Berlin, Isaiah Berlin

Sobre a fé do Iluminismo no progresso científico, que parece ter suscitado dúvidas nos comentários ao meu último post, deixo um parágrafo de Isaiah Berlin:

“O século XVIII é talvez o último período da história da Europa Ocidental a ter considerado a omnisciência humana um objectivo acessível. Os incomparáveis progressos da física e da matemática no século anterior transformaram a concepção corrente da natureza humana e do mundo material e, mais ainda, a da natureza do conhecimento autêntico – a tal ponto que ainda hoje a época se levanta como uma barreira entre nós e as anteriores, fazendo com que as ideias filosóficas da Idade Média e até do Renascimento pareçam remotas, fantasiosas e por vezes quase ininteligíveis. A aplicação das técnicas e da linguagem da matemática às propriedades mensuráveis daquilo que os sentidos revelam tornou-se o único método válido de descoberta e exposição da verdade. Descartes e Espinosa, Leibniz e Hobbes, todos eles, procuraram conferir aos seus raciocínios uma forma de tipo matemático. (…) A mesma mentalidade perdura no século XVIII, fenómeno de cuja explicação o principal factor singular é a influência de Newton. Newton levara a cabo a empresa sem precedentes de de explicar o mundo material, ou seja, tornara possível, através de um número relativamente pequeno de leis fundamentais com um alcance e uma força imensas, determinar, pelo menos em princípio, as propriedades e o comportamento de cada uma das partículas simples de qualquer corpo do universo, e fizera tudo isso com um grau de exactidão e uma simplicidade outrora inimagináveis. Doravante, no reino da ciência física reinavam a ordem e a clareza.” (O Poder das Ideias, Lisboa, 2006, p. 65; o texto original é de 1956.)

Também somos isto. Que nos custe lembrá-lo quando um terramoto mata 300 pessoas na Europa, já é outra questão.

PP

9 thoughts on “Berlin, Isaiah Berlin

  1. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Yates, Frances Yates (a ler)…

  2. Miguel diz:

    Eu gosto muito de ler o Berlin, mas nem tudo o que ele escreve é correcto. E, neste caso, está errado. A vários níveis, mas concentro-me num único que não é negligenciável e é pouco (re)conhecido. Newton postulou a lei da gravitação universal a partir da qual inúmeros sucessos da física-matemática se sucederam na descrição da dinâmica dos planetas. Mas isso não implica que, seja para Newton, seja para os restantes filósofos naturais (hoje em dia, cientistas) “no reino da ciência física reinavam a ordem e a clareza.”
    Pelo contrário, para Newton a lei da gravitação universal era absurda e inaceitável”: “Hypotheses non fingo” é uma citação que ficou para a História. A razão é que esta lei implicava uma influência à distância instantânea entre os corpos materiais. E isto entrava em contradição flagrante com os critérios de inteligibilidade aceites na época, a saber que o mundo material se explicava á la Descartes através de “processos mecânicos” através da aplicação da força por contacto. A descoberta da lei da gravitação universal contradizia e deitava abaixo este critério de inteligibilidade — a não ser que alguém conseguisse interpretá-la através de um mecanismo intelígivel nesses termos. Ninguém o conseguiu até hoje. E Newton dedicou a maior parte da sua vida em actividades outras que a ciência físico-matemática, e andou entretido com alquimia até morrer.

    • ppicoito diz:

      O Newton sempre se dedicou à alquimia, ao mesmo tempo que escrevia alta matemática. é como o Dawkins, que acredita em extraterrestres. As pessoas acreditam muitas vezes em coisas contraditórias. Quanto ao resto, há várias provas de que Newton foi para a opinião culta do século XVIII uma espécie de Prometeu moderno. Por exemplo, o célebre poema de Pope, aliás citado por Berlin: “Nature, and nature´s laws lay hid in night/God said “Let Newton be!” and all was light.” O poema é de 1730.

  3. Miguel diz:

    Por outras palavras, e para explicitar melhor as consequências intelectuais do que descrevi acima, foi no próprio momento que marca a nascença da física-matemática que levou aos
    sucessos no poder de previsão dos movimentos celestes, foi nesse mesmo momento que foi sacrificado o critério mais estrito de inteligibilidade da Natureza, a saber a compreensão da natureza por processos mecânicos intelígiveis de forma intuitiva pelos seres humanos, e foi necessário aceitar/postular um processo físico (acção à distância) que era e continuou a ser completamente misterioso. Eu sei que as pessoas costumam contar essas histórias todas da arrogância da razão iluminista etc e tal, mas a história intelectual e científica não se conforma com essas descrições pitorescas.

    • ppicoito diz:

      Eu não chamaria pitoresco ao Berlin. Convém ter presente que, para a esmagadora maioria da população, a ciência é misteriosa. Basta pensar na famosa procura do bosão de Higgins, que tanto entusasmou os telejornais há uns meses, ou na medicina, com a qual lidamos todos os dias. Esse mistério em nada afecta a sua autoridade pública. Pelo contrário: quanto menos sabemos de qualquer coisa, maior confiança temos em quem parece saber. aliás, esse mistério é mais uma das semelhanças entre o papel da ciência na sociedade moderna e o papel da religião nas sociedades tradicionais.

      • Miguel diz:

        Pois, mas a questão nao é essa. A asserção de que “no reino da ciência física reinavam a ordem e a clareza.” tem de ser suportada por argumentos concretos, não chega uma descrição superficial, sugestiva e anedótica, de algumas conversas mundanas nos salões da época. A especialidade do Berlin é a literatura (russa, em particular, sobre a qual tem artigos luminosos), e talvez isso explique que não tenha conhecimento preciso das controvérsias científicas e filosóficas da física-matemática.

        O que seria necessário para substanciar o que ele escreveu seria uma demonstração plausível de que teria existido um corpo teórico, aceite consensualmente por um grupo bem definido e relevante de “membros do Iluminismo”, não apenas um ou dois originais, com a pretensão de tornar toda a realidade intelígivel. E esse corpo teórico nunca foi proposto. Existiram foi pessoas que achavam que a ciência seria o método com que seria mais provável conseguir elucidar o maior número possível de fenómenos de uma forma intelígivel para a mente humana. Isso é uma simples hipótese, em grande medida plausível ainda hoje, mas que eu saiba ninguém escreveu e resolveu uma equação para decidir como pedir a mão da sua amada, ou acredita que os seus descendentes o vão um dia fazer. O que os detractores do Iluminismo costumam fazer, e é a isso que eu chamo ‘pitoresco’, é contar umas anedotas acerca deste ou daquele para sugerir na mente dos incautos aquilo que não foi dito nem defendido pelos Iluministas.

        Quanto à analogia entre o papel da ciência e da religião, isso não cola. O acesso ao conhecimento científico está aberto, em princípio, a todos. Existe um procedimento explícito que qualquer um pode seguir para a aprender e aceder ao “Mistério”, e pode ser consultado no departamento de física ou biologia mais próximo. Não existe/existiu nada de semelhante no que diz respeito ao conhecimento religioso, com os seus dogmas que apenas podiam ser analisados criticamente por alguns eleitos. Por exemplo. É um facto que, na prática, esse acesso directo e continuado no tempo à ciência (através da universidade) é restrito a alguns, mas isso tem a ver com a necessidade, para quem tem essa pretensão, de ter tempo suficiente para “sair do mundo” e estudar, investigar continuadamente durante vários anos.

        Mas mais interessante que ler estes comentários é o Jonathan Israel, é um dos maiores especialistas do Iluminismo e, em atenção aqueles para quem isso dá confiança, é membro do Institute of Advanced Study em Princeton.

      • Patrícia diz:

        E Higgs, bosão de Higgs, pode confiar em mim!

  4. ppicoito diz:

    Confio, com certeza. Obrigado pela correcção.

    • ppicoito diz:

      Miguel, o seu comentário contém vários equívocos. Vamos por partes.
      Nem o Berlin nem eu somos “detractores” do Iluminismo. Comove-me a sua preocupação em defender os “incautos” das interpretações “pitorescas”, mas reserve o fervor apologético para alvos mais óbvios.
      Despachar o Berlin como um especialista em literatura sem autoridade neste ponto é um pouco, como direi?, precipitado. O Berlin tinha um conhecimento das controvérsias filosóficas do século XVIII muito mais “preciso” do que sugere. Tanto assim é que a fé na razão e na ciência, longe de ser “superficial” e “anedótica”, estava realmente muito mais espalhada do que diz. Aliás, a sua referência aos salões é muito curiosa. É precisamente quando passam para os salões, ou seja, para uma elite culta e cosmopolita espalhada pela Europa, que as doutrinas do Iluminismo chegam ao grande público. Aliás, a Royal Society de Newton, para não ir amis longe, era um tipo especial de salão. E não se trata de um ou dois “originais”. Era um público bastante amplo, com capacidade financeira para comprar sucessivas edições da Encyclopédie, e que incluía reis como Frederico II da Prússia ou Catarina a Grande da Rússia. A referência à “ordem e clareza” trazida pela ciência ao mundo não significa que os iluministas acreditassem que tudo ficaria explicado de um momento para o outro: significa que, usando a razão, seria possível conhecer os mistérios realidade física um dia, mistérios até ai entregues à religião e à superstição. é isso que quer dizer o verso de Pope (não exactamente um poeta menor). Ou a frase de Kant, tão citada, sobre a maturidade que a razão traz ao homem. Ou a comparação explícita da Encyclopédie entre a razão e a graça cristã (sendo a graça, entre outras coisas, o meio de acesso à verdade revelada e, portanto, um claro contraponto à ciência).

      Agora sobre a religião. Em primeiro lugar, não estou a dizer que ciência e religião sejam o mesmo tipo de conhecimento. Não há experimentação possível no fenómeno religioso e, portanto, o conhecimento religioso é necessariamente matéria de fé. O que estou a dizer é que para a maioria das pessoas este é o tipo de conhecimento que têm da ciência. Quase todos nós, os não especialistas, acreditamos na constituição atómica da matéria sem nunca ter visto um átomo ou ter feito qualquer experiência relacionada com isso. O mesmo se pode dizer do Big Bang, da teoria da relatividade ou do aquecimento global. Em parte confiamos nos especialistas, em parte essa explicação do mundo satisfaz-nos intelectualmente. Tal como a religião para muita gente. Pode dizer-se que qualqer um pode ser um especialista e fazer experimentação ou investigação sobre este ou aquela área da ciência, mas isso só acontece após profundo estudo em que se passa por provas académicas exigentes (o Doutoramento, por exemplo). Tal como os padres e outros especialistas religiosos que, para o serem, têm de estudar profundamente a Bìblia, o Corão ou o Talmude, e passar por cerimónias (a ordenação na Igreja católica) pelas quais se tornam publicamente especialistas.
      Outra analogia: a expressão coloquial “isto está cientificamente provado”, ou “Fulano, professor na Universidade tal, diz” têm uma autoridade pública que quase carece de prova e se aproxima da antiga invocação da Bíblia (ou do Corão). É uma autoridade muito próxima da religiosa, não pela sua produção, mas pela sua recepção. Acredito que os cientistas, que podem “discutir criticamente” a ciência, não se revejam em tal semelhança, mas ela existe.

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