Nadar no ferro – blogue terapêutico ( V)

Na mediação conjugal pretendo isolar as áreas inegociáveis de cada um dos membros do casal ( ainda não me aparecem troikas). A partir da análise dessas áreas vejo o que se pode fazer e quase sempre há mato para desbastar. Não faço terapia conjugal porque não acredito em ter casalinhos à minha frente,  sessões  a fio, tentando melhorar a “comunicação”, a “compreensão” ,  as posições sexuais. e outras larachas. A mediação é curta ( uma ou duas sessões) e grossa.

Uma relação estável, com filhos, é um conflito político. O terreno comum já está definido há muito e funciona sempre, com mais ou menos dificuldade. As cidadelas  fortificadas é que são o nó que confrontou Alexandre   em Górdio. Excluo, claro, insurreições como viagens a lençóis exteriores ou terramotos ( morte de filhos, cancros etc).As fortificações  que trabalho na mediação são  territórios que o outro não quer, ou não pode, respeitar.

Ela é minha mãe e não a vou hostilizar por tua  causa. Este é um caso do dia. Ele não quer deitar fora  a mãe, ela não suporta a sogra. Como na primeira  guerra do Peloponeso, o problema está nas obrigações decorrentes das alianças. Ela entende que ele deve cortar com quem a desrespeita, ele sente-se amarrado a uma lealdade original. A mediação assenta as baterias nela, porque o laço dele com a mãe tem, pelo menos, um pressuposto natural, i.é., não-escolhido.

Costumo explicar á mulher que a sogra é um adversário imbatível: velha, frequentemente  viúva, não tem nada  a perder. A mulher tem tudo  a perder: a saúde, o casamento, uma família unida. Desenho uma fronteira que  a sogra não pode ultrapassar. Em casa deles, quem manda é  amulher e o marido deve aceitar o comamndo, porque o laço que o une à mãe não é válido nesse território. O marido exibe assim uns bons quilos de  solidariedade com a sua mulher, que é o que ela quer.  Ela, por seu lado , desobriga-se de exigir  a solidariedade, a que obriga o companheiro,  noutros países. Por exemplo, ele pode ir ver a mãe sempre que lhe apetecer sem ter de suportar remoques quando chega  a casa.

Costuma funcionar se as pessoas têm dois  dedos de testa.

FNV

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10 thoughts on “Nadar no ferro – blogue terapêutico ( V)

  1. josé serra diz:

    muito bem escrito e melhor observado. sobretudo: «Não faço terapia conjugal porque não acredito em ter casalinhos à minha frente, sessões a fio, tentando melhorar a “comunicação”, a “compreensão” , as posições sexuais. e outras larachas. A mediação é curta ( uma ou duas sessões) e grossa». ganha-se é menos, dizia o outro. mas subscrevo. abraço.

  2. Patrícia diz:

    E se a fortificação já fôr a estrutura?

    a sogra: modelo demasiado simples – falta “ruido”.

  3. Lembrei-me deste seu post ao ler este outro: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4987394.html, diz que entre o governo e os deputados existem imensos marcianos: “que é muito mais trabalhoso encontrar deputados e membros do governo que, em vez de uma antena, tenham dois dedos de testa”. Para os políticos o seu método será assim de difícil aplicação.

  4. Maria João diz:

    Não suporto a minha mas nunca deixaria perceber que a deitava fora. Mas o corpo ressente-se: a cada visita vou à cama febril (e não quero atenções). o pior é que cada ano que passa ele fica mais parecido com ela

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