À mesa com a crise (III)

Carnes. Bem, meus amigos, não há nenhum amigo, também não há carnes santas. Os frangos engordados a  antibióticos, os porcos cevados  em hormonas, os vitelos   que pedem pitança à  farinha rançosa. Tão longe que estamos da fórmula de  Arzak, que chamava frutos do campo à bela bicheza.

Não haverá  coisa menos  susceptível de prender o leitor do que  a carne  assada ( a menos que queira  ser primeiro-ministro) , mas asseguro que,  depois de uma costeleta de vitela arouquesa tostada nas ladelas e com o meio vermelhão a receber  as lágrimas da gordura amarela, a minha carne assada é o segundo céu em dias invernosos. Ela cabe nesta série porque poupa  e aconchega. Ora vamos aos açougues:

Uma peça de três quilos , no mínimo.  Pojadouro, rabadilha. Mais barato não há.  Evitar o peito lusitano  ( em França, por exemplo, já se pode usar). Afoguem-na de véspera  num alguidar raso de água enjoada de  louro, pimenta em grão, um limão, um cravinho, sal, uma cebola, alho à Benfica e um dedal de vinho branco. Amaciar a senhora, ou seja, como às verdadeiras, deixá-la falar ,  dar-lhe tempo para que ela se entregue até aos  últimos nervos.

No dia seguinte ( isto deve ser feito aos domingos)  tirar a peça, secá-la, barrá-la com azeite, alho, colorau e alho. Deitá-la no tabuleiro e rodeá-la de cenourinhas, um alho francês  segado com violência e  cebolas ( das novas que ainda aí andam e são mais doces e mais  baratas nas feiras respectivas). Estes permeios  darão molho, vapores relaxantes e aromas terciários.  Uns graõs de mostarda,  uma noz de manteiga e meio copo de cerveja nas costas da peça, para fazer a ponte com os Bruddenbrook. Forno lento durante quatro  horas, regando sempre, mexendo  pouco,  distraindo  nunca ( com licença do grande Fialho).

No domingo ao jantar come o pai,  a mãe, os filhos e o coloneus, se bater à porta,  porque será bem vindo.Vantagem: lá para terça-feira  nova rodada e no final da semana ainda sobrou  para um almoço de sanduíches.

FNV

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8 thoughts on “À mesa com a crise (III)

  1. amigo do carlos xistra diz:

    epá, não havia necessidade de pores o til dos grãos tão à frente, assim até parece nouvelle cousine

  2. Boa tarde Filipe e algumas notas/perguntas não culinárias:
    1ª – Se quiser ser 1º ministro não posso fazer/comer a sua receita?
    2ª- A cerveja tem de ser alemã, para ligar com os Bruddenbrook?
    E agora as culinárias:
    – vou arriscar fazer a receita;
    – já pensou lançar um livro das suas receitas?
    Abraço

  3. fnvv diz:

    oras… é tão simples.
    Livro? credo.

    abraço tipo Xistrado

  4. henedina diz:

    “Amaciar a senhora, ou seja, como às verdadeiras, deixá-la falar , dar-lhe tempo para que ela se entregue até aos últimos nervos.”
    Diga lá…ocorreu-lhe que eu comentasse esta frase?

  5. henedina diz:

    A receita gostei. Culinária parece poesia e aconchega ler.

  6. josé serra diz:

    filipe, tás em forma. grande abraço, que vou experimentar a coisa. depois te direi dos resultados

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