Revoluções (I)

Dizia Lenine que há décadas em que não se passa nada e há semanas  em que passam décadas. Há pelo menos dois anos ( muitas décadas literais, ou seja, periodos de dez dias) que se espera, com a  certeza científica do marxismo, a revolução grega. Todas as semanas  se diz que não se aguenta mais, todas semanas se aguenta mais.  É aborrecido, eu sei, falar  do caso grego. E também é difícil esperar uma revolução em 2012  sentado num banco  do século XIX.

Aqui, por exemplo, analisa-se a  certeza. Tem de haver uma  revolução porque  os gregos estão a empobrecer até um limite insuportável. O problema em aguardar a revolução sentado num banco do século XIX, é que o banco está virado para trás e o cenário proto-revolucionário  está virado para  a frente. O marxismo-leninismo foi tão poderoso que é difícil sair dos seus códigos.  A Internacional  Situacionista  tentou, mas morreu porque  os operários   e os jovens  europeus  atingiram um nível de vida  como nunca antes tinham experimentado e , sobretudo, porque  a cultura material da felicidade aniquilou qualquer  ensaio de situação anti-capitalista.

Já não há proletariado nem campesinato. Um operário da Auto-Europa de hoje  seria, pelos  padrões  do esteta Bukharine, um burguês tout court de ontem  Os únicos camponeses que restam são velhos  sem dentes, perdidos em aldeias serranas.  A revolução  que os profetas querem terá de ser feita com camadas de gente nascidas e nutridas nas sociedades  criadas  pela social- democracia: cabeleireiras, funcionários notariais , fisioterapeutas etc. Isto levanta   vários problemas.

(cont.)

FNV

11 thoughts on “Revoluções (I)

  1. João. diz:

    Caro FNV,

    Só um comentário circunscrito à sua conclusão:

    “A revolução que os profetas querem terá de ser feita com camadas de gente nascidas e nutridas nas sociedades criadas pela social- democracia: cabeleireiras, funcionários notariais , fisioterapeutas etc. Isto levanta vários problemas.”

    Qualquer revolução coloca vários problemas mas o meu ponto não é este. Remetendo a Marx é preciso distinguir entre classe operária e proletariado. A classe operária refere-se essencialmente ao conjunto de pessoas empíricas classificadas, digamos assim, pela posição que ocupam no trabalho. Enquanto classe operária esta classificação não depende dos operários, quer dizer, depende da função enquanto está disponível e é ocupada por um conjunto de pessoas. Já o proletariado, no que respeita à classe operária, é esta classe mas apenas como revolucionária, ou seja, o proletariado seria a classe operária já não apenas enquanto definida pela situação, pela vigência, mas enquanto se define a si mesma como revolucionária, enfim, é aquele conjunto de pessoas mas apenas enquanto são para si uma classe que se decide por um projecto de transformação política da situação. Em todo o caso, uma vez formada uma classe revolucionária a partir de uma adesão popular, mesmo que essa adesão comece por ser a de um determinado grupo, é possível que a ela se juntem outros grupos se vierem a rever-se nas orientações fundamentais da classe revolucionária original.

    É verdade que o capitalismo conseguiu no século XX gerar uma classe média cuja posição não é, como a dos operários a que Marx se referia, de nada ter a perder senão as suas cadeias, mas não deixa de ser verdade também que hoje em Portugal e na Grécia, por exemplo, é essa classe média que está sob ameaça de destituição e que se os pais desta classe média em processo de distituição poderão estar ainda enraizados no conservadorismo da classe média no que respeita a um projecto revolucionário de transformação da situação, quanto aos filhos poderá já não ser assim especialemente se já só conheçam a distituição, o desemprego, a exploração, a necessidade de emigrar, etc.

    Em todo o caso, não se pode dizer que caminhamos para uma revolução. A revolução é sempre um conceito retroactivo, quer dizer, primeiro precisa de acontecer sem que se saiba bem o que é para que, se chegar a sê-lo, ser depois retomada como revolução.

  2. fnvv diz:

    Caro João,

    Depende. Lenine discordava dessa análise , no seu artigo contra Mikhailovski ( “Quem são os Amigos do Povo”, 1894): “A Rússia não precisa de criar o seu proletariado: este já existe”.
    Be as it may, o essencial é a gasolina e uma vez mais concordo com Lenine, que achava que o desespero gera massas sem capacidade de compreender a origem do mal: “Não há Revolução sem teoria revolucionária”.

    • João. diz:

      Sim, mas isso é o que Lenin disse; porém, a meu ver, é preciso jogar o que ele disse com o interlocutor – o interlocutor mais geral, no caso, julgo, seriam essencialmente os hesitantes que não seriam apenas políticos mas também os próprios operários e camponeses que nestes se poderiam rever. Então, dialecticamente, quando Lenin diz que a Rússia não precisa de criar o seu proletariado o que isto indica é que precisa, tendo em vista a diferenciação entre proletariado e classe operária. Um operário passa a proletário, naquele caso, quando já não hesita, enquanto hesita não é ainda um revolucionário. Isto não quer dizer que os revolucionários não tenham hesitações, que sejam autómatos, o que quer dizer é que as hesitações passam para o plano da revolução, quer dizer, já não são hesitações, dúvidas, sobre passar ou não à revolução mas hesitações sobre o que fazer uma vez decidido pela revolução para que esta tenha sucesso.

      Julgo que com Lenin nós temos dois tipos essenciais de trabalho teórico, um cujo fito é gerar a classe revolucionária e outro cujo fito é orientar a revolução uma lançada e alçada ao aparelho de Estado. Porém é também verdade que este último trabalho ficou mais a cargo de Stalin do que de Lenin. Se nós virmos a estrutura lógica da dialéctica hegeliana que é a matriz nós vemos que qualquer figura ou forma de verdade mesmo que emerja da suprassumpção de formas e impasse anteriores torna-se no momento seguinte, assim que se afirma, uma unilateralidade o que indica que já tem no seu própio interior um conflito entre particularidade e universalidade o que recomendaria aos políticos que são dialécticos não só prudência mas um próprio espaço para deixar respirar esse conflito, essa contradição.

      Stalin nunca admitiu isto, para ele a negação da negação, quer dizer, a negação da negatividade, do conflito, que uma figura de verdade jé traz no seu interior, era para se efectivar sem que chegasse a respirar, a mostrar-se e até a desenvolver-se, daí o terror, quer dizer, de um lado a consciência de que haveria certamente uma dimensão conflituosa na figura de verdade do comunismo soviético mas de outro lado, ao contrário do que já indica a dialéctica hegeliana, que propõe que este conflito é inevitável e que é inevitável que venha a ganhar corpo, Stalin pensou que poderia impedir que chegasse a ganhar corpo e forma e daí que a sua dialéctica, a de Stalin, se pareça com um tractor que avança triturando o conflito e a resistência.

      A conclusão disto para o comunismo contemporâneo é que já não há regresso ao modelo soviético a não ser como comédia uma vez que já foi como tragédia. A meu ver o PCP já percebeu isto, aliás basta ver o programa do PCP para que lá se verifiquem uma série de posições que no seu tempo concerteza provocariam as críticas mais ferozes de Lenin.

      • João. diz:

        Já agora, hoje qualquer filósofo da revolução tem que passar por Alain Badiou, um comunista, e a sua teoria do Evento, nomeadamente do “Ser e do Evento” uma de suas obras principais, não para dogmatizar Badiou mas para problematizar o pensamento revolucionário.

        Permita-me que recomende um livrinho, a meu ver, magnífico de Badiou, titulado “São Paulo” onde a propósito do que foi para ele a essência do trabalho de São Paulo para a distinção do cristianismo de ambos o “espírito” judaico e o “espírito” grego ele trata de uma forma muito acessível, mas não sem alguma complexidade, de questões centrais à sua teoria do Evento. Este livro tem ainda o extra de ser realmente fiel a São Paulo sendo, todavia, o autor do livro um ateu comunista. Se algum dia o ler, verá que tirando os momentos em que Badiou afirma o seu ateísmo, é ao mesmo tempo uma obra fundada numa fidelidade imensa ao que Paulo significa para a religião cristã e que, a meu ver, poucos cristãos terão conseguido no que em seus escritos possam ser ditos filosóficos erguer São Paulo ao estatuto em que o coloca Badiou.

        Basicamente Badiou passa por Paulo para tentar mostrar o que é um sujeito de um Evento, quer dizer, da irrupção de uma novidade autêntica. É também a teoria de Badiou do Militante para cujo São Paulo é paradigmático.

        É um livrínho magnífico. Segundo uma rápida investigação no google pareceu-me que não está editado em Portugal o que é pena.

        Deixo uma frase do livro que espero sirvir para dar o tom da honestidade intelectual com que este ateu comunista, sem abdicar nem do ateísmo nem do comunismo, fala de Paulo:

        ” Nietzsche, no diálogo de Zaratustra com o cão do fogo, diz que os acontecimentos [Eventos] verdadeiros chegam em pés de lã, que eles nos surpreendem no momento mais silencioso. Ele deveria ter reconhecido, nesse ponto assim como em muitos outros, sua dívida para com Paulo, que ele esmagou com a sua vingança: “O dia do Senhor chegará como um ladrão na noite” (1Ts 5.2)

        O que é interessante também em Badiou é que ele não é hegeliano e, a meu ver, é fundamental que o pensamento dialéctico se confronte teoricamente com o que se lhe opõe, sem isto não há dialéctica mas apenas um semblante dela.

      • fnvv diz:

        Gracias, mas há muito que rodeio o homem e me meto com os badiounianos portugueses nos blogues ( A hipotese comunista e metapolítica) . Vou seguir o conselho do S.Paulo ( não conheço) , mas sem muita esperança eheheh…

      • João. diz:

        Sinceramente acho que não tem erro com o “São Paulo” de Badiou – não na perspectiva de quem o ler sair de lá para ir militar na revolução mas porque é mesmo instigante. Na verdade é tão capaz de deixar um marxista dogmático desconfiado como, ao invés e ao mesmo tempo, de inflamar o coração de um cristão…:)

        Se um dia o chegar a ler, diga qualquer coisa.

  3. bg diz:

    Uma revolução é o que está de certa forma a acontecer na grécia e em portugal eg. “mudança brusca e violenta na estrutura económica, social ou política de um Estado”.

    • fnvv diz:

      isso veremos, há pano para mangas…

    • João. diz:

      bg, é uma revolução mas sem verdade, estéril. Serve acima de tudo para ajustar os velhos poderes – os do grande capital – às novas circunstâncias.

      • João. diz:

        Embora passa acontecer que a coisa lhes fuja das mãos e aí talvez possa haver uma revolução autêntica – embora diga desde já que, em minha opinião, se não for uma revolução comunista, não chegará a ser mais do que aquele ajustar das velhas elites capitalistas às novas circunstâncias.

  4. Luís Mário Lima diz:

    Estou em crer que pelo menos As cabeleirieiras e Os funcionários notariais existiriam antes da social democracia

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: