A questão geracional (1)

Podemos  supor que três gerações de políticos ( puros ou convertidos a partir da técnica) que moldaram o país depois de 1974 falharam. Três resgates financeiros, um 2013  ao nível do decénio de 90 do  século passado, um bloco central sequestrado pelos aparelhos concelhios  e distritais, uma abstenção crónica nos actos eleitorais, uma justiça permanentemente sob fogo e  reestruturações intermináveis, uma burocracia ainda neoplásica ( como qualquer advogado especializado em direito  administrativo  nos explica).  De um Soares a um Freitas do Amaral, de um Sampaio a um Sócrates,  de um Portas a um Bagão Félix, de um Constâncio a um Barroso: gerações comprometidas.

Os intelectuais orgânicos e os analistas mediáticos  também se comprometeram com o  período. De uma forma ou de outra, benzeram  o fracasso um António Barreto, um Pacheco Pereira, um Balsemão, um Marcelo Rebelo de Sousa, um Louçã. A crítica foi sempre circunstancial, mais ou menos  amarrada às afinidades ou fidelidades pessoais e partidárias. Os media não fugiram à regra. Se nos recordarmos  de que O Independente, apresentado como inovador, serviu sobretudo um projecto político e partidário e que Emídio Rangel se gabava de a SIC vender políticos como sabonetes,  recordamo-nos de tudo.

Não há nenhum drama, nem é invulgar, que uma sociedade precise de se adaptar. A mudança  ocorrida em 1974 foi paralela ao sentido comunitário. Exceptuando  o PCP, ninguém deu o sangue e a vida contra o regime, o país vivendo numa modorra construída com paciência. Tanto assim é que inúmeras formalidades e informalidades se mantiveram depois do PREC: o respeitinho, o horror ao conflito etc.  Depois de dois resgates, veio o dinheiro  da CEE/UE e nada estava estabilizado. A despolitização cavaquista  encontrou  o bando de patos-bravos e fomos andando. Como é natural, chegou a hora de acertar  o passo.

(cont.)

FNV

4 thoughts on “A questão geracional (1)

  1. XisPto diz:

    Na mouche. E nem o presente abanão produz um projecto político novo. Vi ontem no ARTE uma excelente reportagem sobre Cuba actual, o passado e as reformas, que concluía com uma frase do género: uma sociedade exausta que se limita a esperar o futuro. Passe o convencionalismo, não deixa de se nos aplicar também.

  2. É verdade. Mas não é toda. A intervenção do FMI em 1978 sucedeu-se a condições absolutamente extraordinárias do ponto de vista internacional e interno (choque petrolífero, revolução e descolonização); a intervenção de 1983, ao choque petrolífero de 1981 e à crise económica, financeira e monetária internacional subsequente; a intervenção de que estamos a ser vítimas à crise financeira de 2008 e à crise internacional e europeia que gerou: crise política, financeira e económica.

  3. Aguardo a continuação com interesse, Filipe, mas pode explicar a que se referia com «um 2013 ao nível do decénio de 90 do século passado»? Obrigado.

    • fnvv diz:

      se estamos com indicadores de 2002, daqui a a seis meses vamos para os de 90’s, é uma previsão, falível como todas, claro,Carlos.

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