O único narco-estado da Europa (I)

Devagar, devagarinho, sucedem-se os episódios. Nas muitas séries e artigos que escrevi ( o último foi na Ler)  fui dizendo que seria inevitável.  Um território que é um dos principais pontos de entrada de droga na Europa, e que está esventrado por uma depressão económica ordálica, põe-se a jeito.

Quando se conhece a História do narcotráfico, não é difícil acertar na previsão. Desde a  Prohibition que sabemos o que resulta da combinação de um mercado  vigoroso de um produto adictivo  e lucrativo com o seu estatuto de marginalidade face ao controlo social. Desde os anos  50 (  Turquia, Birmânia, Colombia,Irão, México, Paquistão, Afeganistão, Guiné )  que sabemos que, se a estes factores adicionarmos a pobreza, o resultado é uma sociedade corrompida.

Em S.Paulo:

De qualquer maneira, há claras distinções entre os dois fenômenos, mas alguns números são curiosos: no auge da guerra do narcotráfico, quando o estado de Chihuahua, onde fica Ciudad Juárez, se transformou numa região sem lei, as estatísticas chegavam a passar de 300 mortos por mês. No estado de São Paulo, a média mensal é superior a 350 mortes e supostamente estamos vivendo em paz.

FNV

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15 thoughts on “O único narco-estado da Europa (I)

  1. caramelo diz:

    Só sobre a parte final: A violência no Estado de Chihuaha, com 3 milhões, estava sobretudo concentrada em Ciudad Juarez, com um milhão, e o estado de São Paulo, tem 40 milhões. A escala é diferente e o impacto da violência em Ciudad Juarez foi maior do que o impacto na cidade de São Paulo.

    • fnvv diz:

      claro que há as proporções, mas a violência no estado de S.Paulo também é sobretudo em S.Paulo e não nas roças.

      • caramelo diz:

        Sim, eu sei, mas por acaso as noticias que têm aparecido dessa violência do nacotráfico, e das milícias, referem-se à região metropolitana de São Paulo, com 25 milhões. Nas cidades de São Bernardo e Diadema, no ABC paulista, foram assassinadas sete pessoas em 12 horas, no dia 26, li agora num jornal de lá. E no estado, a que se refere aquela estatística, já não devem sobrar muitas roças de café, como há cem anos, e os assassinatos não devem ser poucos nas zonas restantes. Isto não invalida que os governos da cidade e do estado estejam a lidar muito mal com isto, ao contrário do que parece estar a acontecer no Rio de janairo.

  2. fnvv diz:

    não é uma questão de lidar mal, i.é, se eventuamente pensas que há alguma críitica político-ideológica ou coisa assim. Qualquer que que fosse a cor, o problema seria o mesmo

  3. caramelo diz:

    Não é isso, não estou a pensar em nada politico ideológico, “lidar mal” é no sentido operacional, falta de articulação entre os vários níveis de governo, de condicionamentos geográficos, uma cultura policial diferente entre as duas cidades, politicas sociais diferentes, também, etc.

  4. gandavo diz:

    Sobre a violência em S. Paulo (estado e capital) os números podem ser consultados no link abaixo e, sobretudo, comparados com os das outras unidades da Federação. Em resumo, se o índice de mortalidade (mortos p/100.000 h.) verificado em SP se estendesse ao resto do Brasil poupar-se-iam, por ano, 30.000 vidas.
    Mesmo com o aumento ocorrido nos últimos meses, o índice ainda é, por exemplo, metade do verificado no RJ, agora “pacificado”. Na Bahia, terra de gente boa e sorridente, nem se fala…
    A causa da sobreexposição mediática da violência em SP é outra e é política e partidária.

    http://mapadaviolencia.org.br/mapa2012.php

  5. caramelo diz:

    Obrigado, gandavo. Podemos sempre contar com o Reinaldo Azevedo, é verdade. Eu acho que não precisava do Reinaldão para me dizer que existem maus polícias e extorsão e abusos. Eu já não os imaginava como aquele guarda dos desenhos animados do noddy. É uma questão de grau. Já me basta agora saber, por exemplo, que a população desses locais está agora mais satisfeita do que antes e que a criminalidade ali desceu e que as suas crianças têm agora outras oportunidades de vida para além do negócio do tráfico. É pena que a criminalidade se tenha transferido para outros pontos do estado, mas isso não será fácil de resolver e se os expulsarem dali, acabam por aterrar no estado ao lado. Interessava-me saber se os índices de assassinato e violência extrema desceram, ou não, no RJ por causa da ocupação das favelas, mas também interessa saber se a vida das pessoas, em média, melhorou ou não por causa disso, se passaram e ter mais escolas, hospitais, saneamento, melhor habitação, etc.
    São Paulo mantém apesar de tudo um histórico bom e ainda bem. O meu avô andou lá a construir arranha-céus, quer dizer, a assentar tijolo e na carpintaria, e tinha muitas saudades daquela terra.

    • gandavo diz:

      Só mais uma achega: no RJ a polícia anuncia com antecedência e estardalhaço que vai invadir o morro. Resultado: a bandidagem tem tempo de fugir e só são presos bandidos pé-de-chinelo. Consegue-se (será?) acabar com o tráfico sem dar um tiro e sem desmantelar a estrutura. A preocupação das autoridades fluminenses parece ser estética: a coisa tem que estar apresentável para as visitas em 2014 e 2016. É, no fundo, varrer o lixo para baixo do tapete.

      Comparando com SP, se verificarmos a população prisional de cada estado chegamos a uma conclusão curiosíssima: quanto mais bandidos estão trancafiados, menores os índices de criminalidade.

      http://portal.mj.gov.br/main.asp?View=D574E9CE-3C7D-437A-A5B6-22166AD2E896&BrowserType=IE&LangID=pt-br&params=itemID%3DC37B2AE9-4C68-4006-8B16-24D28407509C%3B&UIPartUID=2868BA3C-1C72-4347-BE11-A26F70F4CB26

      • caramelo diz:

        gandavo, não dar um tiro tem uma importância “estética” fundamental, não dar muitos tiros, que era o que aconteceria se a tropa lá tivesse entrado de surpresa, mais importância estética tem. Não sei se está a ver a cena que seria. Tem o google earth para ver o território e avaliar dos problemas operacionais e dos riscos que correria a população e os policias. Portanto, avisa-se antes que se vai entrar com as forças armadas, incluindo a marinha se for preciso, e dá-se oportunidade para que os traficantes pensem se devem ficar para a festa. Por acaso, até foram presos bastantes e não só pé de chinelo, como deve saber.
        E a intenção nunca foi acabar com o tráfico; isso foi assumido pelas próprias autoridades (uma entrevista com o prefeito ou com o secretário de segurança, não me lembro). Em Nova Iorque o tráfico manteve-se depois da limpeza das ruas: mudou-se para os apartamentos e provavelmente aumentou. A estrutura reorganiza-se de outra forma. O objectivo da operação é assegurar a segurança das pessoas, melhor qualidade de vida e a soberania sobre o território; quem quiser drogar-se, pode continuar à vontade,não há ilusões, faz-se o que se pode. Quanto aos jogos olimpicos e mundial de futebol, acho bastante razoável que as autoridades queiram a cidade limpa, porque é um investimento rentável, e isso parece que está a ser feito com cabeça, com as habituais derrapagens, etc, etc. O grande Reinaldo discorda, é claro. Filipe diz lá qualquer coisa, se estiveres para ai virado.

      • fnvv diz:

        Direi, direi, mas mais tarde: o Brasil , ou melhor, alguns Brasis, estão perdidos: por cada favela abaixo, outra se levantará . A atlantização da coca , que já assinalei há 5 ou 6 anos ( na altura da conexão entre Fernadinho Beira_Mar e as FARC) está a fazer miséria.

      • caramelo diz:

        A coisa parece que está a fazer miséria em estados do nordeste, Alagoas, etc, onde a criminalidade disparou. Explica então tu depois.

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