DNA.

Na Quadratura do Círculo, António Costa ensaia um belo discurso de primeiro-ministro. A China, o euro, a dívida pública perante a privada, etc. E de repente: as pessoas julgam que isto está mal por causa da corrupção. Pois julgam. Mas António Costa não. Para ele a corrupção é uma espécie de taxa moderadora sem grande conteúdo ético, um pecadilho, quase um vácuo.

Nada disto decorre do carácter do homem, nem melhor nem pior que muitos outros. Simplesmente, o problema nunca maçou os militantes do PS. A corrupção integra o código genético do partido, tal como a iniquidade integra o código genético do PSD. E perante estes assuntos os dois optam por estratégias de evitamento, rejeitando a noção de que ambos os podem conduzir à derrota.

Mas Sócrates não caiu por causa dos mercados, nem Passos Coelho cairá por causa dos sacrifícios que abstractamente quis impor aos portugueses. A corrupção e a iniquidade são os elefantes no meio da sala da vida política portuguesa.

Luis M. Jorge

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22 thoughts on “DNA.

  1. m. martins diz:

    Eles amam a desilgualdade ( a corrupção não sei)!. Olhemos para as declarações da madame Jonet.

  2. caramelo diz:

    “Simplesmente, o problema nunca maçou os militantes do PS. A corrupção integra o código genético do partido, tal como a iniquidade integra o código genético do PSD”

    Em contrapartida, a corrupção sempre maçou muito os militantes do PSD…. O Luis jorge acha mesmo que há mais corrupção nos governos e autarquias do PSD do que nos do PS, ou que os militantes do PSD são geneticamente menos propensos à corrupção do que os do PS? É uma percepção curiosa. E qual é a combinação genética no CDS? Estou tentado a fazer como faz o FNV com o mito dos Vampiros do Zeca: poderiamos ter uma conversa em privado 😉 Seria até muito democrático no relatório genético. O resto é dos jornais, os relatos públicos das fortunas dos barões, a fantástica gestão imobiliária do país, tanto nas zona rosa, como na zona laranja, sobreiros, os fundos europeus (o Fundo Social Europeu era uma festa), nos gloriosos anos do cavaquismo, etc, etc.

    • “O Luis jorge acha mesmo que há mais corrupção nos governos e autarquias do PSD do que nos do PS, ou que os militantes do PSD são geneticamente menos propensos à corrupção do que os do PS?”

      Não, não acho. É só uma questão de percepção minha e de aspiração: espero que o meu partido (tendencialmente o PS) seja melhor que os outros. Se não for melhor, não será o meu partido.

      Por exemplo, se o PS fosse corrupto E tão iníquo como o PSD nunca me preocuparia com este assunto.

      Detectar um problema não é obrigatoriamente fazer benchamarking.

      • caramelo diz:

        Está certo. Mas é fácil ter essa percepção sobre o PS, o partido que segundo consta governou o freeport durante os últimos anos. E cada ano em tempo de governação é sempre uma eternidade e deixa marcas permanentes no inconsciente. Por exemplo: parece-me razoável pensar que o Sportem tem encrustado o gene do Jorge Gonçalves pelo menos desde o tempo do Travassos. Mas eu acho que os políticos ganham todos é um genezinho do abuso do poder, é coisa comum e universal. Tenho a impressão que não houve nenhum politico até agora, sério ou desonesto, que não me impusesse, mais cedo ou mais tarde, uma coisa absurda, sempre que teve oportunidade.

      • Sportem? Jorge Gonçalves? Com o caraças, pá, fale português.

  3. palavrossavrvs diz:

    Foda-se, muito bem! Grande Post! Homem, candidata-te que tens o meu voto.

  4. caramelo diz:

    Ah, desse, o Cintra, o Sportem também não se livra.

  5. João. diz:

    “What do those who want neither Virtue nor Terror want?
    – they want corruption.” Saint-Just.

    http://www.lacan.com/zizrobes.htm

    Claro que cabe perguntar o que pode vir a significar o terror virtuoso hoje em dia, depois de já não ser concebível regressar às formulas de tipo estalinistas? A meu ver só pode começar por ser o terror contra a corrupção, ou seja, um terror imposto pelo povo sobre o Estado, incorporando, no entanto, alguns valores do regime liberal – principalmente a mediação desse terror popular através da independência do ramo judicial em relação ao executivo – no caso, por exemplo, penas pesadas para agentes que no exercício de cargos públicos associados às funções de soberania – Legislativo, Executivo, Judicial – tenham, comprovadamente, corrompido as suas funções. Se à corrupção no exercício de cargos públicos se fizesse equivaler uma moldura penal semelhante à de assassinato talvez os detentores daqueles cargos públicos pensassem duas vezes antes de prevaricar.

    Diríamos que seria um exagero equivaler a corrupção ao nível do exercício das funções de soberania ao crime de assassinato – mas o terror é sempre exagerado, é por isso que é terror. Já Hegel sugeria que o Direito na medida em que age para corrigir um mal não deixa de incorporar algum desse mal que corrige para que nessa correção ele venha a ser efectivo. É por isso que uma condenação por um crime em geral não termina com um sermão ou apenas com um certificado de culpa; a pena de prisão é o mal que o direito incorpora para corrigir o mal de que é, enquanto direito, a correcção.

    • João. diz:

      Isto não é inclusive de todo inédito no ocidente. Sabemos que, por exemplo, nos EUA um agente da CIA que seja condenado por passar segredos de Estado leva uma pena de prisão pesadíssima se não chegar a ser perpétua ou até de morte – não estou bem certo das moldura penal mas sabemos que não é brincadeira nenhuma. No caso, o espião desviado sabe que tem de passar pela perspectiva do terror, tem que viver com ela, para prosseguir com suas actividades – o que faz dele, em todo o caso, alguém incomum, o que não é o caso da maioria de nós e de nossos eleitos.

      Parece, no entanto, que em Portugal um espião pode abusar dos segredos a que tem ou teve acesso que aparentemente nada acontece senão 15 dias de notícias nos jornais, se tanto, mas esta é precisamente a questão da escolha da corrupção no lugar do terror e virtude por parte de nosso sistema.

    • João. diz:

      Mas assim chegamos à tal espécie de taxa moderadora de que fala no post, não?

      • Sou mais adepto da reprovação social. Se um tipo como dias Loureiro fosse suficientemente desprezado nas ruas, e lhe cuspissem na cara em vez de o tratArem por doutor, teríamos um excelente começo. Lá chegaremos

      • João. diz:

        Caro Luís,

        Essa posição que toma não deixa de ser o que começou por representar a Revolução Cultural chinesa – não esqueçamos que o seu alvo essencial era a própria nomenclatura do governo. É verdade que Mao jogou com a revolução cultural para afastar adversários internos, para os manter em cheque, até porque a própria esposa de Mao era uma das líderes no terreno da revolução cultural, mas em todo o caso foi numa perspectiva de limpeza e purificação do regime que muitos populares aderiram às campanhas de purga (execuções) e reeducação (campos de trabalho). Haviam, portanto dois pontos de vista, o de Mao, de aterrorizar o Partido para manter o poder sobre o Estado e o popular de aterrorizar o Estado para purificar o Partido.

        Duas perspectivas que se mantiveram opostas e que acabou por levar a revolução cultural a fracasso, ao sentimento de uma onda inútil de violência – até porque depois da morte de Mao acabou dominar o lado que para ele e para a própria Revolução Cultural era o adversário. Mao ao fim de contas não quis a consumação da Revolução Cultural através de uma recomposição da forma do próprio regime, nomeadamente descentralizando, em última análise teve receio que levasse a uma desintegração do regime já prenunciando a vitória dos “conservadores” digamos assim, de seus próprios adversários teóricos dentro do Partido.

      • Sou portanto um maoista manqué. Bem, é melhor que ser ex-maoista.

      • João. diz:

        eheheheheh

      • João. diz:

        Em todo o caso Mao, ao que me parece, até é bastante popular na China ao contrário do que se poderia julgar. E referindo-me até a um link que deixei aqui noutro post é, segundo esse texto, muito associado precisamente à luta contra a corrupção no Estado algo que também se liga à revolução cultural.

      • Os ditadores são sempre populares depois de mortos. Parece que até na Europa.

      • João. diz:

        Pode ser. Mas pode ser também que muita gente tenha simplesmente acreditado na propaganda capitalista e, passados 20 e tal anos, comece a ver que é quase tudo conversa da treta.

  6. Vicente diz:

    Também apanhei o comício do Costa e pensei o mesmo.
    Mas falar de corrupção é meio caminho para ser esquecido http://www.dinheirovivo.pt/Buzz/Artigo/CIECO060598.html?page=0&utm_source=buffer&buffer_share=1b7bf . Mas felizmente estão os outros dois grandes deste excelente blog.

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