A solidão.

Se exceptuarmos um punhado de ex-maoistas e três sobredotados que saíram de uma cova para frequentarem colóquios de empreendedorismo em Valongo já não há um português que defenda este Governo. Até os assessores regressam de monco caído às evocações maviosas de Oliveira Salazar e folheiam Torga e Herculano e meditam nas doçuras do exílio — o queijo de Serpa, as morcelas da Guarda, as pernas descobertas da Brígida guardadora de patos, sempre amiga dos estudantes… Ah, caralho, onde estão as neves de antanho?

Isto impressiona e faz rir em doses equivalentes, como um circo de pulgas, porque já sabemos onde acaba. Acaba numa nova fornada de senadores que em breve inchará os programas de comentário político entre os cadáveres do santanismo e do socratismo, tentando fazer esquecer o ridículo que desceu sobre gente tão sisuda. Acaba em dois ou três escritórios de advogados com negócios em Angola e o mesmo banco de sempre escondido atrás das cortinas. Mas rimo-nos durante a contagem porque os vemos nus, em pânico, aos saltos a resfolegar. Bonecos sobranceiros, robertos, ídolos de ópera bufa: nada nos dá tanto prazer como a sua solidão.

Luis M. Jorge

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