Cercos e circos


Cerco ao Parlamento, ontem. Como em 75. Os revolucionários de bolso guiam o povo. Aqui proclama-se que o orçamento passou lá dentro, mas “cá fora não passará”. Ali retoma-se a deixa (em castelhano, claro: revolución oblige). Acolá, jura-se combater “o retorno do fascismo”. Mais além, cita-se Clausewitz porque “guerra é guerra”.
Mas as notícias falam de um preso (suspeito de “perturbações mentais”, segundo as autoridades) e onze feridos, entre os quais dez polícias.
É isto a revolução?
Ambrósio, apetece-me algo. Traz-me o 18 do Brumário de Luís Bonaparte, enquanto acendo o charuto.Sim, esse aí em cima, à esquerda. Mais à esquerda. Já está? Abre o barbas na página do costume: “Hegel diz que todos os grandes acontecimentos da história parecem repetir-se. Esqueceu-se de acrescentar: da primeira vez como tragédia, da segunda como farsa.”

PP

2 thoughts on “Cercos e circos

  1. João. diz:

    Pois. As manifestações são um farsa, mas é porque se sabe bem que para conseguir alguma coisa dos governos em Portugal o que vale são números de telefone e boys bem colocados.

  2. João. diz:

    Já agora, como comunista, julgo que actualmente, para o comunismo, é mais importante ler a dialéctica de Marx com Hegel do que a dialéctica de Hegel com Marx até porque, enfim, há que dizê-lo com frontalidade, Hegel é o maior 🙂

    Então, quanto à questão da repetição a chave está na Fenomenologia do Espírito, na lógica da dialéctica das figuras de verdade. Uma figura de verdade essencialmente começa por ser uma tomada de posição em abstracto, em si, quanto ao que, recolhendo o curso do desenvolvimento até aí, há a realizar; o segundo movimento é o de actualização da abstracção, quer dizer, em vista do dado, da situação a que se chegou, a figura de verdade avança para transformar a situação dada de acordo com o que pressupõe ser o que há a realizar para actualizar a abstracção – aqui chega-se ao momento chave. Nesta actualização da nova figura de verdade, ou seja, naquilo que ela é a transformação da situação em vista de sua própria implantação, dada a diferença entre abstracção e actualidade, ocorrem invariavelmente uma série de efeitos que nunca foram previstos na abstracção inicial. Estes efeitos imprevistos no momento inaugural da abstracção, que alguns chamam de Tese ou de Afirmação, valem como a verdade da tese, ou seja, não é propriamente no que coincide entre a abstracção e a actualidade que se encontra o que é fulcral em termos de verdade mas sim no que não coincide, no que corre mal, digamos assim. É isto que corre mal, o que alguns chamam antítese, que passa a ser a matéria mediante a qual a figura de verdade que começou por aparecer como uma abstracção pode passar ao concreto.

    O que seria uma farsa estaria num regresso da figura de verdade como se o que em sua actualização anterior negou a abstracção inicial nunca tivesse acontecido; no caso do comunismo se os comunistas actuais se posicionassem face ao comunismo como se o que, por exemplo na URSS, negou as abstracções iniciais do sec.XIX nunca tivesse acontecido, enfim, como se a queda da URSS nunca tivesse ocorrido.

    Desta forma, os comunistas actuais não devem poupar-se no que respeita à análise crítica da URSS se de facto quiserem evitar aparecer como farsa mas há aqui um outro aspecto importante que diz respeito à perspectiva, ou seja, na própria crítica à URSS os comunistas também se diferenciam dos capitalistas, ou seja, se partirem do princípio que a crítica à URSS se resume aos pontos tomados a partir da perspectiva capitalista os próprios coministas já estão devorados pelo capitalismo. Portanto, na medida em que preservam uma posição de contraditório ao capitalismo, os comunistas de um lado não podem deixar de criticar a URSS e de outro não podem deixar de diferenciar-se na crítica à crítica capitalista. É claro que para os capitalistas isto quer dizer que os comunistas actuais não criticam a URSS, uma vez que para o capitalismo a única crítica verdadeira é a deles, mas aqui os comunistas têm que resistir, resistir sobretudo desde logo a deixarem-se assimilar pela agenda e os termos do capitalismo; é aqui que de algum modo as derrotas são vitórias, quer dizer, mais vale perder mantendo a identidade do que vencer entregando a identidade ao vencido, enfim, pouco importaria que os partidos comunistas vencessem eleições se para tanto tiverem de se tornar partidos capitalistas.

    Os comunistas actuais estão portanto duplamente vinculados, de um lado à crítica ao próprio comunismo e de outro lado à crítica ao capitalismo, ou seja, de um lado que a auto-crítica não signifique a tomada dos termos capitalistas e de outro lado que a crítica ao capitalismo não ignore o vínculo com a auto-crítica.

    A meu ver, lendo o programa do PCP, parece-me que o nosso Partido Comunista está ajustado às necessidades do comunismo contemporâneo; de um lado soube transformar-se de acordo com o que na primeira vaga efectivamente correu mal mas de outro lado não o fez de modo a ter abandonado a contradição sistemática ao capitalismo; de algum modo ocorreu no PCP uma deslocação do que na situação capitalista representa o capitalismo – já não é todo o capital privado, como foi na URSS, mas o grande capital, enfim, o que é efectivamente o universal concreto do capitalismo actual, ou seja, os interesses do grande capital financeiro e corporativo cujo actualmente é o ser-para-si na alteridade, ou seja, que a alteridade (os demais agentes económicos – trabalhadores, desempregados, pequenas e médias empresas), é-para-o-grande-capital, é sobredeterminada pelas necessidades deste último.

    O ponto de subversão do sistema capitalista actual para os comunistas é portanto essencialmente a posição de universal concreto do grande capital de modo que, para os comunistas actuais, não há transformação dos acontecimentos sem derrotar o domínio do grande capital sobre o Estado – é isto essencialmente que para os comunistas deverá significar o slogan “que se lixe a troika” que ao que sei nem é propriamente um slogan do PCP mas dos movimentos associados às recentes manifestações ditas suprapartidárias.

    Se quisermos perceber a força que o grande capital conquistou é só ver a retórica de fim do mundo que vem associada pelo governismo, incluindo o PS, à contestação ao memorando da Troika cujo, não tenhamos dúvidas, é desenhado de acordo com as necessidades do grande capital no contexto da crise actual.

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