Qual direita? A direita


Concordo em grande parte com o que o que Filipe diz aí em baixo sobre a direita portuguesa, mas o problema é ainda mais sério – e digo “problema” porque uma democracia está incompleta quando não tem alternativas à esquerda. Não é apenas uma questão de pessoas. Se fosse, trocava-se o Portas, o Relvas e o Passos por outros melhores – não seria difícil – e estava tudo resolvido. Sucede que não há, entre nós, uma tradição intelectual de direita digna desse nome.
A democracia-cristã morreu, se é que alguma vez existiu, graças à vampirização pelo corporativismo do Estado Novo, primeiro, e à acelerada secularização dos anos 60, depois. O conservadorismo, que produziu lá fora um Burke e um Tocqueville, deu-nos os miguelismo e o Professor Salazar. O liberalismo clássico nem isso (Herculano é uma sequóia solitária) e o chamado neoliberalismo nunca teve impacto fora de alguns Departamentos de Economia (Nova e Católica), colunas de opinião (Pedro Arroja e discípulos) e blogues (Blasfémias, Insurgente, etc.).
O que é que fica de tudo isto? Pouco, muito pouco. Em Portugal vota-se à direita por opção de classe, afinidade tribal, recusa momentânea do PS ou identificação com um chefe (Sá Carneiro, que queria filiar o PSD na Internacional Socialista, é o melhor exemplo do equívoco).
E depois há a própria sociedade – ou a falta dela. A nossa burguesia, sustentáculo da liberdade económica e dos direitos individuais no mundo civilizado, vive demasiado dos negócios com o Estado para poder afrontá-lo. O povo, que deveria temer mais o caos da revolução do que o peso da ordem, recita o credo do ressentimento no Forum da TSF e nas caixas de comentários dos jornais, quando não está nas barricadas da Maria da Fonte ou do 5 de Outubro. Quanto aos intelectuais, a direita pode insultar ocasionalmente alguém como “intelectual de esquerda”, sem perceber que eles gostam, mas a esquerda não chama a ninguém “intelectual de direita” porque, como toda a gente sabe, tal oxímoro pertence ao reino da fantasia, a meio caminho entre o unicórnio e o Roger Scruton.
“Resistir à pressão mediática da esquerda”? A pressão mediática é a esquerda. Para resistir, a direita teria de começar por existir.

PP

2 thoughts on “Qual direita? A direita

  1. gandavo diz:

    O problema não é da “direita portuguesa”. É da direita em geral, do conservadorismo tout court, e não é de agora, vem, de forma gradual, crescendo há cerca de 50 anos…

  2. fnvv diz:

    Por acaso é mais uma questão de pessoas. Respondo-te depois..

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