Declínio e Queda

Isabel Jonet.

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Isabel Jonet pronunciou há dias umas sentenças canhestras sobre os jovens que gastam dinheiro em concertos de rock e o país que vive acima das possibilidades, entremeadas com alusões à necessidade de despedir funcionários públicos ou de recordar ao povoléu que vamos todos empobrecer.

Esta cassete, a que dedico habitualmente uma indisfarçável repugnância, passa por sabedoria profunda nos blogs da direita conservadora e liberal. Já sabemos que Isabel Jonet apoia e apoiará este Governo. Já percebemos que enquanto existirem pobrezinhos ela velará para que sejam modestos, reverentes e obrigados. Talvez reze, nas suas noites mais solitárias, para que continuem pobres.

Só que isso não tem importância alguma. E não justifica um levantamento popular envolvendo o Banco Alimentar Contra a Fome. Como afirma o Lourenço Cordeiro, esta sucessão de banalidades moralistas não nos permite desvalorizar um currículo a todos os títulos inatacável no trabalho de campo de combate à pobreza, nem nos recomenda que as suas considerações sobre os mais desfavorecidos sejam consideradas insultos por quem nada fez. Isabel Jonet tem toda a autoridade para nos transmitir as ideias que tiver, mesmo idiotas, sem  estigmas ou demonizações.

Considero miserável esta petição pública pela demissão de Isabel Jonet do cargo que ocupa na instituição que dirige. Considero que uma petição assim despreza os mais pobres, despreza a estabilidade que é necessária a uma instituição como o Banco Alimentar para fazer o que faz, despreza os milhares de pessoas que se envolvem em projectos de voluntariado para ajudar os outros — e conseguem — e premeia os mais baixos instintos políticos e a moralização tacanha que diz combater.

Num texto incendiário e inconsequente, o Sérgio Lavos escreve que há outras instituições que fazem um trabalho tão ou mais louvável do que o Banco, a começar por exemplo pela Cáritas. Pois há. Só que a Cáritas trabalha em parceria com a igreja católica. Se um dia o presidente da Cáritas expuser ideias semelhantes às de Isabel Jonet, o que lhe chamará o Sérgio? O putanheiro da caridadezinha? E onde encontrará outros bons exemplos alternativos? No Bloco de Esquerda?

Luis M. Jorge

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