Nadar no ferro – blogue terapêutico ( IV)

Quanto mais lhe ralho mais ele faz birra. Esperneia, bate-me. Bato-lhe. Fico estoirada, ele fica  a chorar”. Esta descrição é comum a jovens mães com crianças de dois ou três anos. “ Fui à FNAC folhear livros . Dizem para sairmos do local, para inspirarmos  fundo, para mantermos  a calma. Não consigo. O que há com o meu bebé?”

Nada.

Os ralhetes, nestas mães, aparecem quando a criança desarruma, corre nas lojas ou atira coisas ao chão. Também são frequentes quando o miúdo não se quer vestir de manhã ou não quer beber o leite. A criança faz o que  tem a  fazer. Quem está a errar é a mãe. Uma relação destas é uma relação  de poder. A mãe destas crianças é muitas vezes uma mulher pouco confiante, temerosa, frágil.É por isso que deixou a situação evoluir ao ponto de o filho jogar todo o arsenal que tem, inclusive o não temer as palmadas no rabo. Coisa séria. As crianças sentem a fraqueza e por isso muitas mães relatam, assarampantadas, que na creche ele é um anjinho. Elementar.

O que fazer? Virar a mesa. Lentamente, a mãe deve modificar a resposta ao arsenal do filho. Por exemplo, diante de uma birra matinal em que não se quer vestir, deve sentar-se ao lado e ler uma revista. Esperar. Isto implica mentalizar-se para perder meia hora durante uma semana – as vitórias dão trabalho. Com o leite idem. Nove em  cada dez crianças acabam por ceder, porque  a birra deixa de ser contra  qualquer coisa.

O ponto é este: o adulto,mesmo no limite, tem armas ( atributos, na linguagem da relaçao de poder) que a criança desconhece. Ela não sabe que  a mãe pode  decidir perder meia hora todos os dias durante uma semana.Pode mesmo?

FNV

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15 thoughts on “Nadar no ferro – blogue terapêutico ( IV)

  1. Gostei Filipe,.
    No perder (a meia hora) é que está o ganho, mas estas jovens mães (e pais) não têm noção do tempo.
    Abraço

  2. Patrícia diz:

    Estou de acordo e tenho provas!

    Mas porque é que o sujeito é sempre a mãe? E os pai? Daqui depreendo que os pais:
    ou não queixam, ou estão mais disponíveis para “perder” a meia hora (o que duvido), ou ficaram no limbo…

  3. jcd diz:

    Filipe, é tão certinho e razoável tudo isso que escreve e propõe… até faz lembrar aquele programa do Cesar Milan… (nada contra, note-se, e educar crianças sempre me pareceu ter muitas semelhanças com treinar cães).

    Li o texto e vi 6 vezes a palavra mãe e 0(zero) a palavra pai. Mesmo no contexto a afirmação ” quem está a errar é a mãe” é letal, é mais um jarro de culpa para cima das mulheres, sempre, que elas aguentam isso e muito mais, por isso o “nadar no ferro” é ‘all about women”. Por isso vivem vidas mais longas do que os homens, com tanta expiação de culpa a fazer precisam de mais tempo. Sobretudo essas mesmas: as “pouco confiante(s), temerosa(s), frágil(eis).
    Joana

    • fnvv diz:

      Estou pronto para a crucificação misógina, Joana, o “certinho e razoável” é que me arrebentou.
      Quase só ouço mulheres, sãoi mai s inteligentes e comunicativas, não tenho culpa. Vou tentar alargar o scope, juro.

      • jcd diz:

        100% de acordo do que diz em relação às mulheres, nomeadamente porque têm a coragem de nutrir a ilusão de que podem e vão mudar (a si, ao marido, aos filhos…).
        “Certinho e razoável” porque o que diz está certo, pois hoje educa-se mal (como dantes se educava mal, embora de outra forma). O que diz faz sentido e até pode resolver problemas mas, no dia a dia dificilmente se mudam padrões (Pavlov sabia), e com excepção de casos limite e extremos, nem sei se valerá a pena mudá-los. A questão é que hoje fica bem que se culpem os pais – a mãe – de tudo o que acontece aos filhos e as mulheres são melhores a encaixar a culpa do que os homens. Desde o momento em que pensam numa gravidez que se enchem de livros sobre educar, como se isso fosse uma necessidade, em vez de confiarem em si. Têm dúvidas imensas em situações que o mero bom senso resolveria. A sociedade espera e vive dessa incerteza das mães, pois ganha dinheiro com livros de auto-ajuda, pediatria, psicologia infantil, terapia familiar, ioga para crianças, 365 jogos em família para os seus filhos, astrologia infantil, etc. Meses depois lêem sobre a depressão pós parto, sobre como recuperar a linha e perder os quilos a mais, para além de obras do género “como manter a chama do amor depois dos filhos”.
        Porque as mães (excepção para casos limites e patológicos) deveriam reclamar para si o direito de errarem, e de não se afundarem em culpa, mas é sempre mais fácil dizer “as mães erraram” do que dizer aos filhos (todos somos filhos embora nem todos sejamos pais) “cresçam! queriam mães perfeitas? azar, isso não existe”, tenham eles 10, 15, 20, 30 ou 40 anos. As mães já fazem muito: são filhas, ‘esposas’, amantes, amigas, donas de casa, cozinheiras, motoristas dos filhos, e profissionais disto ou daquilo, e é certo que são imperfeitas, demasiado permissivas, ou demasiado complacentes, ou demasiado autoritárias, ou pouco atentas, pouco capazes de ouvir, ou demasiado ansiosas, demasiado controladoras, qualquer coisa a mais ou a menos, não é preciso que de cada vez que não são perfeitas sejam apontadas com o dedo e se diga que erraram, ou que elas achem que há algo de errado com elas. Não há. E não é preciso contribuir para o processo de culpabilização.
        Se elas querem (tentar) mudar os seus padrões de comportamento pedindo ajuda a profissionais, óptimo, ainda bem por elas primeiro, e pelos filhos depois. É uma opção, muito válida claro e desejável provavelmente, mas é uma opção mais do que uma ‘correcção’.
        Joana

      • fnvv diz:

        Minha querida Joana,
        Eu sabia o que me esperava quando usei o “erra”.
        Cada vez tenho menos medo das palavras e dos milhões de sensibilidades agarradas: se perceber que erra, corrige. A culpa judaico-cristã não é para aqui chamada.

  4. caramelo diz:

    hm, e o puto veste-se e bebe o leite enquanto a mãe lê a revista? Já ouvi falar dessa arte marcial zen, em que se vence pela imobilidade. Boa ideia. Eu já experimentei em tempos outras técnicas, o do desbaratinar a cabeça do puto. Uma vez atirou coisas ao chão e eu atirei também de seguida. Ou começar a berrar histérico depois dele. Nesta deu-lhe para rir, que era o objetivo, mas ainda não sei se foi boa ideia. Com sorte, não dá em serial killer (tirei esta do modern family)

    • fnvv diz:

      Não, eu escrevi “lentamente”, ou seja, a criança começa a perceber que a birra não se opõe a nada.É preciso perceber o que é uma birra, sei isso nada feito.

  5. jcd diz:

    Caríssimo Filipe, eu também não tenho medo nem das palavras, nem dos actos, nem dos erros das mães que amam: a minha errou…, eu erro. A diferença é que eu digo: se percebe que erra, e se quiser, corrige, óptimo. Se não quiser corrigir, óptimo também, não vem mal ao mundo nisso.
    Joana

  6. António diz:

    Tenho um rapaz com 3 anos e meio, também dado a birras e por instinto sempre fui aplicando essa receita. Por vezez funcionou, noutras ajudou explicar porque não devia fazer aquilo, noutras lá a birra venceu. Mas o tempo, esse, se não for aplicado na educação dos petizes vamos gastá-lo em quê?

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