Declínio e Queda

À mesa com a crise (II)

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Pão, claro. Melhor fora escuro. Não havendo, vende-se por aí um  de Rio Maior, barato, sem melhorante nem conservantes: rijão, altaneiro, de massa densa e crosta dura. Serve para os açordes com azete.

Pode comer-se duas a três vezes por semana, só ou a acompanhar. A solitária mais simples para uma casa de família, a que preferem cá em casa, é feita com a água de uma cabeça de corvina do mar, mas também  pode usar pescada ou garoupa. Ou só água. Pisa-se o alho,  os coentros e o sal no almofariz ( ou gral) .  Bota-se este piso e o azeite na terrina,  entorna-se a água  a escaldar e as bochechas da corvina.  Pão para dentro, poejos se os houver  e fé na humanidade. Em dias de pressa de morrer,  água ao lume, azeite, dois pedaços de  peixe congelado, concentrado de tomate, uma  colher de massa de alho, oregãos frescos e pão esquartejado e uma bicha de colorau. Sova-se com  a colher de pau, dois ou três  ovos inteiros  desmaiados e para a mesa que os miúdos têm de ir para  a escola.

Os ganhões, conta o  Aníbal Falcato Alves,  tinham imenso sentido de humor. Inventaram o bife à cabreiro: tosta-se o pão velho, esfrega-se com um dente de alho e unta-se com toucinho. O  bife pobre à cabreiro é igual , mas sem toucinho.  Nos dias de hoje, isto é demasiado  pobre. Sugiro igual preparo mas pondo em cima do pão uma febra . Acompanha com uma salada de alface ( no inverno, umas couves  regadas com azeite)  e faz uma  refeição para quatro por menos  de 6 euros.

Aquilino recorda o nome dos beirões  que iam à jorna para o Alentejo: os ratinhos.  O farnel era migas e rabos de  carapau. Lembra-te  disto quando torceres o nariz a uma açorda real rematada com um  queijinho do Cano.

FNV

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