A questão geracional (2)

As gerações  que se formaram ( secundário, universitário, primeiros anos de trabalho não qualificado e qualificado ) em  90 e 00,  são as que estão agora  a receber o maior impacto da transformação social. Exceptuando umas centenas de jotas, são jovens adultos que confiaram nas decisões da classe dirigente. Mesmo os mais interessados, o mais longe que foram foi divertir-se com as diatribes de Santana Lopes nos congresso do PSD, com as notas atribuídas por Marcelo Rebelo de Sousa,  com as peripécias autárquicas (por ex.,  o episódio  do wc de Carrilho). Podemos supor que a emigração e a desqualificação profissional ( um professor a guiar um táxi) serão as principais  respostas que essas gerações darão  ao ambiente social que lhes foi entregue. Isto configurará uma outra forma de despolitização.

O problema é que não é este governo que é o problema, porque o seguinte fará mais ou menos o mesmo. Isto significa que estas gerações podem estar receptivas a outras linhas de fidelização política diferentes das tradicionais. Por exemplo, calculo que o empobrecimento e  a insegurança sejam factores  que orientem  o alinhamento partidário  para a impossibilidade de um domínio semelhante  ao que ocorreu nos decénios  precedentes: maiorias – relativas ou absolutas . serão impossíveis. Em situações de stress social – e salvo a vinda de um Messias – , os grupos tendem  a pulverizar a coesão.

É de notar que estas modificações serão lentas e complexas. Gosto da maneira como Broch analisava as mudanças de época. A opacidade orgânica é  a forma como cada época  se exprime num perímetro de eficiência.  É  tradição que liga a passagem entre  duas épocas que chocam e se combatem. A tradição é, assim,  uma espécie de filtro ( o curso concerto da História) através do qual  o quotidiano de uma época se instala na época seguinte. A discussão tem a ver com as eficiências do domínio de cada época. Broch  entende que apenas na bordure fica  a memória do passado que não acorda ( o preâmbulo socialista da nossa Constituição é um bom exemplo).

No caso em dicussão, veremos que persistirão gotas  do antigo quotidiano no novo ambiente. Estou a ouvir o debate na AR e a confirmar a tese de Broch. Os aparelhos de dominação ( o Bloco Central)  comportam-se como se  os seus jogos e acusações mútuas ainda significassem uma adesão à realidade da época. Durante algum tempo assim será.

(cont.)

FNV

2 thoughts on “A questão geracional (2)

  1. henedina diz:

    O que eu noto é que, em geral com honrosas e raras exceções, este clima já faz estragos a nova geração (00 porque 90 ainda é a nossa) não tem lealdade. Considera que lhe falharam e por isso tem uma atitude de “cão que não conhece dono” uso esta terminologia forte já que estamos numa sociedade zicada. Há um site no fb que ao lado de um pedido de dadores de medula para uma criança tem o zico!. Neste momento, um terço nos estudos populaçionais que faço as pessoas tem licenciatura, mas não abdicam de um fds e jantar fora e ficar pela noite dentro gastando o que eu não considero legitimo gastar todas as semanas. É o usual e não sabem viver sem isso. Matam, esfolam e atropelam para conseguir manter isso. E perdeu-se o quem me ensina eu fico em divida são uma geração “americana”. Deixa-me ter vantagem. O “para trabalho igual salario igual” desapareceu e é preciso ser mesmo bem formado para se aperceber que isto é uma estrategia neo-liberal mais “refodidora” do estado que a refundação anunciada.

  2. henedina diz:

    populacionais…eu hei-de ser velhinha e impulsiva, já desiste senhor psicologo de me curar disto 😉

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