Catalunha não tão livre


A leitura mais frequente dos resultados das eleições na Catalunha, entre nós, é a de que ganhou a frente soberanista ou independentista. Somando os votos da CiU, que ganhou (embora passando de 62 para 50 deputados), da ERC, que ficou em segundo lugar (embora passando de 10 para 21 deputados), e de outros pequenos partidos pró-independência, temos cerca de dois terços dos 135 deputados catalães a favor de uma separação de Espanha.
É verdade, mas há um pormenor relevante de que ninguém fala. Enquanto o Partido Socialista Catalão, tradicionalmente autonomista, desceu de 28 para 20 deputados, o PP ganhou um deputado e, mais do que isso, reforçou muito a sua votação, passando de 387 mil votos em 2010 para 471 mil. Para efeitos de comparação, a ERC teve agora 496 mil votos (219 mil em 2010) e a CiU 1 milhão e 100 mil (1 milhão e 200 mil em 2010). Ou seja, o voto conservador fugiu da CiU para o PP, enquanto a ERC cresceu à custa dos socialistas.
O que representa um aumento da clivagem entre os que querem a independência e os que querem manter as coisas como estão. Ora, um dos factores de sucesso do nacionalismo catalão era o seu discurso moderado e gradualista, garantia de apoio do centro político. Apesar do forte movimento operário e de alguns episódios pouco edificantes na Guerra Civil, repartidos entre anarquistas e vermelhos – a vandalização da catedral da Sagrada Família, por exemplo-, a autonomia catalã foi sempre uma exigência burguesa, não violenta e cosmopolita. Ao contrário do activismo basco, paradoxalmente mais ligado aos extremos (de direita no século XIX, com Sabino Aranda e outros nostálgicos de um Euskadi medieval não contaminado por mouros e castelhanos; de esquerda no século XX, com os republicanos, os católicos progressistas e os marxistas da ETA). Ter uma literatura escrita com quase mil anos também ajudava, além de velhas relações com o Sul de França e as ilhas mediterrânicas (outra diferença em relação aos Bascos, com uma identidade regional mais distinta, mas também mais isolada, ou mais distinta porque mais isolada).
Talvez a clivagem seja apenas conjuntural. Talvez o fenómeno ERC seja apenas como o Syriza na Grécia: um produto da crise. Mas, se não for, a sociedade catalã sai mais dividida da aventura, com um bloco de meio milhão de eleitores a votar no PP, em princípio espanholista, outro meio milhão a votar na esquerda radical, em princípio independentista, e o milhão da CiU no meio, em equilíbrio difícil. A ex-Jugoslávia não está assim tão longe.

PP

6 thoughts on “Catalunha não tão livre

  1. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Pedro, já leu com atenção os textos de John Caldwell Calhoun? Foi editado em tempo pelo Liberty Fund norte-americano e está parcialmente traduzido pelo consórcio Temas & Debates/Círculo de Leitores.
    Por mim, creio estar criada uma dinâmica separatista inexorável que só se agravará por força da situação sócio-económica do Reino de Espanha.
    Aliás, a mesma argumentação é, em grande medida, extensível à Escócia para a qual já está agendado o respectivo referendo soberanista em 2014 (com o acordo do Governo e Parlamento britânicos, é certo).
    Para já não falar do crescimento exponencial do partido nacionalista conservador flamengo no seio do Reino federal da Bélgica que também pode bem vir a fazer o pleno eleitoral no mesmo ano de 2014…

    • ppicoito diz:

      Não conheço esse autor, tenho que ver. Há muito que a dinâmica separatista é inexorável: desde a transição para a democracia. A questão é saber qual a sua velocidade e que tipo de separatismo.

      • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

        Caro Pedro, tudo depende das ancas biónicas d’El-Rey D. João Carlos: melhor será o Reino de Espanha transitar para estado federal.
        Ah, já me esquecia: Portugal teve 2 rainhas catalãs e a Restauração de 1640 devêmo-la, entre outros, aos “separatistas” daquele canto da Ibéria e aos “separatistas” mais remotos das Províncias Unidas… Pensando bem, quase toda a União Europeia é composta por Estados “separatistas”, nicht war?

  2. Isso de comparar os votos de um partido com eleições anteriores, quando agora votou muito mais gente (em todos os partidos, portanto), é capaz de ter um bocado de ginástica em excesso. Tal como esquecer, toda a gente o faz, que a ERC regressou a um resultado próximo do que já tinha tido, antes de ser arrasada na eleição anterior. Detalhes.

    • ppicoito diz:

      Talvez, mas qual é exactamente o ponto em que discorda do que escrevi?

      • Não é bem uma discordância, mas isto: “o PP ganhou um deputado e, mais do que isso, reforçou muito a sua votação, passando de 387 mil votos em 2010 para 471 mil” parece-me exagerado.
        De resto o PSC talvez nem tenha descido tanto quanto podia, o PSOE está claramente em paokização, e a ERC não é tão de esquerda como isso (não por acaso tem dois concorrentes desse lado).
        A mim parece-me que houve um voto claramente independentista mas castigando a CIU, que convém não esquecer é governo, e as políticas de governo também foram votadas.

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