Citação de um comentário ao meu post anterior.

Isto está a ficar estranho e ainda mais estranho fica por haver quem se preste a defender isto. Se me é ainda permitido ter voz nisto, eu não quero viver num país em que os jornalistas ficam impedidos de divulgar o que ouvem numa reunião onde se discute o futuro do meu país. Quem acha que os jornalistas deturpam, façam um jornal onde retratem de forma fiel o que se passa. É muito raro ler, num país ocidental, que os jornalistas devem ficar impedidos de divulgar o que ouvem, porque não são de confiança, e que se aceite como normal que os jornalistas sejam agentes de comunicação do governo, divulgando peças condensadas escolhidas pelos seus assessores de comunicação e em que precisam de autorização de um participante para o citarem. Espero não ler isto muitas vezes.
A discussão é livre e pode ser feita nos cafés, nos salões de hotel, nos gabinetes de ministros, etc, e é natural e muito visto que as portas se fechem aos jornalistas em reuniões formais e informais. Isto é que é uma coisa inteiramente nova. Quem aqui invoca a Chatam House Rule não a leu. As regras apenas limitam os seus próprios participantes, garantindo-lhes ao mesmo tempo que os disparates que possam dizer não passem para fora. Nunca passou obviamente pela cabeça dos seus redatores que a lei servisse como limitação à liberdade de imprensa. A Inglaterra não é o uzbequistão. Portugal, já não sei. O Pior é que há quem goste.

Gostam, gostam. A tragédia é essa.

Luis M. Jorge

12 thoughts on “Citação de um comentário ao meu post anterior.

  1. caramelo diz:

    Isto sim, é ter voz. Gracias, Luis Jorge.

  2. henedina diz:

    Morreu Oshima.

  3. henedina diz:

    Agora li o post. Há quem goste mas discordo de si não é essa a tragédia, a tragédia é que acham isso natural, nem chegam a ter emoção.

  4. Vasco Gama diz:

    Não me parece que os direitos dos jornalistas tenham sido assim tão atingidos, parece-me que não podem é efectuar gravações (ou reproduzir o que foi dito, sem autorização de quem disse), de resto podem divulgar e opinar como entendem (isto é uma medida sanitária, os jornalistas vivem das notícias que dão e do espectáculo que eles próprios criam, eu não acho mal, sempre se evita que os intervenientes estejam focados em impressionar a opinão pública, como tanto gostam, em vez de contribuirem para a resolução).
    Eu não tenho muita confiança nem nos jornalistas, nem nos politicos (estão em níveis muito semelhantes) e não estamos assim tão necessitados de espectáculos.
    Bom, mas talvez fosse divertido organizar o evento, junto à assembleia da república, na escadaria, colocando os intervenientes do evento, rodeados de jornalistas a gravar e filmar, que estariam depois rodeados per polícias (armados de escudos e bastões), que estariam depois rodeados de exímios apedrejadores, rodeados por colaboradores que lhes dariam as pedras da calçada, rodeadados depois por mirones que ora aplaudiam ora vaiavam, rodeados pelos moradores (locais), rodeados por alfacinhas de gema, rodeados pelos saloios dos arredores, rodeados pela restante população, isso é que era lindo de se ver.

  5. balde-de-cal diz:

    a nossa periferia é cultural e cívica.

    só temos jornalismo de merda. não aparece uma informação.
    os políticos são da família

  6. manuel.m diz:

    Ao aplicar-se a Chatham House Rule a determinada reunião, pretende-se encorajar os participantes a falar livremente sem haver o constrangimento de se vir a saber o que se disse e quem o disse .
    Quem tem o poder decisório pode alargar o seu conhecimento sobre o assunto em debate e melhora afundamentação da decisão eventualmente a ser tomada, mas em caso algum pode justificar essa opção como sendo devida a posições tomadas por participantes em encontros realizados sob a referida regra ,ou seja em opiniões anónimas . Um Governo só será tido como idoneo se genuínamente não tiver tomado ,nem mesmo parcialmente , nenhuma decisão anterior a essa ,ou essas reuniões , que não serão mais do que peças de um debate alargado , público e escrutinável por uma imprensa livre, debate esse que, num regime parlamentar antecede a ida ao Parlamento do Chefe do Governo apresentando a decisão final e onde, aí sim ,todos assumirão as suas responsabilidades perante quem os elegeu .
    A não serem observados estes pressupostos as reuniões havidas não passarão de um mero expediente para carimbar decisões há muito tomadas , de vulgar batota portanto , de uma ignomínia , da mera carnavalização da politica .

  7. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Luís, quem “debate” no salão nobre do Palácio Foz a “Reforma do Estado” é uma legião de notáveis “reformados do Estado” que ajudou (e muito…) a pôr este país no “Estado-a-que-chegou”; se não “reformaram” na altura devida e apenas se “reformaram” para melhor continuar o saque, como podem agora arrogar-se o direito de opinar e declinar a “refundação” do dito sem lhes calhar em sorte a indignação geral? Somente a brigada dos “ajudantes-de-ministro” que por lá se assentam, ontem e hoje, pode levar a sério a futilidade do exercício.

  8. caramelo diz:

    Já me espantei mais ontem e hoje do que em dois anos. Eu fui jornalista durante uns anos, poucos, e aprendi aqueles rudimentos básicos do ofício no primeiro dia, o lead, o quando, o quê, onde, quem, etc, e, com o tempo, os off the record, as fontes, etc. o trivial de lineu. Dando por aí uma volta na feira popular, reparei que apareceu uma nova atração: alguns dos nossos liberais, que são tu cá tu lá com o barman do chattam house e outros clubes londrinos seletos com sofás de couro, defendem o seguinte modelo de jornalismo, mais recatado, tipo boletim interno de um gentlemen club:

    “Por especial deferência do senhor ministro, tive o privilégio de assistir ontem a um debate sobre o futuro da nação. Estou em condições de garantir que todos os participantes eram notáveis e deram excelentes contributos. Não sendo de confiança, facto de que me penitencio, foi-me pedido reserva acerca do que foi dito. Um dos peritos, no entanto, o senhor professor doutor Anastácio Rebordão, autorizou-me a citá-lo numa seguinte passagem: “trouxe a minha gabardine, porque está a chover lá fora.”. Em complemento, estou mandatado pelo gabinete de imprensa do ministro, a quem aproveito para agradecer a amabilidade, a informar que, e passo a citar: “amanhã já fará sol.”

    Isto é para a imprensa dita séria e responsável. O Correio da Manhá poderá utilizar a seguinte fórmula, adaptada às circunstâncias:

    “Ai filhos, nem queiram saber o que soube ontem. O canalizador que ontem veio arranjar aqui uns canos, disse-me que viu o miúdo do sexto esquerdo no esfreganço com a galdéria do lado. Houve mais gente aqui do prédio que já me tinha dito que eles andam nesses preparos, mas nem vou revelar quem, que esses pediram-me segredo, porque não querem chatices com o rapaz, que é bruto que nem portas.”

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