Nadar no ferro – blogue terapêutico (II)

Numa altura  difícil da minha vida ( tinha-me morrido um filho), treinei  mal o meu cão. Era um braco alemão e  não segui o meu  livro. Não tinha paciência para ele ou então precisava dele. Batia-lhe porque não conseguia controlar aspectos que,  antes e depois, sempre  controlei nos meus cães ( ruído, trela  correcta etc).  Não consegui nada.Zero. Népias.

Com as crianças é mesma coisa: a pancada e a agressividade não funcionam. Podemos conseguir que uma criança  nos  tema nos minutos  que a temos  à nossa frente, mas ela  nunca internalizará  as normas que queremos impor. É curioso que mães que batem nos filhos porque de outro modo não conseguem nada deles, ficam aparvalhadas quando lhes pergunto se conseguiram que a criança  passasse  a fazer o cocó no penico, e depois  na sanita, à pancada. Claro que não! Pois.

Um ambiente calmo, poucas regras mas obrigatórias, com sentido e essenciais, para que o castigo  ( cama mais cedo, confisco do computador etc) pelo seu incuprimento não custe a aplicar. Dizem-me que por vezes o dia correu mal e  a neura é ferrosa, o casamento corre enviesado, o dinheiro  sumiu etc.  Bem, nesses dias o que há a fazer é que sejam poucos  e raros. Isto não é uma religião.

E , fundamental, entender as crianças como o oposto da nossa satisfação, ou frustação,  narcísica. Como dizia o Pedroto ( do FCP) : descontracção e estupidez natural.

FNV

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18 thoughts on “Nadar no ferro – blogue terapêutico (II)

  1. Acho que também percebo alguma coisa disto, Filipe 🙂

  2. fnvv diz:

    Eu sei, eu sei …

  3. henedina diz:

    Só agora percebi a sua frase no mar salgado de que “as crianças devem ser disciplinadas como os cães”, na altura, confesso pareceu-me arrogante e provocadora.
    Agora compreendo o que quis dizer e resta-me o provocadora.
    “E , fundamental, entender as crianças como o oposto da nossa satisfação, ou frustação, narcísica.” Aí é que está o busílis da questão.
    Os problemas começam qdo a criança é entendida como uma prolongamento narcisico dos pais e dp ela não corresponder as expetativas.

    “Afinal vivemos em monarquia” (este texto que escrevi antes do verão, serve a um homem que me alertou por causa da monarquia acerca de uma incoerencia de um candidato a republica 🙂 )

    As crianças da sociedade actual são, na sua maioria, reis e rainhas em Portugal. Os pais não ouvem as notícias porque estão todo o dia com o canal Panda ligado. As bolachas lá em casa são as da publicidade que a criança viu. As festas começam desde o primeiro ano de vida e muitas vezes são dispendiosas e em lugares externos à casa dos pais. Há modas e parques para uma simples festa de anos.
    Os bolos de aniversário são uma construção como o bolo de noiva e um despique entre pais. A vida social dos filhos é, habitualmente, mais activa do que a dos pais. Estes passam o tempo a servir de motoristas entre a ginástica, a natação, a música, o karaté e respectivas competições. Os pais ficam sem fim-de-semana livre quase todo o ano. Usam as marcas que os filhos escolhem e estão incapazes de lhes dizer que não.

    Nesta sociedade de consumo a maioria das crianças tem brinquedos a mais, comida a mais, actividades a mais e, não percebo porquê, ainda não entraram em burnout, esgotamento por excesso ou má organização do “trabalho”. São habitualmente carentes de ter os pais mesmo a ouvi-las no sentido de as compreender. Em vez disso o que obtêm, e não querem, é que cada palavra que digam, por vezes, com atrevimento e sem graça é multiplicada ao infinito. A ideia de ser preciso ter uma boa auto-imagem instalou-se e deturpou-se. Deixou-se de valorizar a caminhada, só o resultado final. Passou-se ao exagero de cada casal ou progenitor ter no seu filho um génio ou dizer-lhe que é um génio. Por definição o génio sai da norma e, se sai da norma, não é habitual. Não é então possível que todas as crianças sejam brilhantes. As que não são, se lhe dizem todo o tempo que são, vão sentir-se traídas quando notarem as suas limitações e desistirem. Mais vale ser rei ou rainha em casa do que normal no duro mundo cá fora.

    A saúde é o bem estar físico, mental e social. Não estamos a fazer bem às crianças em transformá-las em reis e rainhas. Afinal Portugal é uma monarquia? Cada ser humano é especial e único. O neocórtex fez dos vertebrados animais imperfeitos porque podem ainda escolher, pouco, mas alguma coisa. Nós, humanos, somos os mais imperfeitos dos animais na medida em que nos é dada a maior possibilidade de escolha e, por isso, de erro. Se querem um mundo perfeito sejam invertebrados, afinal já estão a tentar fazê-lo ao nos dizer que não tivemos escolha a 5 de Junho. A minha sugestão enquanto pediatra é: deixem as vossas crianças terem escolha, mas também limites; deixem a criança errar, é com o erro que se aprende. Onde podem ser completamente o que quiserem, aí deixem-nas mandar, é na imaginação. Ajude-as na imaginação, não lhes dê o brinquedo perfeito, não as torne invertebradas. Deixem as crianças esfolar os joelhos, tocar com a mão na comida, sentir a brisa, tocar na planta… e mais vale ouvir o seu chamamento do que comprar-lhes a nova playstation. As crianças devem estar com os pais e a família. A agenda social esta a impedir? Mudem a agenda.

    Quem manda, afinal lá em casa? Seja republicano, mesmo que seja monárquico. E comece já hoje. Vem aí o Verão! Não lhes dê sumos e qualquer coisa terminada em tea açucarado que as desidrata. Dê-lhes água! Beba água também. Dê-lhes o exemplo! Não fume no carro ou em casa. Já agora, não fume. Dê-lhes o exemplo! O protector solar de mais alto factor, o chapéu e os óculos escuros são mesmo para usar.

  4. henedina diz:

    Um ambiente calmo, poucas regras mas obrigatórias, com sentido e essenciais, para que o castigo pelo seu incuprimento não custe a aplicar. 😉

  5. João. diz:

    “Com as crianças é mesma coisa: a pancada e a agressividade não funcionam. Podemos conseguir que uma criança nos tema nos minutos que a temos à nossa frente, mas ela nunca internalizará as normas que queremos impôr. É curioso que mães que batem nos filhos porque de outro modo não conseguem nada deles, ficam aparvalhadas quando lhes pergunto se conseguiram que a criança passasse a fazer o cocó no penico, e depois na sanita, à pancada. Claro que não! Pois.”

    Tanto quanto posso entender teoricamente estou de acordo. Até porque não temos de partir do princípio que os próprios pais realmente sabem porque estão a bater na criança e o que querem realmente impor; enfim quando os pais exigem que a criança use o penico e usam um certo forçamento para que isso aconteça a criança sempre pode elaborar à medida de sua capacidade algo assim como a pergunta a si mesma, “porque é tão importante para vocês que eu use o penico”?

    E esta é uma pergunta que de algum modo, a meu ver, convoca o desejo dos pais, esse cujo tem muito de inconsciente e que, em geral, se desenrola pelo processo metonímico de encadeamento atrás de encadeamento de razões a que os próprios pais, se não for por uma fala de mestre sobre a criança – um “porque sim”, “porque eu quero” – não conseguem pôr um fim.

    • João. diz:

      Em todo o caso, para Lacan o que provoca ansiedade:

      “Contrary to what people say, it is neither the rhythm nor the alternation of the mother’s presence-absence. What proves this is that the child engages in repeating presence-absence games: security of presence is found in the possibility of absence. What is most anxiety-producing for the child is when the relationship through which he comes to be – on the basis of lack which makes him desire – is most perturbed: when there is no possibility of lack, when his mother is constantly on his back”

      (Lacan, Seminário X, citado de Fink, B, “The Subject and the Other’s Desire, in, “Reading Seminars I and II – Lacan’s Return to Freud, SUNY Press, 1996)

      • fnvv diz:

        Já sobre o geral – ” o qu eos pais querem impor” – aí sim, de facto há muitas dúvidas. por isso sinalizo a descontracção e estupidez natural.

    • fnvv diz:

      Bem, no caso dos meus filhos, irem para o penico ou para a sanita tnha uma razão simples: não gosto de cocó na sala, nos corredores, sofás etc.

      • João. diz:

        Sim, a razão pode aparecer simples para os pais mas não tão simples para a criança que pode bem perguntar-se porque razão não gostam do cocó na sala, nos corredores. etc

      • João. diz:

        O que eu também quero dizer é que poderá ser que no forçamento do penico pode estar incluído também, e por exemplo, todo o ideal de vida que os pais têm para os filhos, enfim, que quem está a ser forçado a usar o penico não é apenas o bebé mas o imaginado futuro engenheiro, advogado, médico, etc.

      • João. diz:

        Julgo, no entanto, que há que dizer que estes motivos que intruduzem elementos de uma outra ordem, de ordem simbólica, não são maus por si mesmos, parece-me que poderão ser até infraestruturais para a futura entrada da criança nesta ordem – o que acontece é que até certa idade e certas experiências estes motivos são para a criança incompreensíveis, quer dizer, fazem parte do que Lacan diz ser a diferença entre a demanda da criança aos pais (em primeiro lugar à mãe) e a resposta dos pais (da mãe) à criança. Ou seja, que há uma diferença entre a demanda da criança e o desejo dos pais, uma diferença cuja move a criança para a sondagem do desejo da mãe enfim de que poderá haver nele algo mais para além do que a criança imagina e que, a meu ver, começa por ser que a mãe é omnipotente e disponível para atender a todas as demandas da criança.

        É curioso que para Lacan a questão da Castração, introduzida por Freud, não começa por ser a castração do filho em relação à fusão com a mãe, mas a castração da mãe, quer dizer, o pai, o Nome-do-Pai, como lugar da lei, ocupará para a criança o lugar de um poder sobre a mãe, um poder que para ela, para a criança, de certa forma aparece de fora e que, eventualmente, permite que a criança se introduza nessa outra ordem, na ordem da lei simbólica que é antes de mais a ordem do significante, da linguagem, da substituição da relação imediata pela relação mediada pela linguagem onde a criança como corpo e imaginação aparece como palavra, que os seus actos e relações têm nomes, significantes, que introduzem uma lógica própria. Ela começa a perceber o seu corpo como tendo braços, pernas, cabeça, orgãos etc, quer dizer, no sentido de que são significantes com que pode construir frases, discursos e que há coisas que pode fazer e outras que não pode, que há palavras e frases para fazer as suas demandas e se relacionar com o desejo e vontades dos pais, e que essas frases têm uma ordem para que se tornem compreensíveis, uma ordem que é prévia à criança, à relação imediata da criança com a mãe.

        O que é curioso também, segundo interpreto, é que Lacan propõe que a mãe é fundamental para a instituição do Nome-do Pai como lugar da lei simbólica, ou seja, não basta ao pai querer introduzir-se entre a mãe e o filho para se fazer valer, é preciso que a mãe não sabote o pai. É a mãe que de certa forma tem de sugerir à criança que há nela um outro desejo para além do atender a todas as demandas da criança, que a criança não é o único objecto do seu interesse, que o pai é para a mãe, algo de importante para ela. Enfim, o Nome-do-Pai como lugar da lei é, a meu ver, segundo intrepreto de Lacan, mediado pela mãe, não é um lugar que se imponha directamente à criança.

        E depois há também a contingência, quer dizer, não é possível aos pais controlar toda a vida psíquica da criança tanto quanto não é possível controlar toda a vida psíquica deles, enfim, que a contingência é uma necessidade, digamos assim.

      • fnvv diz:

        Bem sou bastante céptico diante da psicanálise, mesmo que não me desagrade a representação lacaniana do inconsciente estruturado na linguagem.
        Aprendi bastante psicanálise com o Carlos Amaral Dias ( foi meu cunhado durante 30 anos) , mas até fui aumentando o cepticismo à medida que melhorei como terapeuta.
        Lacan oferece, no seu estilo, uma leitura da relação precoce , tal como Bion, Klein, Maheler, Tustin ( gosto bastante) etc, mas aprecio-o mais do ponto de vista semiótico e filosófico.

      • João. diz:

        leia-se “introduzem” (e não “intruduzem”)

      • João. diz:

        Bom, começando por um chavão do tamanho de um elefante, o saber nunca se fez se cepticismo. Embora haja que poderar sobre o lugar do cepticismo no saber.

        De resto, não vou disputar consigo questões clínicas que estão fora do meu alcance. No entanto, embora possa entender o cepticismo já não percebo tão bem perspectivas como as associados ao Livro Negro da Psicanálise que tomam Freud e a psicanálise como uma espécie de flagelo. Não estou a sugerir que seja o seu caso.

        Quanto a Lacan comecei por querer saber apenas alguma coisa sobre os seus conceitos fundamentais mas acabei, digamos, enredado pela sua obra que acho fascinante, embora deva dizer que sem Jacques-Alain Miller, Zizek, só para mencionar os mais mediáticos, dificilmente conseguiria só por mim entrar na obra de Lacan.

        Badiou sugere que qualquer filosofia actual que se preze tem que enfrentar Lacan e eu tendo a concordar.

      • João. diz:

        Queria ter escrito “o saber nunca se fez SEM cepticismo”, etc e tal.

      • fnvv diz:

        ah bom…até me assustei.Sou céptico ( e leitor compulsivo de Pirro, Sextus etc) de boa cepa: não duvido dos fenómenos, duvido ( suspendo etc) do que se afirma dogmaticamente sobre os fenómenos.
        A psicanálise é a ciência da vaidade ( Borges) porque toda a gente gosta de se ouvir, mas isso é outra conversa.

      • João. diz:

        “A psicanálise é a ciência da vaidade ( Borges) porque toda a gente gosta de se ouvir, mas isso é outra conversa.”

        Em certa medida sim. Lacan, a meu ver, reparou nisso muito bem, daí as sessões de duração variável, o silêncio do analista, enfim, uma certa subversão por parte do analista do do gozo do ouvir-se a si mesmo do analisando e também a interpretação do analista não propriamente do que o analisando diz explicitamente mas como tentativa de atingir o real, ou seja, aquilo que na fala do analisando é uma circulação em torno de um não querer dizer.

        Um dos grandes instrumentos teóricos de Lacan, a meu ver, é a diferença entre o sujeito do enunciado, o que o sujeito diz, e o sujeito da enunciação, o ponto, o lugar, de onde diz o que diz, o que ele quer realmente dizer. Eles são diferentes.

        “Our everyday academic experience provides a nice example of the Lacanian difference between the subject of the enunciated and the subject of the enunciation. When, at a conference, a speaker asks me: “Did you like my talk?”, how do I politely imply that it was boring and stupid? By saying: “It was interesting. . . .”The paradox is that, if I say this directly, I say more: my message will be perceived as a personal attack on the very heart of the speaker’s being, as an act of hatred toward him, not simply as a dismissal of his talk—in this case, the speaker will have the right to protest: “If you really just wanted to say that my talk was boring and stupid, why didn’t you simply say that it was interesting?’’.

        Zizek,S. “The Parallax View”

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