Cem mil, diz o sobredotado.

Por me parecer útil, repesco um texto que publiquei há meses no Vida Breve:

Entre as luminárias do regime resplandecem os espíritos sempre airosos dos Camilos Lourenços. Enquanto outros encontram dificuldades, os Camilos revelam-nos em palavras simples os bons princípios da nossa salvação. Há dividas? Paguem-se. Há despesas? Cortem-se. Há défices? Ide buscar o cilício e mortificai-vos. Há desemprego? Emigrem. Há pobres? Trabalhem. Há fome? Comam brioches. Há mulheres que tentam vender os filhos nos subúrbios? Pois que baixem o preço dos mais pequenitos, a quem faltam vantagens competitivas. Há suicídios, mortes por inanição? Eis um modo elegante de reduzir as transferências sociais. Há velhos sem medicamentos? Um sério aviso para os jovens que não aderiram à Médis. Há ordenados muito baixos nas empresas? Extingam-se. Há ordenados muito altos na EDP? São as leis do mercado, nada a fazer.

O mundo dos Camilos obedece a valores testados em séculos de miséria abjecta e desespero universal. Antigamente eram feitores e capatazes, hoje são jornalistas e lideres de opinião. Os Camilos Lourenços dão imenso jeito. Todos os ricos deviam ter um.

Luis M. Jorge

19 thoughts on “Cem mil, diz o sobredotado.

  1. bg diz:

    eu não acho que seja maldade, apenas mediocridade. A economia é uma coisa fascinante mas o nível de abstracção é embrutecedor. Talvez fosse útil ensinar aos simples nas faculdades de economia que a maioria das conquistas civilizacionais que usufruem foram feitas contra a economia.

  2. m. martins diz:

    Será qua a voz de burro chega oa céu?

  3. Outside diz:

    Haveria tanto a dizer sobre este oráculo e as suas soluções. Mas serve blasfemos e indingentes, serve igualmente os que colocam simplesmente a questão “E alternativas?”; Alternativas existem imensas como imenso é a dimensão do “Monstro”; O processo de lipoaspiração das gorduras é que parece planeado/executado num casebre.

  4. Fernando Lopes diz:

    Brilhante, meu caro. Reduz o personagem à sua dimensão: serventuário por vocação.

  5. Meu caro Luís: este seu post devia andar sempre por aí (e, de certa forma, até anda). Lembro-me perfeitamente de o ter lido noutras paragens. E como seria de esperar, está actual como nunca.

  6. zelisonda diz:

    Tem toda a razão no que toca à questão civilizacional. O diabo é pagar o progresso civilizacional.

  7. zelisonda diz:

    O diabo é se os credores não concordam.

  8. palavrossavrvs diz:

    Meu caro, eu acho que há, nesta vida apagada portuguesa, para um só Camilo [que é o único e irrepetível Camilo Lourenço] e vários anti-Camilo Lourenço que poderiam ser, por exemplo, Mário Soares, Guterres e José Sócrates. São os Anti-Camilos Lourenço. Enquanto outros resolvem dívidas com cortes às cegas, os Anti-Camilos revelam-nos em palavras simples os bons princípios da nossa salvação. Há dividas? Contraiam-se mais. Há despesas? Aumentem-se. Há défices? Ide buscar o Ricardo Espírito Santo Salgado e fazei mais umas vinte ou trinta PPP. Há desemprego? O Estado até das pedras fará empregos. Há pobres? Tudo a eito com RSI. Há fome? Comam na cantina da Fundação Soares. Há mulheres que tentam vender os filhos nos subúrbios? Pois que que os matem antes e ainda terão bónus em contrapartidas sociais para a maternidade. Há suicídios, mortes por inanição? Subsidiem-se-lhes garrafas de bom vinho francês e linhas de coca em tabuleiros prateados através de transferências sociais a fim de tirarem isso da ideia. Há velhos sem medicamentos? Medicamentos grátis para todos, incluindo animais de estimação e assistência veterinária. Há ordenados muito baixos nas empresas? Faça-se luz e aumente-se o número de deputados. Há ordenados muito altos na EDP? Sirva o dízimo para financiar o PS e o resto da Esquerda Anti-Camilos Lourenço.

    • Só um? Deixa-me pensar, entre três blogues portugueses e alguns canais por cabo conto para aí uns trinta. Já não me espanta aliás que o Sócas quisesse tanto uma televisão para ele.

    • Outside diz:

      Camilo Lourenço fala somente de números e como tal não entendo a sua dicotomia paradoxal com situações reais, pessoais, de vidas, independentemente da solução jocosa que visualiza.

      Não sei se sabe mas a chucha não é exclusivo da esquerda, nem as pessoas/vidas são números, nem CL tem idoneidade/honorabilidade para tecer tais comentários com o vencimento astronómico pago pela RTP (RTP? É serviço público certo? Pois..) CL tem conhecimento das gorduras, dos tecidos adiposos do Monstro, mas só vê Calcanhares de Aquiles como solução, os inúmeros braços são intocáveis, desconhecidos, eternos.

      Estamos apresentados.

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