7.

Sempre que escreveres uma coisa, deixa algo para a imaginação do.

Luis M. Jorge

10 thoughts on “7.

  1. João. diz:

    Caro Luís,

    Isso é uma grande verdade. Como coloca Lacan – e que aliás é tema de um livro de Zizek que estou a ler “Looking Awary” – o objecto do desejo, o objecto “petit ‘a’, nunca é olhado de frente é, digamos, sempre olhado de lado; é neste olhar que se revelam as “curvinhas” que são, muitas vezes, as que ocupam o lugar daquele objecto. Um objecto, esse “objet petit a”, que o é enquanto lugar de uma falta, é então, enquanto tal, um objecto que significa, digamos, um infinito. A “curvinha”, o “objet petit ‘a'”, por exemplo no corpo da mulher, que suscita o desejo não é, então, uma coisa, é um lugar onde o desejo não encontra fim e é enquanto tal a sua reprodução infinita.

      • João. diz:

        Lacan é magnífico embora seja tão obscuro que me parece não haver meios de começar directamente pelos seus textos, julgo que tem de se começar necessariamente pelas beiradas, por comentadores que assistiam aos seus seminários e que privavam com ele e daí ir saltando para os textos que são semore além dos comentadores. Neste jogo impera a própria lógica do desejo que Lacan conhecia muito bem, quer dizer, há sempre um excesso de Lacan em relação aos comentários, mesmo os mais brilhantes deles – como os de Jacques-Alain Miller, os de Bruce Fink e os de Zizek, só para falar dos que conheço melhor.

        A patologia do desejo, a meu ver, pode começar quando se torna o imperativo de uma descarga, quando o sujeito em vez de ser fiel ao desejo, quer dizer, à sua reprodução enquanto tal, passa a querer consumá-lo – pegando no seu post, passa a querer não deixar nada à imaginação. A violência nestes casos pode ser extrema porque a lógica do desejo é desejar algo, uma parte, no outro mais do que a esse outro, desejar a parte mais do que o todo, e, nos casos de uma passagem a essa consumação objectiva, digamos assim, o resultado é a da compressão do outro, sobre o outro, activamente, a essa parte de uma parte (objecto parcial).

        Nós vemos no filme Vertigo esse movimento quando o “herói” do filme termina querendo conformar a mulher que ele conhece à imagem de uma outra que era a de seu desejo, pinta-lhe o cabelo da cor da outra, veste-a como a outra se vestia e até, antes de a beijar, assegura-se que o próprio quarto onde o beijo vai acontecer está igual ao que estava quando lá esteve com aquela outra de seu desejo – o suicídio dessa mulher no fim representa bem essa compressão a que leva não querer deixar nada para a imaginação, a querer concretizar, agarrar, o objecto do desejo.

        Há um outro filme, claramente Lacaniano, chamado ” O Joelho de Claire” (Le genou de Claire) escrito e realizado por Eric Rohmer que passa por esta questão do “objet petit a”; é a história de um homem que encontra uma amiga de longa data em vésperas de seu casamento. Ele começa por dizer que finalmente chegou ao ponto onde se encontra plenamente satisfeito, que finalmente conheceu uma mulher que satisfaz todas as suas necessidades mas como o desejo é diferente da necessidade, da satisfação de necessidades, vemos como nele o desejo regressa, irrompe, através do fascínio com o joelho de Claire, uma adolescente, pelo qual o homem fica, digamos, obcecado, quer dizer, não por ela mas por seu joelho.

        Enfim, o joelho de Claire ocupa ali o lugar de um “buraco”, uma fissura, uma falta, uma lacuna, que não pertence ao domínio da satisfação de necessidades, uma lacuna, a do desejo, que está lá num “outro lugar” em relação à necessidade, mesmo quando esta é tida como satisfeita plenamente.

        Li também sobre um homem que depois de consumar a relação sexual com a sua esposa ia para a linha de ferro esperar pela passagem do combóio para baixar as calças e exibir-se aos passageiros, quer dizer, depois de satisfeita a necessidade sexual sobrava alguma coisa que não correspondia ao mesmo plano.

      • João. diz:

        Nós vemos também, por exemplo, este “jogo” da diferença entre necessidade e desejo nos anúncios de automóveis, lá jogam-se dois planos que não se fundem. O da necessidade corresponde ao que no anúncio fala das características técnicas do carro como objecto da necessidade de circular de um lado para o outro, aqui fala-se de não sei quantos cavalos, de direcção assistida, etc; mas os anúncios nunca ficam por aqui, eles remetem também para o que Marx dizia, no Capital, ser as propriedades ou subtilezas teológicas das mercadorias, enfim, propriedades mágicas, digamos assim – é aqui que aparece a super modelo que se “joga aos pés” do proprietário do carro só por causa do carro.

        Aqui já não está em jogo a necessidade de circular de um lado para o outro mas a mais-valia de gozo sugerida pelo “objet petit a” cujo lugar a super modelo ocupa. Que são duas lógicas diferentes é evidente pelo facto de ser perfeitamente aceitável que se o anúncio disser que o carro tem 16 Cavalos e alguém em o adquirindo vir a verificar que tem só 2 Cavalos, que este tenha o direito de devolver o carro e receber o dinheiro de volta por razão de publicidade enganosa.

        Porém, já não é a mesma coisa se o indivíduo ao fim de 20 anos, por exemplo, de posse do carro colocar um processo em tribunal para que lhe seja devolvido o dinheiro por, que neste longo espaço de tempo em que circulou com o carro, nenhuma super modelo se ter jogado a seus pés.

    • VF diz:

      Eu sempre disse, os comunas são chonés 😉

  2. Logo vou ter que ler isto com calma. Ninguém escreve tanto se não valer a pena.

    • João. diz:

      Desculpe os longos comentários mas de facto, para mim, o seu post, como disse, condensa uma grande verdade com que vale a pena entrar em jogo. O deixar para a imaginação, eu vejo como deixar deslizar o próprio desejo – que já para Espinosa era a essência do homem e para Hegel a essência da auto-consciência, ou seja, o seu determinante mínimo ou o seu “sine qua non”, pelo menos segundo a interpetação que faço dos primeiros movimentos do capítulo IV da Fenomenologia do Espírito. Claro que nem Hegel, nem Espinosa o tratam nos termos em que Lacan o faz mas ainda assim é sempre o desejo e suas metáforas e metonímias.

    • óbvio diz:

      Vale a pena.

  3. óbvio diz:

    …do leitor.

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