Monthly Archives: Setembro 2012

Ó tempo volta para trás (III)

Em 2004, este  sibarita das fotocópias   declarava: ” Governámos como cavalheiros, saímos como senhores“.

Não tenho tanta certeza se o cavalheirismo incluiu  assuntos polícia e, agora,  falta  de fibra para  dividir as consequências das políticas.  E tenho muitas dúvidas de que os senhores saiam pela porta dos lacaios.

FNV

À mesa com a crise (III)

Carnes. Bem, meus amigos, não há nenhum amigo, também não há carnes santas. Os frangos engordados a  antibióticos, os porcos cevados  em hormonas, os vitelos   que pedem pitança à  farinha rançosa. Tão longe que estamos da fórmula de  Arzak, que chamava frutos do campo à bela bicheza.

Não haverá  coisa menos  susceptível de prender o leitor do que  a carne  assada ( a menos que queira  ser primeiro-ministro) , mas asseguro que,  depois de uma costeleta de vitela arouquesa tostada nas ladelas e com o meio vermelhão a receber  as lágrimas da gordura amarela, a minha carne assada é o segundo céu em dias invernosos. Ela cabe nesta série porque poupa  e aconchega. Ora vamos aos açougues:

Uma peça de três quilos , no mínimo.  Pojadouro, rabadilha. Mais barato não há.  Evitar o peito lusitano  ( em França, por exemplo, já se pode usar). Afoguem-na de véspera  num alguidar raso de água enjoada de  louro, pimenta em grão, um limão, um cravinho, sal, uma cebola, alho à Benfica e um dedal de vinho branco. Amaciar a senhora, ou seja, como às verdadeiras, deixá-la falar ,  dar-lhe tempo para que ela se entregue até aos  últimos nervos.

No dia seguinte ( isto deve ser feito aos domingos)  tirar a peça, secá-la, barrá-la com azeite, alho, colorau e alho. Deitá-la no tabuleiro e rodeá-la de cenourinhas, um alho francês  segado com violência e  cebolas ( das novas que ainda aí andam e são mais doces e mais  baratas nas feiras respectivas). Estes permeios  darão molho, vapores relaxantes e aromas terciários.  Uns graõs de mostarda,  uma noz de manteiga e meio copo de cerveja nas costas da peça, para fazer a ponte com os Bruddenbrook. Forno lento durante quatro  horas, regando sempre, mexendo  pouco,  distraindo  nunca ( com licença do grande Fialho).

No domingo ao jantar come o pai,  a mãe, os filhos e o coloneus, se bater à porta,  porque será bem vindo.Vantagem: lá para terça-feira  nova rodada e no final da semana ainda sobrou  para um almoço de sanduíches.

FNV

Com as etiquetas

2.

Enquanto o mundo não estiver melhor, recusa-te a cortar as unhas. Daqui a um mês testemunharás grandes progressos.

Luis M. Jorge

1.

Para quem não distingue as suas ideias dos seus preconceitos até o cabeleireiro é uma importante escolha moral.

Luis M. Jorge

O som e a fúria

“A TSU punha um problema de equidade, que esteve na origem da indignação presente nas manifestações. Tem havido progressos, mas o grande problema é o problema de legitimidade. Não, como alguns dizem, da legitimidade democrática, que está mais do que assegurada. É a legitimidade moral, política, e essa só existe se houver uma distribuição tendencialmente equitativa dos sacrifícios. Não está demonstrado, embora esteja a ocorrer, que, no caso das PPP, no caso do capital, no caso da banca, estejamos a fazer tudo o que seria possível para assegurar a equidade.”

Paulo Rangel, em entrevista ao Público, 23/9/2012.

PP

Ó tempo volta para trás (I)

Tony de Matos Marques Mendes:Isto significa que os trabalhadores da função púbica já muito martirizados…”.

Apesar  do nome, é uma promessa da política portuguesa: descomprometido, sem rabos-de-palha, reformista, livre-pensador, coerente etc.

FNV

Roma.

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Woody Allen em modo great pretender, com a liberdade criativa de quem se está a marimbar. Há velhos felizes.

Luis M. Jorge

Elegia.

Pelas dez da noite fui comer um gelado à Surf. Em frente do Pingo Doce da Avenida de Paris três ou quatro tipos esventravam com método um contentor de lixo. No adro da igreja da Praça de Londres havia serão de fados, a que não faltou o Embuçado nem As árvores morrem de pé. A vinte metros da pastelaria Mexicana meia dúzia de infelizes esperavam pela sopa dos pobres itinerante da Beata Isabel Jonet.  Um maluco de barbas amarelas desejou-me boa noite.

Se tivesse subido ao Técnico encontraria putas de quinze anos ternamente vigiadas pelas chaperones. Assim papei um cone de cheesecake entre ovações à Odete desgraçada, no Portugal sóbrio e comedido, modesto e compungido, parco, indigente e pranteado que agora não vive, e nosso senhor o guarde, acima das  possibilidades.

Luis M. Jorge

Revoluções (I)

Dizia Lenine que há décadas em que não se passa nada e há semanas  em que passam décadas. Há pelo menos dois anos ( muitas décadas literais, ou seja, periodos de dez dias) que se espera, com a  certeza científica do marxismo, a revolução grega. Todas as semanas  se diz que não se aguenta mais, todas semanas se aguenta mais.  É aborrecido, eu sei, falar  do caso grego. E também é difícil esperar uma revolução em 2012  sentado num banco  do século XIX.

Aqui, por exemplo, analisa-se a  certeza. Tem de haver uma  revolução porque  os gregos estão a empobrecer até um limite insuportável. O problema em aguardar a revolução sentado num banco do século XIX, é que o banco está virado para trás e o cenário proto-revolucionário  está virado para  a frente. O marxismo-leninismo foi tão poderoso que é difícil sair dos seus códigos.  A Internacional  Situacionista  tentou, mas morreu porque  os operários   e os jovens  europeus  atingiram um nível de vida  como nunca antes tinham experimentado e , sobretudo, porque  a cultura material da felicidade aniquilou qualquer  ensaio de situação anti-capitalista.

Já não há proletariado nem campesinato. Um operário da Auto-Europa de hoje  seria, pelos  padrões  do esteta Bukharine, um burguês tout court de ontem  Os únicos camponeses que restam são velhos  sem dentes, perdidos em aldeias serranas.  A revolução  que os profetas querem terá de ser feita com camadas de gente nascidas e nutridas nas sociedades  criadas  pela social- democracia: cabeleireiras, funcionários notariais , fisioterapeutas etc. Isto levanta   vários problemas.

(cont.)

FNV

Revista Caras Esquerdinhos no Palácio de Belém

Por estes dias começamos  a reconhecer os participantes do concurso  Casa da Revolução, organizado pelos queridos  do Bloco  e patrocinada pela nossa amiguinha TSF. Algumas caras são sempre as mesmas ( as dos manos   Anonymous, por exemplo, elegantérrimos) , o que nos faz criar laços afectivos com os personagens.

Os concorrentes são um bocado monótonos  ao nível do vestir e não sei quê. Eles de rabo de cavalo ou boina, chanatas   e mochila; elas com aquele ar sofrido de quem não conseguiu fazer a omeleta, calças largoiças compridas  ( a bela perna é neoliberal) e também chanatas ( o salto alto realça a bela e perna e já  se sabe  e não sei quê).   O tom geral fica  a meio de um jantar de amigos  do Chapitô com um convívio do RDA69.

Amiguinhos, o povo está  convosco, mas agora temos  de ir dormir porque amanhã há o concurso de pesca  da junta de freguesia de Santo Estevão.

FNV

Revisionismos 3

Começa a ser difícil acompanhar a polémica Loff-Ramos no Púbico, tal a quantidade de artigos que continua a suscitar. Foram cinco, nas últimas duas semanas, incluindo um de Loff e outro de Luís Reis Torgal que ficarão para depois. Vamos por partes.

Vasco Pulido Valente, no dia 9, teve um contributo dispensável, adjectivando de “ignorantes” os adversários de Ramos e sentenciando que este não lhes devia ter respondido. É pena. Primeiro, porque nem Loff, nem Fernando Rosas, nem Diogo Ramada Curto (que, em parte, também criticou Ramos) podem ser adjectivados de “ignorantes”  – um insulto que só desqualifica quem o arremessa. Depois, porque foi precisamente a resposta sólida de Ramos, mostrando como Loff o treslia, que arrumou a questão. E, finalmente, porque se há alguém com autoridade para vir a terreiro é Pulido Valente, que continua a ser o melhor historiador “revisionista” da I República e aquele que mais influenciou o tom e a substância do “revisionismo” de Ramos. Em vez disso, VPV preferiu debitar umas bocas do alto da coluna, nem polido nem valente, deixando a outros  trabalho de ler, escrever e pensar.  Paciência (ou falta de).

No dia seguinte, José Carvalho fustigou a “superioridade moral da esquerda”, um ponto central do debate – ignorado, como não podia deixar de ser, pela mesma esquerda que proclama fazer história “científica” por oposição à história “ideológica” dos lacaios da burguesia. Marx explica. Revejo-me em vários dos argumentos de Carvalho, apesar dos tiros ao lado. Por exemplo, não se pode dizer que Ramos pertence à “escola de Mattoso”, um termo mais adequado a muitos dos nossos medievalistas, ainda que a interpretação genérica da História de Portugal coordenada por Ramos tenha uma dívida evidente para com a obra de Mattoso (sobretudo a Identificação de um País), de resto reconhecida na dedicatória. Além de que Carvalho assume uma posição de crítica moral e política, válida, mas que ignora por completo as questões epistemológicas de fundo.

Que são aquelas que José Neves abordou, dias depois, num dos textos mais interessantes da polémica. Neves, um jovem académico neomarxista, reconhece que “o meio político-ideológico em que se move todo e qualquer historiador marca inelutavelmente o seu trabalho”, criticando assim a “ilusão de imparcialidade” que António Barreto atribuiu a Ramos. A crítica é justa, mas não deixa de ser extensível a Loff, que se move num “meio político-ideológico” muito próximo de Neves. Sendo assim, fica a pergunta óbvia: porque é que a “ilusão de imparcialidade” de Ramos deve ser denunciada, mas não a de Loff, Rosas – ou Neves? A resposta, se bem o leio, é de uma notável honestidade intelectual: Loff “deu um passo abusivo, sugerindo que o trabalho historiográfico de Ramos estaria ao serviço de um propósito político”. Os marxistas já não são o que eram. Alguns, pelo menos.

Case closed? Não, porque Neves leva o debate para o terreno em que merece ser travado. A saber, o julgamento da obra de Ramos à luz das regras da história, aceites por todos os camaradas de ofício, e não à luz das ideias do historiador, só aceites pelos companheiros de partido.  Neves levanta dois problemas que têm sido deixados “na sombra”: primeiro, a relação entre a voz das fontes e a voz do historiador; depois, o ponto de vista (a intriga, diria Veyne) da sua narrativa.

No primeiro ponto reside, em grande parte, o jogo de espelhos que está por trás da polémica. Ramos é acusado de seleccionar as fontes que apoiariam o seu revisionismo, sem as tratar com a devida distância crítica nem as confrontar com outras de sentido diferente. É uma acusação forte e que mereceria uma resposta forte. Resposta que está para além das competências deste blogger-cronista, por desconhecimento das fontes em causa.

Quanto ao segundo ponto, Neves relaciona um tão original discurso historiográfico “com a ideia de política subjacente ao olhar de Ramos. Procurando contrariar o que entende ter sido uma tendência historiográfica para a sobrevalorização do económico, do social e das estruturas, e para a desvalorização do político e da acção, o esforço de Ramos tem acusado dois vícios:tende a circunscrever o poder à esfera da política e, como sublinhou Francisco Bethencourt, a confinar o domínio da acção política às atitudes e comportamentos do que chama elites. A esta luz, teria sido porventura mais ajustado, no que à parte contemporânea diz respeito, que se tivesse optado por um título como História Política de Portugal ou História Elitista de Portugal”.

Vale a pena citar tão longamente esta passagem porque aqui reside a essencial reserva de Neves, o historiador dos grandes movimentos sociais, o discípulo de Negri e Hardt que vê a multidão como o verdadeiro actor da história, o neomarxista que privilegia a acção colectiva em detrimento da acção individual, o especialista da “história a partir de baixo”. Mas aquilo que para Neves é uma falha epistemológica é, quanto a mim, a maior conquista deste livro, que reabilita com inegável brilho a história política, na senda da historiografia anglo-saxónica representada por um A.J.P. Taylor ou, entre nós, por Vasco Pulido Valente, Fátima Bonifácio e alguns outros. Ramos e companhia (embora mais Bernardo Vasconcelos e Sousa do que Nuno Gonçalo Monteiro) propõem a política como factor de inteligibilidade e causalidade da história. Isto, meus senhores, é aquilo a que se chama por aí mudança de paradigma. Depois de décadas a ouvir explicar a Reconquista pela demografia, os Descobrimentos pela falta de cereais e o Liberalismo pelas Invasões Francesas, é refrescante saber que os senhores Afonso Henriques, João I e Pedro de Bragança  tinham uma palavra a dizer. Eles e outros que tais, irredutíveis a estruturas, processos, tendências de longa duração e abstracções quejandas. Caricaturo? Só um bocadinho.

Mais: esta reabilitação da história política, com um virtuosismo narrativo que todos têm reconhecido a Ramos mas também deve ser creditado aos outros coautores, explica em grande medida o fulgurante sucesso editorial do tijolo. Trata-se de uma bem-vinda novidade em relação à popular síntese de Oliveira Marques, que optava por uma abordagem estrutural no entanto de difícil vulgarização, ou à monumental História de Portugal dirigida por Mattoso, comprada mais do que lida, ou, hélas, ao mediático livrinho de José Hermano Saraiva, desqualificado pela academia. Ramos é lido pelo grande público e discutido pelos pares. Uma combinação revisionista – para quem não quer misturas entre o povo e as elites.

PP

Speculum Regis. Conselhos a um Jovem Príncipe sobre o Governo do Reino, cap. IV

Ouve o povo. Não o “povo” das TVs, dos jornais e dos blogues, que fala muito do povo para te fazer crer que é do povo. Ouve o povo que paga os tributos, gasta o que tem, compra galinhas em metálico e poupa para ter um filho doutor. Não escarneças da sua sabedoria. Não abuses da sua paciência. Lembra-te que o poder vem de Deus, mas passa pelos homens.

PP

Futebol & mortes

1) Lucho Gonzalez, El Comandante,  jogou em Zagreb   no dia em que soube que o pai morreu , lá longe na Argentina.  Os relatos dão conta de coragem, profissionalismo e mais umas  acelgas. Errado.

Na manhã de  dia 20 de Abril de 1998, enterrei  o meu filho João , com ano e meio. Cheguei a casa, almocei e fui para o consultório ouvir as pessoas que sofrem. Nem eu nem o Lucho ( nem todos os que fazem o mesmo)  fomos corajosos, bravos ou especialmente profissionais. Fomos apenas  inteligentes:  ficar acordado, adiar o discurso morfínico do estupor.

2) O Sporting continua  a sua morte lenta. Sujeita-se  com alegria, sob  a batuta de uma claque  e com negros assuntos de polícia,   ao strappado, a tortura florentina em que o sujeito era  suspenso pelos  pulsos amarrados  atrás das costas: ora desce com força ora trava com clangor. O Daniel Oliveira  explica isto muito bem na edição de hoje do Record.

3) Fabrice Muamba esteve morto uma hora  ( no relvado e no hospital) e já não joga mais futebol. Alguém lhe dê a ler  L’instant de ma mort , do Blanchot, o especialista  em viver uma  vida inteira a um segundo da morte.

FNV

DNA.

Na Quadratura do Círculo, António Costa ensaia um belo discurso de primeiro-ministro. A China, o euro, a dívida pública perante a privada, etc. E de repente: as pessoas julgam que isto está mal por causa da corrupção. Pois julgam. Mas António Costa não. Para ele a corrupção é uma espécie de taxa moderadora sem grande conteúdo ético, um pecadilho, quase um vácuo.

Nada disto decorre do carácter do homem, nem melhor nem pior que muitos outros. Simplesmente, o problema nunca maçou os militantes do PS. A corrupção integra o código genético do partido, tal como a iniquidade integra o código genético do PSD. E perante estes assuntos os dois optam por estratégias de evitamento, rejeitando a noção de que ambos os podem conduzir à derrota.

Mas Sócrates não caiu por causa dos mercados, nem Passos Coelho cairá por causa dos sacrifícios que abstractamente quis impor aos portugueses. A corrupção e a iniquidade são os elefantes no meio da sala da vida política portuguesa.

Luis M. Jorge

Ensino especial

Conselho de Coordenação da Coligação. Musil e Cipolla tinham razão, a estupidez é mais abundante do que se julga.

A fórmula consegue ser tautológica e tão necessária como pulga na cama, o que não é para todos. Equivale , por exemplo, a uma Comissão do Comissariado dos Comissários  ou   a uma Frente das Frentes Frontais.

Se estão coligados e não estão coordenados, os conselhos  não servem para nada  a não ser para lhes explicar o que é uma coligação. Devagarinho.

FNV

Portugal não é a Grécia?

Esta sondagem da Universidade Católica foi publicada pelo DN. A extrema-esquerda sobe, o PS desce dois pontos, o PSD afunda-se, o CDS ganha um ponto.

A mensagem é simples. Os partidos anti-sistema sobem porque são o veículo do protesto, o PS é visto como parte do problema e não da solução, Passos é um líder a prazo, Portas passou a mensagem (“se me perguntam se estou coligado, estou coligado – mas que se lixe a coligação”).

O Ministro de Estado resiste, por enquanto, a trocar a pose de CEO da diplomacia pela de caudilho da lavoura. Por enquanto. Em período eleitoral, a bóina do Paulinho das feiras sempre lhe deu votos.  E podemos agradecer a Nossa Senhora de Fátima, a quem o Dr. Portas agradeceu em tempos o desvio de uma certa maré negra, não termos por cá os gajos da Aurora Dourada.

Até onde irão o BE e o PCP? Portugal não é a Grécia, mas está cada vez mais parecido. O Bloco só não chega a Syriza porque o camarada Jerónimo  ainda lucra mais com a crise do que o Dr. Portas. Nunca pensei alegrar-me com isso, mas podemos agradecer aos santinhos que nos governam.

PP

Convite

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PP

Miasmas

Excelente e subtil descrição ( regressámos ao provincianismo…) que  sublinha como o  Público  já está na linha da frente do colaboracionismo.

Notem que é o mesmo jornal que regularmente elogia filmes, exposições e textos do mais variado  e iconoclasta calibre  contra a abjecta moral burguesa e católica.

FNV

À mesa com a crise (II)

Pão, claro. Melhor fora escuro. Não havendo, vende-se por aí um  de Rio Maior, barato, sem melhorante nem conservantes: rijão, altaneiro, de massa densa e crosta dura. Serve para os açordes com azete.

Pode comer-se duas a três vezes por semana, só ou a acompanhar. A solitária mais simples para uma casa de família, a que preferem cá em casa, é feita com a água de uma cabeça de corvina do mar, mas também  pode usar pescada ou garoupa. Ou só água. Pisa-se o alho,  os coentros e o sal no almofariz ( ou gral) .  Bota-se este piso e o azeite na terrina,  entorna-se a água  a escaldar e as bochechas da corvina.  Pão para dentro, poejos se os houver  e fé na humanidade. Em dias de pressa de morrer,  água ao lume, azeite, dois pedaços de  peixe congelado, concentrado de tomate, uma  colher de massa de alho, oregãos frescos e pão esquartejado e uma bicha de colorau. Sova-se com  a colher de pau, dois ou três  ovos inteiros  desmaiados e para a mesa que os miúdos têm de ir para  a escola.

Os ganhões, conta o  Aníbal Falcato Alves,  tinham imenso sentido de humor. Inventaram o bife à cabreiro: tosta-se o pão velho, esfrega-se com um dente de alho e unta-se com toucinho. O  bife pobre à cabreiro é igual , mas sem toucinho.  Nos dias de hoje, isto é demasiado  pobre. Sugiro igual preparo mas pondo em cima do pão uma febra . Acompanha com uma salada de alface ( no inverno, umas couves  regadas com azeite)  e faz uma  refeição para quatro por menos  de 6 euros.

Aquilino recorda o nome dos beirões  que iam à jorna para o Alentejo: os ratinhos.  O farnel era migas e rabos de  carapau. Lembra-te  disto quando torceres o nariz a uma açorda real rematada com um  queijinho do Cano.

FNV

Com as etiquetas

Speculum Regis. Conselhos a um Jovem Príncipe Sobre o Governo do Reino, cap. III

Governar não é lançar à plebe o que julgas serem as tuas pérolas. Olvida o “ajustamento”, a “resiliência”, o “implementar” e o “empreendedorismo”. Não digas aos pobres nas praças o que não dirias a uma dama no paço. Pouco latim e mais vernáculo.
PP

É mais ou menos isto.

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A revista satírica Charlie Hebdo decidiu publicar caricaturas de Maomé numa das suas edições, o que originou reforços na segurança das embaixadas francesas em alguns estados muçulmanos. O João Lisboa tem acompanhado a história.

Não hesito em defender esta provocação, cuja utilidade política me parece evidente: mostrar que a Europa não deve sacrificar as suas liberdades ao melindre de alguns sectários. Para chantagem, já nos basta a que é feita por quem não nos dá grande remédio senão o de obedecermos: Angola, as agências de rating, o FMI, sei lá eu. Sejamos cínicos enquanto for possível.

Luis M. Jorge

À mesa com a crise (I)

Não compre  tabuleiros de frango. A diferença de preço ronda os 3 euros/kg.  Ainda por cima, se comprar um frango inteiro e grande, pode, para uma família de quatro, fazer uma refeição e meia : um frango assado e uma canja  substancial. Se tiver cão, guarde as aparas ( sem os ossos).

Se quiser poupar ainda mais, não asse  o frangue no forno, gasta muita energia ( 50 minutos /kg). Parta o bicho com as mãos, exercitando  o grande extensor do polegar e os antebraços ( poupa no ginásio), retire  a pele  e estufe-o com cebolinhas novas e os últimos  tomates da estação. Um golpe de vinho branco, alho e um cheirinho de tomilho-limão e mesa com ele. Uma variação pode ser o  frango  à Marengo ( uma batalha que Napoelão venceu): muito tomate, duas latas de anchovas demolhadas  e oregãos.
Sei que o frango não excita, é assim um bocado como o sexo rotineiro  mas ambos  melhoram com um jeitinho de mãos.

FNV

Com as etiquetas

Speculum Regis. Conselhos a um Jovem Príncipe Sobre o Governo do Reino, cap. II

Não desprezes a leitura dos antigos, os caminhos do reino, o conselho dos sábios e o clamor dos simples. De nada te vale a “gestão da imagem”, esse plebeísmo do Novo Mundo, se desconheces o chão que pisas.

PP

Não nos tomem por parvos

1) No país da TSF e do dr. Soares ( recente), não há governos legítimos de direita, sobretudo quando na rua os apelidam de gatunos. Enfiem isso na cabeça.

2) A TSU foi o pretexto. Muito antes já se rosnava contra o mais neoliberal e perigoso de todo os governos  desde 1974. A educação era salazarenta, a economia  selvagem, a justiça um grupo de amigos, a sacrossanta RTP, a fúria do dr. Balsemão,  etc.

3) Era inevitável. No plano político e comunicacional, um punhado  de estarolas e de vira-casacas não podia fazer melhor. É uma pena que bons ministros ( como Paulo Macedo)  fiquem pelo caminho.

4)  A turminha tonta  de Paulo Portas mostrou o que vale.  À imagem do chefe, que, não se sabe como,  ganhou um mensageiro na pessoa do sólido Miguel Sousa Tavares.

5) Daqui a um ano, os fascistas serão outra vez os do PS, como Santos Silva ( a partir dos 59 sec).

FNV

A arte é excepcional

Descontando  a histeria da catilinária  dedicada  a JPP,  o Carlos Vidal tem razão: a arte é excepcional. Nos últimos anos propagou-se uma  ideia infecciosa,   infecção essa revista e aumentada pela crise: o Estado não deve dar dinheiro aos vagabundos subsídio-dependentes. Não me é estranho o  debate porque já nele entrei nas páginas da revista “Ler”, já publiquei ficção e muito gosto de saber  das manchas da poesia.

Concordo com Silvina Lopes * quando  concorda  com  Malraux: partir do conceito de arte como um anti-destino, pois ela só pode existir enquanto separada de qualquer finalidade política, social, científica. Há uns meses, a convite da Anabela Mota Ribeiro, fui à Bertrand de Aveiro, mais o Richard Zimmler, falar sobre literatura.  Logo a abrir,  disse que a literatura não servia para nada. Desmontados os preconceitos  iniciais, e lavados os ouvidos  internos , as pessoas perceberam ( não concordaram) . Servir rima muito mal com arte.

A poesia, por exemplo, não serve para rigorosamente nada. O Carlos de Oliveira falava,  com suave amargor,  das máquinas de escrever poemas, que já no tempo dele parece que por aí andavam.  Essa poesia, a maquinal, talvez sirva para sessões de declamação, ateliês e essas bodegas, mas a poesia não.  Enquanto arte, a poesia  encontra-se  até  no renegar do mundo, fora dele,  alheia ao valor-mercado,  seja o das ideias,  seja  o da apropriação. O  Vampiros, de Zeca Afonso,   não tinha nada a ver com política. Em Coimbra  há um punhado de gente  que sabe quem eram e por que   vinham de noite pela calada  e comiam tudo sem deixar nada.

O Estado pode financiar  a arte porque não a financia. O que faz é garantir que um artista, que pode vir ser bom ou mau, ou que já é bom, possa comer, beber e lavar-se. O que o artista faz não foi financiado. O cliché renascentista já só serve para filmes: Miguel Angelo recebeu a encomenda  de pintar A  Batalha de Cascina no Palazzo della Signoria de Florença e ainda  o  deixaram montar um ateliê  especial no Hospital dos Tintureiros, em San Onofrio.

Já mais próximo do nosso tempo de comida de plástico e de arte  da telenovela, Larkin trabalhou  30 anos na Brynmor Jones, uma livraria da universidade de Hull: foi financiado pelo Estado.  Montale  foi nomeado, em 1967,  senador vitalício  pelo presidente da república, Giuseppe Saragat: foi financiado pelo Estado. A concepção arcaica de que o apoio do Estado tem de ser através de um ordenado ou de um subsídio é boa para conversa de café.

* Silvina Rodrigues Lopes, “Precedências  desajustadas”, in Persistência da obra/ Arte e política, org. Tomás Maia, Assírio, 2011

FNV

Cem mil, diz o sobredotado.

Por me parecer útil, repesco um texto que publiquei há meses no Vida Breve:

Entre as luminárias do regime resplandecem os espíritos sempre airosos dos Camilos Lourenços. Enquanto outros encontram dificuldades, os Camilos revelam-nos em palavras simples os bons princípios da nossa salvação. Há dividas? Paguem-se. Há despesas? Cortem-se. Há défices? Ide buscar o cilício e mortificai-vos. Há desemprego? Emigrem. Há pobres? Trabalhem. Há fome? Comam brioches. Há mulheres que tentam vender os filhos nos subúrbios? Pois que baixem o preço dos mais pequenitos, a quem faltam vantagens competitivas. Há suicídios, mortes por inanição? Eis um modo elegante de reduzir as transferências sociais. Há velhos sem medicamentos? Um sério aviso para os jovens que não aderiram à Médis. Há ordenados muito baixos nas empresas? Extingam-se. Há ordenados muito altos na EDP? São as leis do mercado, nada a fazer.

O mundo dos Camilos obedece a valores testados em séculos de miséria abjecta e desespero universal. Antigamente eram feitores e capatazes, hoje são jornalistas e lideres de opinião. Os Camilos Lourenços dão imenso jeito. Todos os ricos deviam ter um.

Luis M. Jorge

Speculum Regis. Conselhos a um Jovem Príncipe Sobre o Governo do Reino, cap. I

Não confundas a arte da política com a arte da imagem. Se nada mais tens para dar do que uma imagem, quando os teus súbditos se cansarem da imagem que lhes deste, hão-de cansar-se de ti.

PP

Agora a sério

Já muitos o disseram, mas vale a pena insistir. O que choca no exercício pueril de minimizar as manifestações do fim-de-semana, a que se entregam com afinco alguns insurgentes e blasfemos, não é a defesa do Governo, mas a negação da realidade.
Agora a sério: estavam mesmo à espera que Passos nos mentisse, que nos fosse ao bolso depois de prometer que não haveria mais austeridade,  que não falasse com ninguém, e ficasse tudo quietinho?

Mas em que mundo é que vivem?

PP

O Som e a Fúria

“Considero a medida relativa à Taxa Social Única, com a sua aparente transferência de encargos da esfera dos trabalhadores para a das entidades patronais, um erro. Um erro por se tratar de uma medida intrinsecamente injusta: no actual patamar de esforço das famílias portuguesas, só um valor muito alto, quase inquestionável, pode fundamentar sacrifícios adicionais. A aparência de que o corte pedido não serve directamente o objectivo de reparar o défice nem serve para aliviar o esforço que impendia sobre os reformados e os funcionários públicos foi, é e será fatal.”

Paulo Rangel, in Público, 18/9/2012.

PP

Formação reactiva

Há pouco mais de ano e meio, também se falava de um governo de salvação nacional sem uma certa pessoa.

Se bem entendi, a forma  que o espectáculo arranjou de se salvar  é repetir números de cabaret. No entretanto, o povo trabalha, enrosca-se, vê bola e sofre.

Talvez Unamuno tivesse razão, talvez sejamos uma espécie de castelhanos  sin hueso.

 

FNV

As Forças Armadas ao lado do povo

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Koudelka/Magnum, Praga 1968

 

FNV

Sabotage

Os pobres estão  cada vez mais gordos, envenenados pela procelária  Isabel Jonet.

Noutros tempos, uma confissão assinada na Lubianka e não se falava mais disso.

Acham pouco?

Para que serviu o sobressalto? Serviu para aplacar o Governo, serviu para debilitar a coligação (arrastar-se-á lastimosamente um ano ou dois), serviu para fazer regressar o Presidente da República do exílio, há-de servir para limitar os danos da TSU e, en passant, serve para desacreditar a tropa fandanga do liberalismo exaltado.  Acham que é pouco? Eu não acho.

Luis M. Jorge

Os abutres

No meio do caos, ainda há gente, como Portas ou Seguro, que manobra para se alimentar dos restos do cadáver. Os zoólogos chamam-lhes necrófagos, o povo, sempre mais concreto, chama-lhes abutres. Mas quem viu com um mínimo de realismo o que se passou este fim-de-semana, há-de ter notado que nenhum político foi poupado à infâmia. Passos teve a resposta que merecia – tal como a oligarquia partidária que nos trouxe até aqui.  Leiam os cartazes, lembrem-se das vaias no Largo do Rato, pensem na quantidade de gente que saiu à rua e terá votado no centrão. Nunca tive qualquer simpatia pelo leitor de apócrifos de Sartre que nos governa, ao contrário de muitos dos seus actuais críticos, mas se o PS e o PP prevêem beneficiar de eleições antecipadas, então prevejam melhor.  Lembrem-se da Grécia.

PP

As formigas no carreiro

O governo perdeu a rua,  a frase dos últimos dias, foi o que se viu: uma manifestação ordeira e pacífica , com música e crianças.  A última deste género, ainda na vigência do governo de Sócrates, foi igual.  Na  altura os  socráticos  entretiveram-se a desprezar o método de contagem de manifestantes, num exercício ridículo , e as tropas de assalto do actual PSD asseguraram  que o povo queria mudar. Isto não pode espantar ninguém. A pergunta certa é:  aonde levam estas sucessivas manifestações  de indignados? A lado nenhum, óbvio. Mudou o governo e é o que se vê.  Mudará este  e regressam os anteriores vilões.

Se a política da  Troika é violentíssima, a resposta popular devia ser violentíssima. O que registamos de há dois  anos para cá é uma coreografia , um vira mandado, um armuzelo  deprimente da revolta e do protesto. Até  LML,  de costume ponderado, fala numa tentativa de invasão do Parlamento  a uma hora em que  só lá estavam aos habituais, os mesmos do tempo de Sócrates. A principal razão parte  da mecânica da reivindicação:

1) Estas coisas não podem nascer do acaso. Não se  espera que  uma cultura  de subserviência e de indiferença gere uma verdadeira  revolta, que teria de incluir violência, paixão e raiva. O que temos é  um espectáculo de falsas oposições, gerido  pela classe dominante, que permite as arruadas e os desfiles enquanto forem ordeiros. A classe dominante inclui o Bloco de Esquerda,  medusa mediática super-instalada à mesa do espectáculo e o PCP, que se habituou, por instinto de sobrevivência, a respeitar a gestão totalitária da encenação.

2) Da manifestação de 2001  à de ontem, resistem as mensagens mentirosas, enroupadas nos  diversos actores. Os vilões passam a salvadores e vice-versa, numa gestão da energia das recordações,  muito bem  apoiada pelos  encenadores mediáticos. Estes tratam cada manifestação como um produto espectacular que em nada se distingue  dos grandes fogos ou das grandes  finais de futebol. O séquito de comentadores ontem indignados e ao lado do povo, como hárpias sorrateiras, comem à mesa do espectáculo ( televisões, jornais, rádios)  durante todo o ano .

3) Os  grupúsculos esquerdistas masturbam-se nos blogues e masturbam-se diante da polícia de choque. Expressão teatral de uma vaga revolta, que , para usar uma expressão  de há cinquenta anos, busca as razões nos saldos das ideias. É gente  que não sai de Lisboa e do seu casulo radical-chic, que nunca  vemos  nem lemos à porta  das empresas que abandonam  milhares de trabalhadores. Também é verdade que nada teriam para lhes dizer.

4) O poder, o verdadeiro, conta com as lendas referidas nos pontos anteriores. Os elogios ao povo que ontem se manifestou são sinceros, porque os gestores apreciam  estas declarações de subordinação.  Vivemos para trabalhar e trabalhamos  para pagar o espectáculo. Como um rapazola que, quando o circo chega à cidade, se oferece para dar de comer aos leões e em troca pode assistir  à estreia.

FNV

Retalhos da manif: Bóbi contra o capital.

Rex: O povo é sereno, e tal. É só fumaça...

 

Rex: Olha, olha, onde é que vais? Desopila, pigmeu.
Bóbi: Desopila o carago. Um cidadão já não pode transportar-se no meio desta sociedade?!

 

Rex: Xárape que eu estou a trabalhar. Tás armado em Manela? Volta para a casota, pá.
Bóbi: Fássista, vendido, lacaio dos grandes interesses económicos e marioneta da vil cartilha neoliberal!

 

Rex: Are you tólking to me? Olha que o meu pai é cão-polícia.
Bóbi: Ah, ah, e o meu pai é Grand Danois!

 

Rex: Se fosses meu filho enchia-te a boca de Wiskas.
Bóbi: E se fosses meu pai eu engolia.

 

Rex: Ão! Ão!
Bóbi: Fala português, que isto não é o Fórum Económico Mundial pá.

 

Rex: Bem, vai-te lá embora – estão a chegar uns amigos do Barreiro…
Bóbi: E ainda tenho que encontrar um poste livre. Ti-cháu.

 

Luis M. Jorge