O historiador no seu labirinto ou a revolução anacrónica

Vivemos tempos interessantes, como diz o tal provérbio chinês, tempos em que até pessoas ponderadas se abandonam ao dislate. Hoje, no Público, Valentino Viegas, um respeitável historiador, assina um artigo em que compara a crise actual com a de 1383-85 e apela a idêntica revolução. O invasor castelhano equivale à troika, D. Fernando e Dona Leonor Teles aos partidos portugueses que assinaram o Memorando (ou seja, o desastroso tratado de Salvaterra de Magos), o Mestre de Avis e os mesteirais aos putativos revolucionários que hão-de voltar a salvar-nos em nome da “independência nacional”, e assim por diante.
O artigo, comparando o que é incomparável, comete aquilo a que Lucien Febvre chamava o pecado mais imperdoável do historiador: o anacronismo. Mas tem outros problemas com a historiografia recente e com os próprios factos.
Sem entrar na questão mais profunda do uso de conceitos como revolução ou independência nacional para o século XIV, também um anacronismo, nenhum historiador vê hoje no interregno de 1383-85 uma revolução que “triunfou porque a maioria dos revolucionários amava Portugal e punha os interesses do seu país acima de quaisquer interesses materiais”. Viegas, curiosamente, cruza a visão nacionalista predominante à direita no século XX, por exemplo em João Ameal ou Marcelo Caetano (1383-85 como uma luta pela independência contra Castela), e a visão da luta de classes predominante à esquerda, por exemplo em Joel Serrão, Álvaro Cunhal ou Borges Coelho (1383-85 como conflito entre a burguesia e a nobreza). Um cruzamento que nada tem de novo e identifica, à boa maneira do Romantismo do século XIX, o “povo” e a “nação”.
Talvez o mais vigoroso defensor da tese tenha sido Jaime Cortesão, mas muita água correu entretanto sob as pontes. Mattoso e Maria José Ferro Tavares propõem uma explicação que foge por completo ao curto-circuito guerra nacional vs. luta de classes, estudando as fracturas internas da própria nobreza, que se dividiu fortemente, e sem clara opção de classe, quanto ao partido a tomar. Esta tese foi recentemente subscrita por João Gouveia Monteiro, embora sem deixar totalmente de lado a “componente popular”. Luís Miguel Duarte, em 2007, complicou ainda mais as coisas: há “uma grande crise e muitas crises pequenas”. Há uma crise de sucessão dinástica, uma crise no seio da nobreza, uma crise social e económica causada pela Peste Negra, uma crise política decorrente das guerras fernandinas – e todas se conjugam em 1383.
O debate é quase infindável e mostra como um dos períodos mais estudados da história de Portugal está, afinal, tão obscurecido pelas opções ideológicas dos historiadores. Valentino Viegas limita-se a prosseguir a gloriosa tradição que nos tem impedido de produzir uma síntese decente de 1383-85. Nada de novo. Aliás, nem sequer é novo que o faça para pedir uma revolução libertadora, como in illo tempore fizeram Cunhal e Borges Coelho.
Mas já não é tão compreensível que Viegas, um especialista na matéria, distorça ou omita factos decisivos que certamente conhece.
Diz ele que, segundo o tratado de Salvaterra de Magos (comparado, recorde-se, ao Memorando de entendimento com a troika…), “enquanto o futuro filho da do rei D. João I de Castela e da rainha Dona Beatriz, filha de D. Fernando e de Dona Leonor, não tivesse 14 anos de idade para poder vir a reinar em Portugal, o rei de Castela devia ser aceite e reconhecido como rei de Portugal”. Não é verdade. O que o tratado estipulava é que, em caso de morte de D. Fernando e menoridade de Dona Beatriz, a regência devia ser entregue a Dona Leonor, rainha legítima de Portugal, e não ao seu genro D. João I de Castela, como de resto aconteceu a 22 de Outubro de 1383, data da morte de D. Fernando. É só em Janeiro de 1384 que Leonor Teles, depois de fugir para Santarém devido à revolta do povo de Lisboa no início de Dezembro de 1383, abdica a favor da filha e, ipso facto, do genro, que entretanto tinha invadido Portugal e chegara à vila ribatejana. No contexto, a diferença é importante…
Diz Viegas que, para os assassinos de João Fernandes Andeiro, “o poder da rainha Dona Leonor era ilegítimo porque não defendia o interesse nacional”. Nada disso. Por muita detestada que Dona Leonor fosse (e era, a acreditar em Fernão Lopes), um dos primeiros actos do Mestre de Avis depois de matar o Andeiro, aconselhado pelos outros conspiradores, é propor casamento à própria Leonor Teles por evidentes razões de legitimação política. Um pedido que, também por razões evidentes, a Rainha rejeita.
Diz ele também que, nas guerras fernandinas, “os ingleses, em vez de ajudarem Portugal contra Castela, comportaram-se em Lisboa e no Alentejo como autênticos conquistadores” (atente-se na imagem recorrente de que os supostos aliados estrangeiros só nos vêm fazer mal – tal como a troika). Talvez, mas isso não impediu o Mestre, defensor do “interesse nacional”, de voltar a pedir o auxílio dos ingleses, um auxílio muitíssimo influente em Aljubarrota e arredores, e de se casar com uma princesa inglesa para selar a aliança.
Diz Viegas por fim – e este é o menos significativo dos seus erros, embora revele a falta de rigor de todo o artigo – que a população lisboeta, no dia do assassínio do Andeiro (6 de Dezembro de 1383), “caçou o cismático bispo D. Martinho [um castelhano favorável ao Papa de Avinhão] e o atirou para o fundo da igreja”. Não foi bem isso: D. Martinho foi atirado do alto da torre e, depois de morto, arrastado pelas ruas de Lisboa e abandonado no Rossio, onde o cadáver foi entregue “aos cães”, de acordo, mais uma vez, com Fernão Lopes.
Lapso menor, sem dúvida. Sobretudo para quem usa acontecimentos velhos de seis séculos para ajustar contas com o presente. De que serve a história, afinal, se não para sugerir que os actuais traidores merecem destino semelhante?

PP

7 thoughts on “O historiador no seu labirinto ou a revolução anacrónica

  1. Não há nada como a “crise” de 1983-85 (que agora se chama “interregno” e nos meus tempos de escola secundária pública era unanimemente designada como “revolução” por causa do falecido Joel Serrão) para percebermos o encanto de umas quantas esquinas da história portuguesa: com poucas fontes, mas com grandes acontecimentos, uma riquíssima conjuntura, estruturas decadentes e personagens fascinantes, escreve-se e reescreve-se e lê-se e relê-se quase sempre sem cansaço. Noto, já agora, que há uma ou duas semanas, no DN, Mário Soares também evocou 1383-85, e a atitude do povo português de então, para nos convencer do inevitável e quase imediato fim do prazo de validade da “tróica” e do Governo.
    Como é óbvio, e se a bem-dita “tróica” ficar por cá mais meia-dúzia de anos, ter-se-á que trocar o exemplo de 1383-85 pelo de 1640…

  2. ar. diz:

    Valentino Viegas um respeitável historiador? a obra fala por si, e não por ser escassa…

    • ppicoito diz:

      Pois, por isso. Tem obra, mesmo que não especialmente inovadora, e aprende-se sempre alguma coisa. Outra coisa é a debilidade da conceptualização, como se está a ver.

      • ar. diz:

        conheces certamente a recensão crítica que o Luís Krus fez à obra dele, algures perdida num número da Ler História

  3. ppicoito diz:

    Por acaso, não conheço. Vou ler.

  4. Vitor Gonçalves diz:

    A História só pode ser compreendida através da visão do materialismo histórico.
    Pode-se não comprender o materialismo histórico, pode-se ter preconceitos em relação a este método de abordagem, mas então a História tornar-se-á inevitavelmente subjectiva e nada terá a ver com ciência. O que resta é conversa da treta.

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