Revisionismos 3

Começa a ser difícil acompanhar a polémica Loff-Ramos no Púbico, tal a quantidade de artigos que continua a suscitar. Foram cinco, nas últimas duas semanas, incluindo um de Loff e outro de Luís Reis Torgal que ficarão para depois. Vamos por partes.

Vasco Pulido Valente, no dia 9, teve um contributo dispensável, adjectivando de “ignorantes” os adversários de Ramos e sentenciando que este não lhes devia ter respondido. É pena. Primeiro, porque nem Loff, nem Fernando Rosas, nem Diogo Ramada Curto (que, em parte, também criticou Ramos) podem ser adjectivados de “ignorantes”  – um insulto que só desqualifica quem o arremessa. Depois, porque foi precisamente a resposta sólida de Ramos, mostrando como Loff o treslia, que arrumou a questão. E, finalmente, porque se há alguém com autoridade para vir a terreiro é Pulido Valente, que continua a ser o melhor historiador “revisionista” da I República e aquele que mais influenciou o tom e a substância do “revisionismo” de Ramos. Em vez disso, VPV preferiu debitar umas bocas do alto da coluna, nem polido nem valente, deixando a outros  trabalho de ler, escrever e pensar.  Paciência (ou falta de).

No dia seguinte, José Carvalho fustigou a “superioridade moral da esquerda”, um ponto central do debate – ignorado, como não podia deixar de ser, pela mesma esquerda que proclama fazer história “científica” por oposição à história “ideológica” dos lacaios da burguesia. Marx explica. Revejo-me em vários dos argumentos de Carvalho, apesar dos tiros ao lado. Por exemplo, não se pode dizer que Ramos pertence à “escola de Mattoso”, um termo mais adequado a muitos dos nossos medievalistas, ainda que a interpretação genérica da História de Portugal coordenada por Ramos tenha uma dívida evidente para com a obra de Mattoso (sobretudo a Identificação de um País), de resto reconhecida na dedicatória. Além de que Carvalho assume uma posição de crítica moral e política, válida, mas que ignora por completo as questões epistemológicas de fundo.

Que são aquelas que José Neves abordou, dias depois, num dos textos mais interessantes da polémica. Neves, um jovem académico neomarxista, reconhece que “o meio político-ideológico em que se move todo e qualquer historiador marca inelutavelmente o seu trabalho”, criticando assim a “ilusão de imparcialidade” que António Barreto atribuiu a Ramos. A crítica é justa, mas não deixa de ser extensível a Loff, que se move num “meio político-ideológico” muito próximo de Neves. Sendo assim, fica a pergunta óbvia: porque é que a “ilusão de imparcialidade” de Ramos deve ser denunciada, mas não a de Loff, Rosas – ou Neves? A resposta, se bem o leio, é de uma notável honestidade intelectual: Loff “deu um passo abusivo, sugerindo que o trabalho historiográfico de Ramos estaria ao serviço de um propósito político”. Os marxistas já não são o que eram. Alguns, pelo menos.

Case closed? Não, porque Neves leva o debate para o terreno em que merece ser travado. A saber, o julgamento da obra de Ramos à luz das regras da história, aceites por todos os camaradas de ofício, e não à luz das ideias do historiador, só aceites pelos companheiros de partido.  Neves levanta dois problemas que têm sido deixados “na sombra”: primeiro, a relação entre a voz das fontes e a voz do historiador; depois, o ponto de vista (a intriga, diria Veyne) da sua narrativa.

No primeiro ponto reside, em grande parte, o jogo de espelhos que está por trás da polémica. Ramos é acusado de seleccionar as fontes que apoiariam o seu revisionismo, sem as tratar com a devida distância crítica nem as confrontar com outras de sentido diferente. É uma acusação forte e que mereceria uma resposta forte. Resposta que está para além das competências deste blogger-cronista, por desconhecimento das fontes em causa.

Quanto ao segundo ponto, Neves relaciona um tão original discurso historiográfico “com a ideia de política subjacente ao olhar de Ramos. Procurando contrariar o que entende ter sido uma tendência historiográfica para a sobrevalorização do económico, do social e das estruturas, e para a desvalorização do político e da acção, o esforço de Ramos tem acusado dois vícios:tende a circunscrever o poder à esfera da política e, como sublinhou Francisco Bethencourt, a confinar o domínio da acção política às atitudes e comportamentos do que chama elites. A esta luz, teria sido porventura mais ajustado, no que à parte contemporânea diz respeito, que se tivesse optado por um título como História Política de Portugal ou História Elitista de Portugal”.

Vale a pena citar tão longamente esta passagem porque aqui reside a essencial reserva de Neves, o historiador dos grandes movimentos sociais, o discípulo de Negri e Hardt que vê a multidão como o verdadeiro actor da história, o neomarxista que privilegia a acção colectiva em detrimento da acção individual, o especialista da “história a partir de baixo”. Mas aquilo que para Neves é uma falha epistemológica é, quanto a mim, a maior conquista deste livro, que reabilita com inegável brilho a história política, na senda da historiografia anglo-saxónica representada por um A.J.P. Taylor ou, entre nós, por Vasco Pulido Valente, Fátima Bonifácio e alguns outros. Ramos e companhia (embora mais Bernardo Vasconcelos e Sousa do que Nuno Gonçalo Monteiro) propõem a política como factor de inteligibilidade e causalidade da história. Isto, meus senhores, é aquilo a que se chama por aí mudança de paradigma. Depois de décadas a ouvir explicar a Reconquista pela demografia, os Descobrimentos pela falta de cereais e o Liberalismo pelas Invasões Francesas, é refrescante saber que os senhores Afonso Henriques, João I e Pedro de Bragança  tinham uma palavra a dizer. Eles e outros que tais, irredutíveis a estruturas, processos, tendências de longa duração e abstracções quejandas. Caricaturo? Só um bocadinho.

Mais: esta reabilitação da história política, com um virtuosismo narrativo que todos têm reconhecido a Ramos mas também deve ser creditado aos outros coautores, explica em grande medida o fulgurante sucesso editorial do tijolo. Trata-se de uma bem-vinda novidade em relação à popular síntese de Oliveira Marques, que optava por uma abordagem estrutural no entanto de difícil vulgarização, ou à monumental História de Portugal dirigida por Mattoso, comprada mais do que lida, ou, hélas, ao mediático livrinho de José Hermano Saraiva, desqualificado pela academia. Ramos é lido pelo grande público e discutido pelos pares. Uma combinação revisionista – para quem não quer misturas entre o povo e as elites.

PP

6 thoughts on “Revisionismos 3

  1. João. diz:

    Caro Pedro,

    Parece-me duvidoso que dada a sua caracterização estejamos de regresso à história política, quer dizer, sem jogar os actores, vamos dizer, usando os seus exemplos, Afonso Henriques, João I e Pedro de Bragança com aquilo a que respondiam, a que reagiam, etc, não chegamos a uma história política, muito menos se nos dedicarmos a aceitar simplesmente o que os próprios possam ter dito de si mesmos e de suas motivações – eles podem, por exemplo, simplesmente ter mentido ou não ter percebido o próprio alcance do que fizeram uma vez que os feitos tenham impactado as massas e a vida do país.

    • João. diz:

      Já agora deixaria à sua apreciação uma outra divisão entre os apoiantes mais mediáticos de Rui Ramos e os seus críticos; os primeiros, com Barreto à frente, como os que, dada a situação actual, julgam que a política é essencialemente um perigo e que o que é preciso são técnicos competentes para executar o programa e um PM sem “problemas de comunicação”; enquanto os segundos são os que não abdicam de politizar, de classificar os ditos actos técnicos como actos políticos, mesmo a contragosto dos técnicos.

      Isto para dizer, enfim, que me parece que a direita, noemadamente aquela a que pertence Rui Ramos, é uma que propõe basicamente que estamos numa situação pós-política, numa situação que deve suspender a política para passar a tratar da realidade enquanto a esquerda, nomedamente a comunista, é a que vê – a meu ver, correctamente – esta posição de suspender a política e passar a tratar da realidade, como uma posição ideológcia do mais alto grau, quer dizer, uma ideologia que nem os próprios ideólogos dela se dão conta.

      • ppicoito diz:

        Não estou de acordo. a sua interpretação é muitíssimo abusiva. Nem é preciso ir mais longe: na polémica em curso, entendo que Ramos tem razão e Loff não, e reugnar-me-ia que o país fosse governado por técnicos, assim como não acredito que estejamos numa era pós-política (nem sei o que isso seja: nunca vi tal coisa). Em contrapartida, foi Mário Soares, que não é exactamente de direita, quem sugeriu apear o governo eleito e nomear uma junta de salvação nacional, ou algo assim.

      • João. diz:

        O Mário Soares é a verdadeira imagem do PS, tanto anda com o Passos ao colo como depois diz que o Passos é terrível.

        Eu digo pós-política em relação, por exemplo, à constante posição arco-governista de que não há alternativa à troika, mas de uma forma bastante precisa, ou seja, não digo que não tenhamos chegado a um ponto em que precisamos de algum tipo de austeridade, digo antes que é uma situação pós-política na medida em que não se assume claramente que o programa responde por um modelo político de fundo que, enquanto tal, terá sempre de ter alternativa porque não há uma política que seja igual à vontade de Deus.

        O PSD/CDS e o PS falam do programa da troika como se fosse uma entidade puramente técnica, é aqui que eu digo que é pós-político e o que é para mim o cúmulo do ridículo é que um ministro alemão diga qualquer coisa sobre Portugal e há um monte de gente que vai a correr citar como se o ministro alemão tivesse realmente dedicado anos ou até meses da sua vida a estudar a fundo a situação portuguesa – e quem diz ministro alemão diz também muitas outras autoridades da UE que de vez enquando falam de Portugal como se o conhecessem realmente – e podemos ainda incluir aqui também entidades de tipo do Finantial Times. E mais, tanto falam de Portugal como logo a seguir da Grécia e se for preciso ainda da Espanha e da Itália, isto tudo no mesmo discurso ou conferência de imprensa. Enfim, há uma tentativa de fazer crer que existem uns burocratas, uns técnicos europeus que sabem mesmo o que se passa e o que fazer em relação a uma série de países.

        E agora você compare isto com a polémica Ramos vs Loff, quer dizer, historiadores portugueses que dedicam anos ao estudo da história do país não chegam a acordo sobre o que pensar enquanto, ao mesmo tempo, existem esses burocratas que falam como se fosse tudo transparente.

    • ppicoito diz:

      Tem razão, claro. Não estamos perante um regresso da história política tradicional, aquilo a que os primeiros historiadores da escola dos Annales chamavam desdenhosamente (e com razão) a história dos tratados e batalhas. Ramos e os outros historiadores que citei (e poderia citar mais) incorporam os dados da história económica e social – ou, como diz, aquilo a que respondiam Afonso Henriques e Pedro de Bragança – para fazer uma história política de longo fôlego. A grande mudança é, por um lado, o protagonismo que dão, na causalidade histórica e na sua explicação, ao papel da acção individual e das elites.E, por outro (embora relacionado), a autonomia que concedem à política em ralação à influência da evolução económica e social (à infra-estrutura, para usar linguagem marxista) na mudança histórica. Espero aprofundar isto lá mais para a frente.

      • João. diz:

        A questão é que a deriva que você propõe pode – e sublinho ‘pode’, uma vez que é difícil numa caixa de comentários expormos o pleno alcance do que pensamos – tender a tornar a história numa colecção de biografias. Claro que há espaço para a biografia dos homens públicos na história mas se em excesso julgo que aumenta o risco de mistificação.

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