligar com a ponta que li do Rui Pato a explicar que os vampiros nasceram essencialmente da vontade de fazer uma ruptura musical com a tradição de Coimbra e que a sua toada tinha nascido do facto de virem no comboio. Nem toda a curiosidade deve ser satisfeita, estamos de acordo.

      • fnvv diz:

        Comboio??? Em privado satisfaço-lhe a curiosidade, se quiser, claro.

      • henrique pereira dos santos diz:

        A toada, a toada, o ritmo, não o conteúdo da letra. Rui Pato, se bem me lembro, falava da ruptura ser mais estética que outra coisa qualquer.

  2. Miguel diz:

    Se percebi bem, o Larkin trabalhou como bibliotecário e por isso recebia um salário. Se
    é assim, o Pedro Costa ou o Miguel Gomes tanto podiam ser funcionários da CGD como
    da cinemateca — e fazer os seus filmes nos tempos livres. Seriam, na sua acepção, situações equivalentes de financiamento destes artistas pelo Estado. Gosto da sua ironia.

  3. fnvv diz:

    não consigo ver o vídeo

  4. caramelo diz:

    A propósito deste teu post, sobretudo da poesia inútil e fora do mundo, estava aqui a lembrar-me do Contra os Poetas do Benjamim Peret e do Gombrowitz, incluindo o texto deste para uma certa conferência.

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