A Colónia

Já lá estão mais umas linhas. O narrador , para já, tenta descrever  o país antes da semana na qual se centra a narrativa. Nesta fase não altero o  original.

Estou com alguns  problemas com o novo blogspot ( a minha máquina é velha ou fui eu que me habituei ao wordpress), pelo que peço desculpa por atrasos na correcção de gralhas.

FNV

25 thoughts on “A Colónia

  1. João. diz:

    A minha impressão do que foi colocado até agora é a da transição “natural” no interior do capitalismo, do parlamentarismo para o fascismo. O fascismo é e sempre foi o capitalismo em desespero de causa. Como o sugerem os textos que colocou esta transição sempre contou com o apoio de democracias capitalistas. Churchill, por exemplo, saudou ambos Mussolini e Hitler quando chegaram ao poder:

    “If I had been an Italian, I would have been entirely with you from the beginning to the end of your victorious struggle against the bestial appetites and passions of Leninism.” (Churchill para o partido fascista italiano).

    “One may dislike Hitler’s system and yet admire his patriotic achievement. If our country were defeated, I hope we should find a champion as admirable to restore our courage and lead us back to our place among the nations.” (Churchill sobre 2 anos depois da chegada de Hitler ao poder na Alemanha e, acrescente-se, 9 0u 10 anos depois da publicação de Mein Kampf).

    Já agora mais algumas pérolas deste grande herói da democracia e do pensamento conservador, de quem ficou com quase todos os louros da derrota dos nazis quando os soviéticos enfrentaram e derrotaram mais do dobro de divisões alemãs que todo o resto dos aliados em conjunto*:
    *“Hitler suffered his greatest military setback of the war in the summer of 1944. More destructive by far than the D-Day landings, Stalin’s Operation Bagration in Belorussia eliminated three times more German army divisions than the Allies did in Normandy. Hitler retaliated by demanding specific divisions of the German army stand fast to the last man – the very tactic that Stalin had deployed so disastrously in the early days of the war. Defeat for Germany was only months away.”
    http://www.bbc.co.uk/history/worldwars/wwtwo/hitler_russia_invasion_01.shtml
    Cá estão as pérolas do campeão inglês da democracia:
    “This movement among the Jews is not new. From the days of Spartacus-Weishaupt to those of Karl Marx, and down to Trotsky (Russia), Bela Kun (Hungary), Rosa Luxembourg (Germany), and Emma Goldman (United States)… this worldwide conspiracy for the overthrow of civilisation and for the reconstitution of society on the basis of arrested development, of envious malevolence, and impossible equality, has been steadily growing. It has been the mainspring of every subversive movement during the 19th century; and now at last this band of extraordinary personalities from the underworld of the great cities of Europe and America have gripped the Russian people by the hair of their heads and have become practically the undisputed masters of that enormous empire.”

    “I do not admit… that a great wrong has been done to the Red Indians of America, or the black people of Australia… by the fact that a stronger race, a higher grade race… has come in and taken its place.”

    “I do not understand the squeamishness about the use of gas. I am strongly in favor of using poisonous gas against uncivilized tribes.”
    http://www.guardian.co.uk/theguardian/2002/nov/28/features11.g21

    Desculpe se é off topic, mas foi o que me suscitou a leitura dos capítulos que postou.

    • fnvv diz:

      Nada a desculpar, até porque a novela tem, verá, elementos desses.
      Agora, sobre as admirações de Churchill: nada de novo, está na biografia do Gilbert. Note, no entanto, que esse é um caminho escorregadio: Mussolini foi socialista e director do Avanti!, o Terceiro Reich criou um Estado Social para as ” massas trabalhadoras”, entre 1933 e 1939 ( sobretudo) , com brutal taxação dos ricos, que faria inveja a qualquer estado socialista. Aliás, muitos jovens quadros do NDSAP transitaram directamente de partidos da esquerda para o nazismo.

      • João. diz:

        Bom, desisto de tentar colocar o outro comentário.

        Sobre isto:”Agora, sobre as admirações de Churchill: nada de novo, está na biografia do Gilbert.”

        Não é bem assim, a percepção pública de Churchill e dos govermos ingleses não inclui as simpatias que existiam aos mais alto nível pelos nazis. Hoje a história passa por Hollywood que, a mer ver, é até muito mais simpática para os ingleses (veja-se o Oscar dado àquele “self-serving crap” do “Discurso do Rei) do que para os americanos – já que não faltam alguns filmes de qualidade que questionam o sistema americano.

        A percepção pública da segunda guerra também não inclui o papel decisivo dos soviéticos na derrota dos alemães. Filmes sobre o D day não faltam, já sobre acções dos soviéticos que custaram muito mais soldados aos alemães do que o D day e o que seguiu do lado dos alemães pouco se sabe publicamente. Patton é glorificado como um grande general de cavalaria, provavelmente com razão, aliás num dos meus filmes favoritos, mas a maior batalha de tanques de sempre foi entre os nazis e os soviéticos.

        http://www.liveleak.com/view?i=2a1_1215881107

        Aceito que é natural que assim seja, que cada um puxe a brasa à sua sardinha mas isto diz também alguma coisa sobre as ciências da história e como elas entram no domínio da opinião pública.

      • fnvv diz:

        “a percepção pública da segunda guerra também não inclui o papel decisivo dos soviéticos na derrota dos alemães. Filmes sobre o D day não faltam, já sobre acções dos soviéticos que custaram muito mais soldados aos alemães do que o D day”

        Poi sé. E também há tantos filmes sobre Mussolini, Hitler, Kennedy, Patton, McCarthy, mas nenhum sobre Beria, Malenkov,Iezhov, Kaganovitch, Krutshev, etc e tanto que seria interessante vê-los, não é?

      • João. diz:

        Não são precisos esses filmes. Eles já são tomados publicamente como assassinos, criminosos, psicopatas…para quê gastar filme. Basta ver a reacção a um professor americano que escreveu um livro cuja tese é denunciar o discurso de Kruschev sobre Stalin como essencialmente uma grande mentira (muitos querem expulsá-lo do sistema de ensino). A tese, não sei se correcta ou não, é de que Stalin teria sido afinal muito menos brutal do que se diz.

        http://www.amazon.com/Khrushchev-Lied-Revelation-Khrushchevs-Communist/dp/061544105X

  2. João. diz:

    Estou a tentar comentar a sua resposta mas penso que o blog não os está a registrar. Se estiverem perdidos aí do seu lado, não precisa publicar todos, já que são tentativas de publicar um mesmo conteúdo – mas acredito que tenham sumido na cyber-esfera. Tentarei mais tarde.

  3. João. diz:

    Isto também é interessante porque naquela altura as principais democracias permitiram tudo e mais alguma coisa a Hitler, não só por omissão mas como actos concretos de colaboração na solvência financeira e económica dos nazis quando hoje sufocam a Grécia e Portugal por causa não da emergência de um regime racista e em preparação para a guerra mas porque se endividaram – e quando os bolsheviques tomaram o poder na Rússia a reacção dos ingleses foi muito diferente: imediatemente começaram a colaborar com o armamento dos brancos para lançar uma guerra civíl. Os bolsheviques não tiveram um segundo de tréguas dos ingleses e aliados, já Hitler teve vários anos.

  4. João. diz:

    Não sei se a obra que você está a publicar irá passar sobre a sua área profissional – ou seja, em que medida uma situação como a que está a desenhar é lida em termos de efeitos sobre a patologia psicológica mas digo isto para lhe apresentar um livro que estou a ler e que, se por acaso não conhecer, talvez possa ser do seu interesse. Eu tenho a edição brasileira, em português (o meu francês é muito curto para andanças estas):

    Laure Murat, “L’homme qui se prenait pour Napoleon”, Ed.Gallimard

    “um homem internado no hospital de Chareton. em 1802, (…) afirmava ter sido decapitado e estar portando outra cabeça, já que a sua havia sido levada para a Inglaterra”

    “Em 1840, quando os restos de Napoleão são transportados à França catorze pessoas que acreditam ser o imperador dão entrada no hospital de Bicêtre. Uma onda de delírios de grandeza, de “monomania orgulhosa” – como denominou a medicina da época – espalha Napoleões pelos asilos dom país.

    http://www.telerama.fr/livres/l-homme-qui-se-prenait-pour-napoleon,73301.php

    • João. diz:

      Talvez o autor não tenha chegado a tomar conhecimento da proposta de Stalin à Inglaterra e à França para conter Hitler logo em 1939. Parece-me ao menos colocar em causa a tese associada à apresentação do livro:

      “Papers which were kept secret for almost 70 years show that the Soviet Union proposed sending a powerful military force in an effort to entice Britain and France into an anti-Nazi alliance.

      Such an agreement could have changed the course of 20th century history, preventing Hitler’s pact with Stalin which gave him free rein to go to war with Germany’s other neighbours.

      The offer of a military force to help contain Hitler was made by a senior Soviet military delegation at a Kremlin meeting with senior British and French officers, two weeks before war broke out in 1939.”

      http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/russia/3223834/Stalin-planned-to-send-a-million-troops-to-stop-Hitler-if-Britain-and-France-agreed-pact.html

      • fnvv diz:

        A biografia escrit apor Montefiore, talvez a melhor, não diz isso. De acordo com os arquivos, é verdade que que chegou a haver pressão de Estaline para que a Inglaterra e os EUA , entrando mais cedo, contra-atacassem, mas Estaline nunca acreditou que os alemãe invadissem a gloriosa URSS. Há documentos fabulosos em que oficiais são presos e/ou executado s quando deram notícia da entrada dos primeiros tanques nazis.

      • João. diz:

        Bom, no artigo que linkei está lá isto:

        “Simon Sebag Montefiore, best selling author of Young Stalin and Stalin: The Court of The Red Tsar, said it was apparent there were details in the declassified documents that were not known to western historians.

        “The detail of Stalin’s offer underlines what is known; that the British and French may have lost a colossal opportunity in 1939 to prevent the German aggression which unleashed the Second World War. It shows that Stalin may have been more serious than we realised in offering this alliance.”

        Quanto ao mais, pode ser que tenha sido assim, que Stalin não acreditasse ou que esse fuzilamento de quem falasse da chegada de tanques alemães tivesse a ver com questões de defesa. É no entanto curioso que eu pensava um pouco o oposto, que a Inglaterra, quando Stalin lhes propôs a aliança, nunca imaginaria que os alemães atacassem os primos ingleses.

      • fnvv diz:

        Bate certo: não era uma força conjunta, era um tour de force dos aliados.

      • João. diz:

        Devo dizer, aliás, que acho estranho que tendo chegado aos ouvidos de Stalin que oficiais soviéticos andavam a dizer que os alemães estavam a entrar na Rússia, que Stalin simplesmente os mandasse matar ou prender sem ao menos ver se eles tinham razão ou não. Se Stalin chegava a quem estava a receber e divulgar notícias dos alemães a entrar na Rússia concerteza que haveria de receber as mesmas notícias se assim quisesse. Essa tese parece-e um pouco rebuscada, acho duvidoso que Stalin não quisesse saber por fontes suas se as notícias eram verdadeiras ou não. Parece-me mais lógico que essa repressão da divulgação da invasão nazi tivesse a ver com qualquer outro motivo do que simplesmente achar inaceitável que os nazis invadissem, especialmente quando oficais russos o noticiavam.

        Faz pouco sentido do ponto de vista de um qualquer líder, de qualquer país, de qualquer ideologia: se oficiais dizem que o território está a ser invadido, alguns líderes políticos podem escolher proibir a divulgação dessa notícia mas nenhum deles deixaria de verificar.

      • fnvv diz:

        Os arquivos mostram indiscutivelmente o seguinte: Estaline recusava-se aceitar a ideia de invasão e a cadeia de comando ajudou o líder a manter a ilusão. Claro que verificaram, mas o medo e o terror, vc deve saber, falaram mais alto ( aconteceram episódios desses na Alemanha).
        Montefiore faz psicanálise: acha que Estaline se sentiu culpado pela incapacidade em evitar a violação da URSS.

      • João. diz:

        “A biografia escrit apor Montefiore, talvez a melhor, não diz isso. De acordo com os arquivos, é verdade que que chegou a haver pressão de Estaline para que a Inglaterra e os EUA , entrando mais cedo, contra-atacassem…”

        Você fala de contra-atacar mas o que me parece do artigo do Telegraph é que Stalin propôs sim um ataque e não um contra-ataque. As datas parecem confirmá-lo. O acordo é proposto antes de Hitler invadir a Polónia que, em geral é tido como o início concreto da II Guerra.

        Lá é dito:

        “The offer of a military force to help contain Hitler was made by a senior Soviet military delegation at a Kremlin meeting with senior British and French officers, two weeks before war broke out in 1939.”

      • fnvv diz:

        Vou verificar no calhamaço, mas tenho quase a certeza de que os episódios que estou a falar aconteceram depois da invasaão d aPolónia…

      • João. diz:

        Ok. Se entendo você fala de preparativos alemães para a invasão e não propriamente quando esta estava em curso – será isso? Essa tese obriga-nos a crer que Stalin preferia manter a sua crença na inviolabilidade da URSS, ou a sua crença no respeito dos nazis pelo pacto, do que em manter sempre pelo menos alguma desconfiança e prevenção. Pode ser que tenha sido assim, por vezes os acontecimentos são mais criativos do que a ficção – não estou a ser irónico – mas que então se assim foi isso representa um erro dos mais básicos que um líder de um país, na situação da URSS durante a uma guerra mundial, poderia cometer, haverá pouca dúvida.

      • fnvv diz:

        e são. O que se lê no Montefiore ( e em fontes que estão disponiveis) é uma ambivalência: Estaline não deixou de se preparar, claro, mas não acreditou que a invasão fosse naquela altura.

      • gandavo diz:

        a proposta enquadra-se na tese do autor: empurrar França e Inglaterra contra a Alemanha, enquanto assinava o pacto com Hitler para dividir a Europa. Existem filmes no youtube com palestras do autor em que ele, num inglês macarrónico, explica a sua tese.

      • João. diz:

        Gandavo,

        Stalin dispõe-se a reunir um milhão de homens para juntar à Inglaterra e à França de modo a atacar Hitler – a Inglaterra e a França dizem que não estão interessados nisso. Onde é que está o lançamento da França e da Inglaterra para a guerra com a Alemanha por parte de Stalin se a Inglaterra e a França, precisamente, se recusaram a atacar a Alemanha antes desta ter invadido a Polónia?

      • gandavo diz:

        Segundo o autor, Estaline jogou em vários tabuleiros ao mesmo tempo: deu sinais de acordo com a Inglaterra e assinou pacto secreto com Hitler. A idéia era fomentar a guerra na Europa, de preferência com a Alemanha a levar a culpa de agressora, para depois surgir como libertador.
        http://www.cartoons.ac.uk/group/nazi-soviet-pact-1939/fullview?page=6

      • João. diz:

        “Segundo o autor, Estaline jogou em vários tabuleiros ao mesmo tempo: deu sinais de acordo com a Inglaterra e assinou pacto secreto com Hitler. A idéia era fomentar a guerra na Europa, de preferência com a Alemanha a levar a culpa de agressora, para depois surgir como libertador.”

        Talvez isto sirva para muitos dormirem melhor à noite.

        Só é pena que quem deu muitos sinais de conivência com Hitler antes de Stalin ter assinado o Pacto foram os aliados – veja-se o acordo naval da Inglaterra com os nazis, mais o acordo da Inglaterra com os nazis sobre a Checoslováquia, mais a condecoração nazi a H. Ford – a mais alta condecoração que os nazis davam as estrangeiros. Sem falar das conhecidas simpatias de muitos conservadores e aristocratas ingleses por Franco, Mussolini e Hitler.

  5. João. diz:

    “Vou verificar no calhamaço, mas tenho quase a certeza de que os episódios que estou a falar aconteceram depois da invasaão d aPolónia…”

    Acho que o próprio Montefiore sugere que as revelações constantes nos documentos que foram liberados trazem novidades para os historiadores, o que o incluiria a ele. Eu não li o livro dele mas pode ser que estaja um pouco desactualizado dados estes documentos. Julgo que o “The Court of the Red Tsar” é anterior a estas revelações.

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