Vida de cão

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Diz o Público que já circula uma petição para salvar do abate o “Zico”, célebre cão que matou uma criança de ano e meio em Beja. Os 15 mil subscritores acreditam que o Zico “merece uma segunda oportunidade”, embora não digam para quê. Mais: “um cão que nunca fez mal durante oito anos e atacou é porque teve algum motivo”.
Estou de acordo, todos os cães merecem uma segunda oportunidade. Se até o Sócrates, um “animal feroz”, teve segunda maioria para dar cabo do país, como negar ao pobre pitbull o direito de desfazer o crânio a quem lhe cai em cima? Só respeitando os direitos caninos, especialmente o de mastigar crianças, construiremos uma sociedade humana.
Aliás, anda tudo preocupado com a igualdade de oportunidades, e o Estado social, e os pobrezinhos, e essas coisas. E a dualidade de oportunidades dos “Zicos espalhados pelo país”? Quem é que se preocupa com isso, hã?
O Zico nunca fez mal nenhum em oito anos – e conheço muitos putos que fazem bué da mal em ano e meio, sobretudo em Beja. O Zico vem de uma família desestruturada: a mãe era uma cadela e o paia tratava-o como um cão. O Zico é arraçado e sofreu no pêlo o sentimento de exclusão de quem nasce de uma união inter-racial. O Zico cresceu entre dois mundos-cão, sem saber quem era, sem identidade, sem narrativa integradora. Foi uma sorte não ter acabado na Al-Cãoeda. O Zico nunca teve os direitos adquiridos de qualquer labrador da Lapa. Nunca ninguém lhe cantou o “Atirei o pau ao gato”, com amor e Pedigree Pall. O Zico estava num quarto escuro que lembra a caverna de Platão.
Não o devemos julgar, devemos julgar as estruturas de opressão que o levaram a revoltar-se. Sim, “há que investigar o que causou a reacção do cão”. Nada de preconceitos antropocêntricos sobre raças perigosas. Até porque o Zico é só meio pitbull. A culpa é do colonialismo. Investigue-se, pois. Proponho uma comissão parlamentar. Camarate e o BPN já eram.
E temos que “optar pela reabilitação/treino do cão!”, sem dúvida e com ponto de exclamação. O ponto de exclamação é um argumento forte. No fundo, como dizia o Padre Américo, não há pitbulls maus. Basta tirá-los da rua, ou do quarto escuro, e pô-los na Casa Pia para que se tornem bons. Mas primeiro mandem embora os miúdos. São uns monstros. Vejam lá que até tropeçam em cães…

PP

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11 thoughts on “Vida de cão

  1. caramelo diz:

    Pedro, o abate de um animal não se justifica como castigo, mas sim com a sua eventual periculosidade (na idade média é que se enforcavam gatos por bruxaria). Não lhes são aplicáveis os valores da culpa e da inocência do sistema penal. Portanto, não estamos a falar do Sócrates. A malta da petição quer salvar um ser vivo, só isso. Se é ou não possível, respeita a questões técnicas que me ultrapassam. De qualquer forma, conheço quem dedique o seu tempo a recolher animais abandonados, mesmo os ditos perigosos.

  2. João. diz:

    Eu já acho que um cão nasce bom ou mau conforme é filho de Deus ou do Diábo; não há cá tretas de influência do meio, da educação, etc. Aliás, essas ideias são claramente ideias do diabo para proteger os seus filhos.

  3. henedina diz:

    Pedro tive um pensamento à homem. Não concordo com o conteudo mas o envolucro está muito giro.

  4. ppicoito diz:

    Posso dizer que o seu comentário à homem é de homem?

  5. António diz:

    oferece-se o cõo a um dos assinantes, que mostre ter condiçoes para o manter (casota, coleira e focinheira) e fica resolvido.

  6. ppicoito diz:

    hum, algo me diz que os garbosos defensores dos animais não vão querer um pitbull em casa.

  7. Antonio Almeida diz:

    Pedro, a Laica e o Snoopy eram cães, os Pitbulls são cyborgs caninos.

    • Cheira-me que as petições e as contra-petições pouco têm que ver com o cão. E a ironia do post, trabalhando sobre esse implícito, acaba por se inscrever no mesmo registo. Muito gostava de comparar as opiniões dos subscritores das duas petições com as respectivas ideias sobre a pena de morte, justo castigo, etc. Ainda se há-de exigir a forca para as arribas que despencam: upstart Passions catch the Government / From Reason, and to servitude reduce / Man till then free, etc.

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