Qual direita?

Uma das coisas  que esta crise fez,  foi provar , uma  vez mais, que não existe direita  portuguesa.

Reparem  na coligação que está no governo. Peguem em Passos Coelho e Miguel Relvas.  Dois aparelhistas com a clarividência ideológica e  a consistência  intelectual do barbeiro da esquina. Peguem em Paulo Portas ( que só ainda faz política porque empregou  muita gente no Independente e é amigo da Lisboinha) e revejam o percurso. A coragem de um esquilo ( das duas vezes que foi para o governo assumiu pastas  moles e bem longe do fogo, in the rear with the gear), a coerência de  um comentador de futebol (  comparem  o silêncio de hoje com as catilinárias securitárias e anti-impostos  de ontem, de dedo em riste e voz de falsete)  e  o sentido de Estado bem expresso quando num governo de um país de tanga não se lembrou de mais nada a não ser encomendar peças militares  próprias de um  reino do Golfo.

As figuras menores ( Cristas, Teresa Leal Coelho etc ) fazem jus ao nome mas nunca a uma escola de direita, os assessores e os planfetistas constituem uma mole de vira-casacas e rapazolas que, num partido  de direita, quando muito  serviriam cafés e bolos. No CDS, Lobo Xavier, na Quadratura, perguntado sobre os desabafos dos meninos  nas redes sociais, definiu bem: “ Quero lá saber de twitters e essas coisas, do que eles dizem , são para aí uns 20 vice-presidentes…”.

Uma  escola portuguesa de direita teria de ser implacável ( já o escrevi várias vezes) para com os arrivistas e os oportunistas. Dispensaria os beatos ex-maoístas  convertidos a Oxford ( como Espada), as sociedades secretas e os possidónios do dinheiro fácil. Teria de ser  insensível à  pressão esquerdista-mediática, assumindo a tradição intelectual de  um Amaro da  Costa ou de um Adriano Moreira.

Sem os rabos de palha de hoje, poderia defender, sem complexos, Deus, Pátria e Família,  não se calando perante  a conotação salazarista  tal como os comunistas de hoje  defendem, sem complexos, o comunismo,  não se calando diante  da memória  sangrenta das suas raízes.

FNV

21 thoughts on “Qual direita?

  1. Miguel diz:

    “poderia defender, sem complexos, Deus, Pátria e Família” … e poderia também defender que o tempo andasse para trás, já agora. (isso não é ser de direita ou conservador; é ser reaccionário, tout court).

    • fnvv diz:

      Tantos vícios, tantos… Vejamos:
      1) Deus,no sentido do texto e das referencias que dei, é uma concepção cristã da social democracia
      2) Pátria , discurso patriótico, é o que tenho em cartazes da CDU ( contra a troika) colados ao pé de minha casa.
      3) Família, defender a família é defender a solidariedade e o respeito. A república começa em casa.

      Reaccionário , no sentido que vc usou, é estar sempre a olhar para o passado. Foi o que o Miguel fez.

  2. Miguel diz:

    Uma palavra (ou três) por si só não quer dizer nada, tudo depende de quem a pronuncia. A História ensina-nos outra coisa diferente dos cartazes. Deus geralmente quer dizer “Partido Clerical”; Pátria, xenofobia, obscurantismo e bodes expiatórios; Família, mulher em casa, homem no leme e crianças submissas. Autoridade e submissão, em suma.

    Gente séria não anda com Deus na boca. Gente inteligente não aceita a autoridade sem justificação pertinente caso a caso. Gente sã, feliz (e com muita sorte) pode gostar da sua terra e da sua família, mas sabe que nem todos têm a sorte de nascer num país de que gostam ou numa família que lhes assenta. E guardam a liberdade para construir uma outra família numa outra pátria. Sempre foi assim. Não conheço excepções.

    Eu gosto muito do discurso do Victor Hugo a propósito da lei Falloux. É instrutivo.

    • fnvv diz:

      É a sua opinião, anquilosada, do meu ponto de vista até reaccionária.
      Uma social democracia cristã não é um regime taliban ou um sonho húmido do Tea Party, o Manuel Alegre não é xenófobo, os alentejanos comunistas que se agregam em torno de uma solidariedade familiar fortíssima não são machistas impenitentes.

      • Miguel diz:

        Como sempre aprecio o seu sentido de humor. Como se a Família da tal Direita do Deus, Pátria e Família fosse a da “solidariedade familiar fortíssima”dos alentejanos — para mais, comunistas… E o modo como a República e a social-democracia, por virtude comentarística do Filipe, se transmutam, esquecem o laicismo e abraçam o clericalismo. É uma espécie de pot-pourri ao gosto do freguês, uma amostra da “arte conceptual” publicitária pós-moderna. A senhora põe umas pitadas de pós-modernismo sobre cama de clericalismo transmontano, leva ao forno e já está. Chapeau !

      • fnvv diz:

        Retribuo, meu caro Miguel: só com humor se pode querer discutir a direita ( e arepública, o clericalismo etc)num punhado de textos e tréplicas.
        Limitei-me a desmontar a aramadura carcaterial que vc enfiou no plano da linguagem. Só isso.

  3. Miguel diz:

    PS: “2) Pátria , discurso patriótico, é o que tenho em cartazes da CDU” — reaccionários, eu não dizia?…

  4. Gonçalo diz:

    É o fim do sistema. Realmente, pouco poderemos esperar desta “nata” partidária. Que “usurpam” – desfazendo – a área (direita liberal) que poderia trazer algumas respostas ao problema que vivemos.
    Se a origem preferencial das solições está ocupada por indvíduos que não concretizam o que (ideologicamente) lhes seria possível. Ficamos mesmo sem saída…
    .
    http://notaslivres.blogspot.pt/2012/10/estamos-mal-precisamos-de-luz-ao-fundo.html

  5. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    «Uma escola portuguesa de direita […] teria de ser insensível à pressão esquerdista-mediática, assumindo a tradição intelectual de um Amaro da Costa ou de um Adriano Moreira.»
    Caro Filipe, muitos parabéns por o seu postal ter demonstrado de modo inequívoco a inutilidade do exercício que propõe: Adelino Amaro da Costa (a terra lhe seja leve!)nunca passou de um bom táctico, hábil manipulador do único verdadeiro social-democrata português ainda vivo (Diogo Freitas do Amaral), e Adriano Moreira…bem, Adriano Moreira nunca passou de um oportunista em busca perpétua da mais ínfima migalha de poder pessoal, indiferente aos regimes políticos (foi figura de proa, antes e depois do 25-A/74, e “afundador” de universidades privadas), e campeão das famosas “viagens-fantasma” dos nossos queridos deputados da Nação.
    Com personagens de referência de tal calibre, eu quero ser de esquerda já!

    • fnvv diz:

      Bem, se formos para o plano pessoal, não sobrevive nenhuma figura comunista/ revolucionária…

      • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

        Caro Filipe, sugerir que Adriano Moreira possa ser uma referência da tradição política e intelectual da Direita neste país à beira-mar plantado é desconhecer em absoluto o personagem.
        Para o efeito, listo os nomes de alguns saneados antes do 25-A/74 do então ISCSPU pelo dito cujo:
        D. António Ribeiro (Cardeal-Patriarca de Lisboa);
        José Hermano Saraiva;
        Vitorino Magalhães Godinho.
        O facto de já ter completado 90 anos permite-lhe reescrever a história, ciente de que os seus adversários já cá não se encontram para o contradizer.
        Já agora, Filipe, lembro-lhe o apodo com que Marcello Caetano brindou Adriano Moreira: «o filósofo da traição»…

      • fnvv diz:

        Caro Fernando, conheço essas histórias e outras até ( envolvendo a criação de universidade em Angola), mas também conheço , porque tenho, muitos textos dele.

  6. Gustavo Santos diz:

    Filipe,
    A sua descrição é acertada. Faltam direita e esquerda decentes

    A esquerda cavalga desavergonhadamente a argumentação de que “as pessoas não são números” encontrando eco óbvio na população que entende esta verdade como indiscutível. Que é.
    Acontece que, para um político (sublinho: para um político) as pessoas TÊM de ser números. Não se governa para o sr. Joaquim, governa-se maximizar o bem comum. E governar para o bem comum é, uma enorme maioria das vezes, governar contra facções que, sendo minoritárias, berram muito alto.

    Quem atinge os cumes partidários provém de rampas de lançamento enviesadas; como esperar que a mão seja corrigida quando é a doer?

    Melhor ainda: como evitar que o resultado seja um ministro da finanças empenhado e duro que pegue nesta merda e a ponha nos eixos? Familiar, não?

  7. 1berto diz:

    Não há uma direita idilica, assim como não há uma esquerda. Podem-se defender ideologias, a utopia deveria fazer parte do objectivo a atingir (inatingível) numa sociedade que se queira mais justa. Os chavões são apenas chavões e dependem do uso que se lhes der. Os Relvas, Coelhos, Portas e Gaspares não fazem parte da chamada direita política. São as marionetas da outra direita, a direita do dinheiro e do esbulho a qualquer custo. Deus seria uma bandeira se a igreja estivesse do lado dos fracos, a Pátria seria um orgulho se fosse uma bandeira clamando por justiça, a Família deveria ser um baluarte de defesa da ética e da sabedoria. Como as diversas direitas que têm ocupado sucessivamente o poder apenas trataram bem as suas clientelas, só me resta ser de esquerda assumindo todos os seus defeitos. A minha utopia é poder contribuir para arredar estes tipos do poder, porque Deus é surdo, a Pátria não existe, e a Família desagrega-se à mercê dos saqueadores.
    Percebo a sua posição por uma direita de valores e não de oportunistas.
    A cada um a sua utopia.

  8. Carlos Rodrigues diz:

    Não consigo compreender quem acha P. Portas o tipo com mais esperteza política neste Governo. Em qualquer dos cenários está completamente sequestrado:
    1) o Governo cai pelas garotices dos meninos do CDSe do PSD: o CDS é fortemente penalizado em próximas eleiçoes, com segundo resgaste, juros outra vez no tecto e falatório a cada dois dias sobre em que semana sai Portugal do Euro;
    2) O Governo não cai durante um ano: A) se isto corre mal, com recessão de 3/4 % para o ano, com queda do Governo no final, o CDS é arrastado na mesma por não ter metido o travão a tempo neste Governo; B) Se correr menos mal [é interessante que com tantos comentadores não há um que coloque, nem por hipotese academica, que isto pode correr menos mal do que eles esperam], com as pessoas a sentirem um certo alivio, com uns trimestres com o PIB a crescer residualmente, um ou dois, existirá um efeito de descompressão económico (mesmo com 70% de IRS acontecerá isso, em crises deste tipo a psicologia economica vale mais do que o rendimento disponivel), se isto correr menos mal, dizia, quem colherá os louros, será a dupla Gaspar/Passos.

  9. caramelo diz:

    Descontando os arrivistas, os oportunistas, os possidónios, etc, forma-se um clube de cavalheiros, de esquerda ou de direita, não um partido. O Espada não teria de ter a maçada de se deslocar a Londres. Isso são normas de conduta, não é um programa de partido, nem sequer o foi no tempo mítico do CDS do Amaro da Costa.
    Para o efeito pretendido, o Amaro da Costa não serve. Era suficientemente calculista para não levantar na altura a bandeira do Deus Pátria Família, que estava reservada a alguns grupúsculos de direita, direita mesmo. O partido não era de direita, era de centro (até fizeram um desenho com setinhas para não deixar dúvidas). Começou a assumir-se de direita com o Manuel Monteiro, quando era um partido regionalista da provincia do vinho verde, e tornou-se orgulhosamente de direita com o Portas. Para a sua identificação deve a direita mais ao Portas do que ao Amaro da Costa. Agora só têm de se tornar virtuosos.
    Nem sequer sei qual era a tradição intelectual do Amaro da Costa se é que tinha alguma; é uma coisa um bocado pomposa para se aplicar a ele. Era novo, seria pelo menos muito esperto, bom tribuno, mas não era o Robespierre, que fez a revolução e mudou o mundo com 31 anos. O Adriano Moreira só ganhou peso com a idade e a imobilidade. O que o tempo fez ao Freitas do Amaral foi atirá-lo abaixo do panteão da direita. Estivesse quietinho. O Amaro da Costa só escapa a isso porque é o James Dean da direita.
    A direita tem de assentar quem é o pai. Ora é o senhor Dom Miguel, ora é o Sidónio, ora é o Salazar, ora é o João XXIII, que parece que é a última versão, com isso da social democracia cristã. Isso do Deus Pátria Família, pelos vistos, parece que toda a gente tem mais ou menos um bocadinho, até os comunas.

  10. zelisonda diz:

    1-Estou espantado com as críticas ao Adelino Amaro da Costa. Um Tacticista!? Se calhar o PPD votou a constituição seminal cravada com o rumo ao “marxismo” por convicção…
    2-Direita!? Em Portugal não há.

    • fnvv diz:

      O problema não é o Amaro da Costa. Qualquer nome que eu referisse tinha o mesmo destino, salvo os que acabaram na órbita do PS, vide Freitas e Basílio: é o elemeneto tribal e religioso.

  11. antoniojoaquim diz:

    A direita do Mike Tysson?

  12. gandavo diz:

    Com as devidas adaptações:

    “Nas universidades, a direita foi sistematicamente preterida na distribuição de verbas e cargos, que a generosidade insana do governo prodigalizava aos esquerdistas na ilusão de neutralizá-los ou seduzi-los”
    “A direita pensante e atuante foi, literalmente, esmagada pela ditadura, que ao mesmo tempo, na esperança idiota de dividir os adversários e ganhar o apoio de uma parte deles, abria as portas e os cofres das instituições de cultura para o ingresso da revolução gramsciana.”

    “Quando terminou a era dos governos militares, em 1988, só quem era ainda conservador no Brasil era o povão mudo, desprovido de canais para fazer valer suas opiniões, enquanto o espaço cultural inteiro – mídia, movimento editorial, universidades, escolas secundárias e primárias, etc. – já era ocupado, gostosamente, pela multidão de tagarelas da esquerda que ainda mandam e desmandam no panorama mental brasileiro. Aos sucessos retumbantes que obteve na economia e no combate às guerrilhas, a ditadura aliou, em triste compensação, uma cegueira ideológica indescritível, que expulsou a direita do cenário público e entregou o espaço inteiro àqueles que até hoje o dominam. Cabe, nesse contexto, lembrar mais uma vez o dito de Hugo Von Hofmannsthal, segundo o qual nada está na política de um país que primeiro não esteja na sua literatura (tomada em sentido amplo de alta cultura). A direita saiu da política nacional, porque, com a complacência e até a ajuda do governo militar, foi primeiro banida da cultura nacional.”

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