Ricochete

Uma greve é uma relação de poder na qual cada parte joga os atributos que tem. O resultado depende da natureza dos atributos, mas também de outros factores ( o tempo, o contexto, a margem de incerteza  etc)como em qualquer relação de poder . Se um milionário tiver uma inundação, a meio da noite, numa cave cheia de quadros  e os dez primeiros canalizadores  não puderem fazer o serviço, o décimo primeiro, às quatro da manhã, pode cobrar 1 milhão de euros. O milionário torce-se todo, mas depois faz as contas:  500 milhões em quadros destruídos ou um milhão para os salvar ?

Os estivadores calcularam mal os danos  inflingidos ao empregador ( aquilo não é a função pública ), quando quiseram pressionar uma terceira parte ( o governo).  Os  rapazes da CGTP andam a estudar pouco.  Resultado: os estivadores  recuaram.

FNV

36 thoughts on “Ricochete

  1. João. diz:

    Convém esclarecer que o sindicato dos estivadores não pertence à CGTP.

      • João. diz:

        Filipe, acho que o texto que cita não suporta a sua tese. A sugestão, em última análise, é que há uma ligação secreta entre esse sindicato da estiva e a CGTP mas eu não vejo porque razão a ligação seria secreta e não explícita. O que há, a meu ver, é uma solidariedade de classe, se quisermos usar expressões clássicas, da CGTP com um sindicato em luta mas isto ocorreria também se o sindicato em luta fosse da UGT. O que a CGTP de facto não faz é criticar publicamente lutas sindicais, isso é um serviço mais a cargo da UGT.

      • fnvv diz:

        bem, podemos fazer as flores quequisermos, mas isso nem é relevante para o caso: alguém pensou e analisou mal.

      • João. diz:

        Não sei. Talvez. Podemos também estar perante uma preparação para um acordo em que é lançado da parte dos operadores um meio de aparecer como não cedendo directamente aos estivadores. Julgo que se perceberá melhor lá mais para a frente.

      • «O que a CGTP de facto não faz é criticar publicamente lutas sindicais, isso é um serviço mais a cargo da UGT.»

        Pois, isso a CGTP não faz: é feio, parece mal; é preferível deixar para a UGT o papel de puta do regime — e a UGT é-o. Mas, pela calada, é capaz de fazer algumas coisas. Por exemplo, é capaz de ajudar uma empresa a criar um sindicato com o objectivo de diminuir o poder negocial do sindicato independente onde boa parte dos trabalhadores dessa empresa já se encontram. «Solidariedade de classe?» Eheheh…

      • fnvv diz:

        Isso parece refeência a um caso concreto: não é?

      • João. diz:

        Não deve ser assim tanto pela calada, uma vez que o Carlos até sabe do assunto. Que não apresente provas disso nos termos em que aqui o faz, que não apresente um caso onde isso se deu ou menos que uma prova uma notícia de um jornal qualquer onde sequer se tenha posto essa suspeita, e nesses termos, deve ser porque não é preciso e que basta o Carlos dizê-lo para ser verdade.

        E embora um caso não fassa um método, se me apresentar ao menos um caso onde isso aconteceu até agradecia – tem concerteza interesse histórico e político.

        E depois seria importante considerar a vontade dos trabalhadores – a decisão deles de se filiarem na CGTP em vez de noutro sindicato. Embora eu saiba que para muitos, os trabalhadores sindicalizados são todos ovelhas mansas que não pensam por si e que são telecomandados pelo PCP. Só os demais é que são independentes e decidem por si.

        A CGTP e o PCP servem para tudo e o seu contrário; para assumir a responsabilidade toda de uma decisão de sindicatos independentes (como é também o caso dos maquinistas) ou para ser contra os sindicatos independentes. Começo a pensar que os comunistas têm propriedades mágicas.

      • João. diz:

        leia-se “não faça” (não sei onde fui buscar o ” não fassa” – peço desculpa)

      • A minha prova, neste contexto, é a minha palavra: o João acredita ou não acredita. Em todo o caso, não acuso a CGTP de um crime. Limito-me a não acreditar, com conhecimento de causa, em ideias românticas sobre a «solidariedade de classe», porque isso seria ignorar a luta pelo poder dentro de uma «classe». Mas reconheço a necessidade da existência de sindicatos, e ainda mais reconheço a importância histórica destes.

        Qunato aos trabalhadores sindicalizados serem ou não ovelhas, sucede exactamente o mesmo que sucede com os não sindicalizados. Há os que se vendem por um prémio de desempenho, mas também os que arriscam o emprego por não abdicarem da sua dignidade. Ou seja: sindicalizados ou não, há sobretudo pessoas que fazem opções.

        Quanto ao PCP, tem mesmo propriedades mágicas: http://thecatscats.blogspot.pt/2011/06/o-meu-voto-2-votarei-em-branco-ou-na.html.

      • João. diz:

        Em teoria, porque não sei se o Carlos tem provas, é preciso distinguir duas coisas:

        uma coisa, portanto, é que Sindicatos lutem entre si pelo que julguem ser a melhor representação dos trabalhadores, aliás a oposição CGTP/ UGT é fundamentalmente esta.

        Outra coisa, no entanto, é a tese do Carlos, que a CGTP, no caso cuja suspeita você deixa, tomou o lugar dos interesses da empresa contra as reivindicações do sindicato independente.

        É assim que eu interpretro o seguinte: “Por exemplo, é capaz de ajudar uma empresa a criar um sindicato com o objectivo de diminuir o poder negocial do sindicato independente (…)”

        Isto em termos sindicais é uma acusação muito grave, enfim, diz que a CGTP toma o lugar dos interesses da empresa contra os trabalhadores. Nunca tinha visto esta acusação antes.

        Aliás o circulo completa-se, de um lado, do Luis Marques, temos a acusação da CGTP destruir empresas – em nome do interesse dos trabalhadores contra os interesses das empresas;

        e de outro lado, do Carlos Azevedo, a acusação da CGTP de destruir organizações de trabalhadores – em representação do interesse das empresas contra o interesse dos trabalhadores.

        Enfim…o que dizer?

      • João. diz:

        Carlos, eu acredito na luta pelo poder entre sindicatos rivais – basta ver a relação CGTP/UGT. Você, no entanto, sugeriu que a CGTP numa negociação de uma empresa com um sindicato independente se aliou à empresa para reforçar a posição negocial desta contra os trabalhadores.

        Desculpe mas isto, nestes termos, é difícil de acreditar. Não sei que empresa ia preferir a CGTP a um sindicato independente e não sei como é que uma atitude dessas por parte da CGTP ia convencer os trabalhadores a sair do sindicato independente e a ir para o da CGTP.

        Depois, não criticar publicamente um sindicato em luta conta muito.

      • 1. Quando eu escrevi «(…) é capaz de ajudar uma empresa a criar um sindicato com o objectivo de diminuir o poder negocial do sindicato independente (…)», referia-me ao objectivo da empresa, não da CGTP.
        2. O que eu afirmo é que a CGTP tomou em primeiro lugar os seus interesses (neste caso, coincidiam com os de uma empresa), que podem coincidir parcialmente com os de uma empresa e colidir com os de um determinado grupo de trabalhadores (até acredito que a CGTP não o faça com gosto, mas será aquilo muita vezes se designa com algum cinismo por danos laterais).
        3. Eu não completo nenhum círculo com Luís Marques Mendes (considero-me de esquerda, mas de uma esquerda, digamos assim, pouco alinhada).
        4. Evidentemente, se uma empresa tiver que lidar com um sindicato independente muito forte, é preferível que os trabalhadores adiram a um outro sindicato (pelo menos, os novos trabalhadores), seja ele afecto à CGTP ou não.
        5. O João acha difícil acreditar em quê? Que uma empresa prefira a CGTP? Duvida que uma empresa prefira lidar com uma organização enquadrada no sistema (ainda que ocupe o papel de oposição dentro desse sistema) a lidar com uma organização independente (e menos controlável)? Eu não.
        6. Naturalmente, o João defende a sua dama. Se se tratasse de uma preocupação com a (in)justiça (por causa das minhas «acusações graves»), pedir-me-ia para justificar o porquê de apelidar a UGT de «puta do regime»; contudo, isso não o incomodou.

        Bom 2013 para si, João.

      • João. diz:

        Ok Carlos. Compreendo melhor agora. Apesar de não ter parecido eu não gosto de duvidar da palavra de uma pessoa, no caso da sua, quando ela é posta em cima da mesa. Posso aceitar mais facilmente estes termos em que você coloca a questão. Ou seja, não digo que a CGTP seja uma organização de santos e portanto que deixe de aproveitar oportunidades que apareçam para reforçar a sua posição mesmo contra outros sindicatos. A meu ver, não sendo isento nem imparcial, já que não acredito na isenção e na imparcialidade, é mesmo obrigação da CGTP aproveitar essas oportunidades.

        Cumprimentos e votos de um bom ano também para si.

      • João. diz:

        E ainda Carlos, acusar os comunistas de sabotagem é uma acusação muito comum em Portugal mesmo nos dias que correm. É um expediente muito à mão e sempre suficientemente popular para chutar para canto fracassos de organizações e partidos políticos não-comunistas. Daqui também as reservas que manifestei.

      • Acredito que sim, João, mas eu não tenho por hábito recorrer a esse tipo de argumentação. Para justificar os fracassos e o estado dos partidos políticos não-comunistas basta (e sobra) o que têm dentro de casa.

  2. henedina diz:

    “aquilo não é a função pública…” francamente.

    • fnvv diz:

      no sentido do texto e da teoria ( e da prática) Por ex: se médicos e enfermeiros fizerem greve num hospital durante um mês, a pressão é exercida directamente sobre o adversário ( o Estado, que terá de aguentar a ira popular)

  3. Luís Marques diz:

    Aconteceu o mesmo na Opel da Azambuja, a CGTP rebentou com a empresa.

    • João. diz:

      Mentira.

      A Opel da Azambuja foi para Saragoça em Espanha onde, inclusive, os salários dos operários são mais elevados. O que acontece é que neste país as sumidades que governam concentram toda a competitividade na precarização do trabalho e não ligam nenhuma para os custos ditos de contexto nem para a agilização tecnológica das infraestruturas (e para perpetuar esta azelhice nunca falta quem venha culpar os sindicatos e os trabalhadores).

      • fnvv diz:

        “O que acontece é que neste país as sumidades que governam concentram toda a competitividade na precarização do trabalho ”
        Também mentira:
        Não é assim na AutoEuropa nem na Renault de Cacia.

      • João. diz:

        Se você acha que esses exemplos negam a minha posição, que em portugal o problema da competitividade são os salários então força nisso – o Borges, o Gaspar e o Passos (e talvez a Jonet) estão consigo.

      • fnvv diz:

        O que os meus exemplos ( e há muitos mais) negam é que isto :
        “O que acontece é que neste país as sumidades que governam concentram toda a competitividade na precarização do trabalho ”
        seja sempre assim.
        Não me impressiono com essas colagens, mas só me interessam discussões quando o interlocutor não confunde o género humano com o Manuel Germano.

      • João. diz:

        Ok. Para ser mais rigoroso vou usar uma outra imagem. Se uma empresa sai de Portugal para o Vietnam (já não digo a China porque por este andar vai deixar de ser verdade) podemos presumir com alguma segurança que os custos do trabalho foram um factor dos mais preponderantes; agora eu penso que atribuir aos custos do trabalho uma mudança de Portugal para Espanha simplesmente não colhe. A Opel, volto a dizer, deslocou a sua produção da Azambuja para Saragoça: você acha que em Espanha as exigências salariais dos operários são menores que em Portugal?

        Porém, é claro, se o caso for fazer de Portugal um Vietnam da Europa, então tudo bem, coloquemos a responsabilidade sobre os salários e os sindicatos por não estarmos a conseguir cumprir o nosso destino…

      • fnvv diz:

        Claro que não acho. Isso revela a pontualidade da matriz negocial. Muitos doentes da clínica, que tenho de ver mesmo que não seja em psicoterpai, o que me dá um panorama alargardíssimo e bem interessante ( e que conpensa o desvio profissional) trabalham em multinacionais em que sentem valorizadso e bem tratados. Os que mais são lixados/explorados até são os de pequenas empresas que nem são deslocalizadas: são pura e simplesmente fechadas por ganância e /ou incompetência dos patrões.

  4. é chato diz:

    na maioria das greves os mais atingidos costumam ser os restantes trabalhadores sem os meios dos patrões para se desenrascarem(transportes,saúde…).Mas está bem,a revolução a tal obriga e parece que desde o séc. XIX não se descobriu outro caminho.Talvez esta dos estivadores não sacrifique outros trabalhadores,só os patrões,sendo um avanço na conquista do poder pela vanguarda do proletariado que instaurará a ditadura do mesmo e

  5. Luís Marques diz:

    Quem se informasse sabia que à data a GM estava falida e procurava “reorganizar” o seu negócio, quer dizer fechar fábricas. Que organizou a CGTP? Greves. A propósito disso ouvi do ministro Pinho, o dos cornos, a única frase correcta da sua carreira, que a Opel estava abrandar com o fogo. Voilá.

  6. Luís Marques diz:

    Perdão, queria dizer brincar com o fogo, damned iPad.

  7. caramelo diz:

    A relação de poder é mais vasta do que isso e os “danos” serão sobretudo para o movimento sindical, (se se confirmar a derrota dos trabalhadores e não uma simples manobra para os operadores não perderem a face, na hipótese avançada pelo João). Uma das consequências da precarização, e essa é mesmo uma vantagem competitiva apresentada pelo governo, é o fim dos conflitos laborais, a paz social. Mesmo na função pública, quando se acabarem de vez os tais “direitos adquiridos” e se acelerar a contratação a prazo e os recibos verdes (parece que tiveram agora uma operação cosmética), isso vai acontecer, ou antes, vai acontecer ainda mais. A saúde é um caso particular, enquanto a procura de mão de obra superar a oferta. Mas com isto tudo, raramente se tem discutido as razões dos estivadores, o que também é um sintoma um bocado triste.

    • fnvv diz:

      Foi a primeira coisa que discuti , ainda isto não estava ao lume. Até fui ao Blasfémias explicar o que estva em causa ( de um modo geral,a substituição de trabalho especializado por trabalho desqualificado e temporário, mas nem sempre, porque para servir bifanas não deve ser necessário ser estivador), bastava ler e usar a net.
      Mas sim, também de um modo geral, as pessoa parecem ter preguiça em usar a net para estudar.

  8. caramelo diz:

    Isso das rivalidades e divisões entre sindicatos, até da mesma classe profissional, e boicotes e a alma ao diabo, etc é tão velho como o sindicalismo, porrada e tudo. Mas engraçado mesmo é essa de o patrão criar um sindicato para os seus trabalhadores, como se criasse um centro de convívio para a malta, ainda por cima com a assessoria de uma central sindical. Isto tem alguma coisa a ver com a profecia dos maias, mas a coisa vai-se finando devagarinho…

    Já agora, a desvantagem dos sindicatos independentes é que frequentemente, pela sua mais reduzida dimensão, não conseguem dar tão boa resposta aos interesses dos trabalhadores, a nível técnico, apoio financeiro, quando é preciso, capacidade de pressão e negociação, etc. Depende.

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