As palavras e as coisas

Um dos factores de perturbação do actual momento político, e não dos menores, é a desordem que vai na cabeça do Primero-Ministro. O problema não está apenas no relativo vazio que aí impera: está em que, quando lá entra um móvel novo, Passos não sabe como arrumá-lo.
Por isso, sempre que se pronuncia sobre algum tema importante, ninguém sabe ao certo o que quer dizer. E passam-se dias ou semanas a discutir o sentido das suas palavras, no audaz pressuposto de que tais palavras tenham um sentido, um propósito, talvez mesmo um pensamento, algo mais do que a primeira coisa a ocorrer-lhe à frente dos microfones.
Aconteceu com a defunta refundação do Estado, voltou a acontecer com a opereta em dois actos sobre o eventual fim da gratuitidade do ensino obrigatório. Matéria constitucional, note-se. Um pormenor.
Preparem-se, pois, para gastar o vosso fim-de-semana na hermenêutica da mística passista, ou da mista passística, ou no que ele realmente quis dizer e não disse, ou talvez tenha dito, ou não me perguntem que só vi o telejornal ontem à noite e também me pergunto se ele disse mesmo aquilo que todos ouvimos, enquanto o mundo tal como o conhecemos se desmorona aos bocadinhos.
Aliás, começo a acreditar que o homem é muito mais inteligente do que parece. Enquanto autopsiamos o que diz, nem reparamos no que anda a fazer.

PP

7 thoughts on “As palavras e as coisas

  1. Filipe diz:

    Muito bem visto – e escrito.

  2. fnvv diz:

    Ó Pedro: lembras-te quando actuais assessores e ex-jornalistas/bloggers gozavam com os tradutores de MFL?
    O tempo, esse grande escultor como me dizia a Marguerite…

  3. João. diz:

    Não sei. Há também a chamada mascarada histérica, quer dizer, uma máscara cuja função é dar a entender que há alguma coisa para além da máscara, enfim, uma máscara que não se esconde mas que é explícita enquanto máscara para suscitar o desejo pelo que está além dela quando, ao fim ao cabo, além da máscara não está mais do que a própria máscara que sugere um além da máscara. Esta poderá ser a inteligêcia de Passos, enfim uma máscara que sugere que mascara uma inteligência que nós não entendemos bem – a máscara de uma máscara, digamos.

  4. p D s diz:

    Lia o seu post sobre “AS PALAVRAS E AS COISAS” … e concordando com o que escreve…só me vinha á cabeça, as ultimas declaraçoes do PR.

    particularmente aquele trecho tipo “quebra-linguas” onde uma “Entidade” afirmou:

    “Srs Jornalistas, quero dizer-lhes, que se lhes perguntarem se eu disse alguma coisa, digam apenas que eu disse que não tinha dito nada…”

    ou qqr coisa mais ou menos assim.

    Eu bem que penei no decimo ano a tentar partir as decassilabas do Camões e a decifrar o linguajar Gil Vicente…

    mas á vista do que nos é presenteado hoje em dia, acho que até os Lusiadas escritos em alemão, seriam mais decifravéis e explicito, que as cominucações dos nossos não grandes, mas antes “ENOOORRRRMEEESSS” lideres.

    (esta é a verdadeira sina, miseravel, a que estamos condenados… – pelo menos por enquanto )

  5. Jose Eduardo Martins diz:

    Pelo menos há quem comece a perceber… Nunca foi diferente. A diferença é só
    que deixou de ser inofensivo.

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