Duas boas biografias, só uma boa biografia

Colecciono memorabilia: memórias, correspondências e biografias. Nos escritores, prefiro as correspondências, nos estadistas, as memórias, nos políticos,  as biografias.  Este ano  a safra  foi boa. Entre outras, As Memórias do Duque de Palmela, com uma edição notável de Maria de Fátima  Bonifácio ( já dei conta noutras paragens) e de Estaline, mais focada na corte do Czar Vermelho, de Simon Montefiore. A correspondência de Jorge de Sena com Delfim Santos ( 1943-1959) soube  a ginjas.

Falemos de duas que ilustram o problema da biografia. A de Marcelo Rebelo de Sousa, de Vítor Matos, e a do Cardeal  Cerejeira, de Irene Pimentel ( que está na blogosfera aqui). Esta já tem uns anos mas só a li agora. Cumpre todas as  regras da boa biografia: equlíbrio entre o lado pessoal e o papel social do biografado, escrita impecável, contextualização permanente, visão crítica do alvo. Some-se o interesse do personagem e da época e temos o tempo dado por muito bem empregue.

A de Marcelo rebelo de Sousa também está bem escrita, embora num estilo mais jornalístico : equlíbrio, contextualização,  distanciamento crítico. Surge, no entanto, um pequeno problema: a biografia  , espremida, é uma colecção de anedotas ( algumas deliciosas), intrigas, reuniões. Serve para nos recordarmos que  o PSD é uma confederação de ambiciosos e de representantes de guildas regionais e para reavivarmos a memória com casos como o Totonegócio ( não me lembrava que António Lobo Xavier tinha sido favorável a essa negociata tão tipicamente socialista). E pouco mais.

Ou seja, uma biografia , para ser boa, para além de cumprir as regras, necessita de uma  coisa essencial: de um biografado com corpo, cor e aroma.

FNV

18 thoughts on “Duas boas biografias, só uma boa biografia

  1. XisPto diz:

    Não o devia fazer sem ler, mas aí vai: de um biografado com corpo, cor e aroma, e citando MM Carrilho, que não seja gelatina política.

  2. Bitaites diz:

    Aliás, o ALX até foi durante tempo (não sei se ainda é) vice-presidente do FCP. Agora é senador e perora sobre austeridade. E não tem conflito de interesses.

  3. manuel.m diz:

    Leia também “Jerusalem” de Simon Sebag Montefiore . Uma “biografia” da cidade indispensável para compreender o mundo de hoje.

  4. jcd diz:

    Caro Filipe,
    Gostei do seu comentário às biografias e percebi a sua reserva em relação à de Marcelo Rebelo de Sousa. Numa teimosia que já nem entendo, ouço, quando posso, MRS ao Domingo. Quase sempre me irrita, quase sempre fico sem perceber realmente onde é que ele está, o que é que realmente pensa (se é que pensa, ou se se limita a deixar-se levar pelas circunstâncias), e sem perceber porque é que se ouve (eu incluída, embora algumas pessoas o façam com reverência) alguém com um discurso tão fluido, pedagógico e aparentemente tão claro cheio de cenários que lhe saltam da imaginação, mas de facto tão redondo e opaco. Assim como quem quer ter a certeza de que todas as portas de oportunidade se mantém abertas. Este Domingo foi mau demais, com a sua teoria de que tudo corre bem ‘no exterior’, mas mal ‘no interior’, e a sua constante mania de que a ‘comunicação’ do governo é má, (já dizia isto com Sócrates)Também me perguntei, mais uma vez, se por trás dessas prelecções há “corpo, cor e aroma” (palavras suas, eu usaria outras mais prosaicas).
    Joana

    • fnvv diz:

      Bienvenida, Joana,

      No espectaculo da análise MRS é bom. Como jurista será decerto brilhante. A biografia política é o que eu disse ( do meu ponto de vista, óbvio) porque , de facto, não há mais nada.

      beijos
      Filipe

  5. Jorg diz:

    Li a de Steve Jobs, de Isaacson. Mais ‘mainstream’, de aeroporto…
    Mas é uma sintese estupenda, dentro daquele elencar anglo-saxónico, que por ser americana, se subtrai a riqueza do mais britânico ‘understatement’. É bem alinhavada com as ‘anedoctes’ de Silicon Valley, e com os altos e baixos da carreira de Steve Jobs. É contaminada, em muitos relatos dos “achievements”, pelo ‘hype’ da Apple, osso do marketing/imagem da empresa dos Gadgets. Mas tal era, porventura inevitável, pois de outro modo, tinhamos um elogio da comida feito em função dos méritos dos utensilios de cozinha e do fogão ou forno. Notável os contrastes entre o Zen e o feitio feito de iras e desancas com as pessoas com quem trabalhava ou colaborava. E o mérito de não nos falar de um pre-destinado, mas de um obstinado. Principalmente no detalhe – uma das passagens mais sensiveis revela que o pai (adoptivo) ao pintar a cerca do jardim de casa, curava muito as partes anteriores, não visiveis da rua
    “He loved doing things right,” (…) “He even cared about the look of the parts you couldn’t see.”. Fazer o que estava certo – pois, ajuda a perceber alguma coisa.. Mesmo num quadro de imaginário americano referente a um ‘whizzkid’.

  6. Para um “especialista”, alguém que conheça e estude a história de Portugal desde a implantação da República até ao PREC, a biografia do cardeal Cerejeira de Irene Pimentel é absolutamente inútil. E nem sequer está bem escrita. Mas isso é um detalhe para quem à procure de uma ideia ou um encadeamento de factos minimamente originais e sólidos na interpretação. A do Marcelo Rebelo de Sousa não li. Mas posso acrescentar que uma boa biografia deve mais ao biógrafo do que ao biografado. E no caso de Marcelo Rebelo de Sousa que cita é bem capaz de ser o caso. A Corte do Czar Vermelho é excelente. Mas é coisa de outra galáxia. Com os editores e as editoras que temos nunca nenhum português chegará aos pés de uma grande biografia escrita para lá do Canal da Mancha,

    • fnvv diz:

      Pois, não sou um especialista mas tenho um razoável acervo desse período ( sobretudo do Estado Novo) e achei o trabalho de Irene Pimentel muito bom. Sou só um mero ensaísta e escritor iniciado, mas acho a escrita dela limpa , formalmente canónica e adequada ao terreno.
      Também discordo que o biºogrfao seja mais importante do qu eo biografado. Martin Gilbert a escrever a biografia de Miguel Relvas era capaz de aborrecer.
      Anglo-saxónico must? Em regra ( muito bom o End Ganme, a do Bobby Fischer, do ano passado), sim, mas com muitas excepções. Este ano li a de Henrique Galvão, de F.Teixeira da Mota e gostei, No ano passado li a de Serrano Suner, de Ignacio Merino ( já tem uns anos) e gostei.
      Mas não sou um especialista, porque me divido entre memórias, autobiografias e correspondências, por isso isto é só uma opinião como outras.

      • Joachim Fest escreveu a melhor biografia de Hitler. É a minha opinião e de muita gente que se entretém a ler livros sobre a vida do cabo bávaro-austríaco. Fest, como se sabe, não era, não foi, britânico. Mas enfim, se é preciso explicar tudo, eu explico. Quanto à biografia do Cardeal Cerejeira em apreço, gostaria de saber no que é que a dita modificou a visão que existia sobre o mais importante homem da igreja do século XX português. O que é que ela nos diz, que já não soubéssemos, sobre a relação entre a Igreja Portuguesa e/ou o Vaticano com a vida política portuguesa pós-1919? Nada. Ainda assim é possível gostar? É! Como eu gostei muito da biografia de Franco escrita por Paul Preston, apesar dos erros, da cegueira ideológica do autor ou da ausência total originalidade fruto de trabalho de investigação feita pelo biógrafo. Mas estava bem escrita e saiu numa altura em que a curiosidade sobre Franco era grande. Em Espanha e no mundo que fala e lê inglês. E acredite que a vida de Relvas dava uma biografia muito interessante (tanto para perceber o biografado como a sociedade que o pariu). Haja fontes e talento de biógrafo.

      • fnvv diz:

        “Mas enfim, se é preciso explicar tudo, eu explico”
        Faz bem. E quando não concordarem consigo, explique tudo outra vez, cheio de paciência, devagarinho,soletrando.

  7. XisPto diz:

    Para quem gosta do blue eyes, recomendo uns parágrafos antes de cada faixa. Foi por essa promoção diária pelo grande José Duarte que comprei a sua biografia não autorizada, por Kitty Kelley. Uma relação complicada com as mulheres, incluindo a mãe. E há sempre o suspense sobre se a cena da cabeça do cavalo é verdadeira…

  8. Caro Filipe Nunes Vicente, é muito agradável saber que leu a minha biografia do Cardeal Cerejeira e que gostou. Além disso teve a generosidade de a comentar. Muito obrigada.

  9. caramelo diz:

    Eu li recentemente a do Sampaio (enfim, fui lendo coisas no continente). O biografado não será tão interessante como outros, mas as biografias servem também como retrato de uma época, e essa parece-me cumprir, parece-me, pelo pouco que li. O VPV diz que a nossa história não vale um caracol, mas é o que temos. Os americanos devem ter várias biografias por cada presidente, do mais inútil ao Lincoln, e em todos estará uma parte da biografia da nação. É uma mania boa que os americanos têm, a das biografias. A do Stalin (da sua corte) é mesmo coisa de outra galáxia, como diz o Fernando Martins, mas, mais do que talento, deve estar ali um trabalho de anos, com um acesso a fontes que não é para todos. É isso que nos falta.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: