As “alternativas”.

Não é surpresa, mas quando vem de onde vem tem mais encanto. Pedro Lains, sublinhados meus:

Uma breve pesquisa na Internet (…), levou-me a um trabalho, feito sob a égide da OCDE, sobre alternativas de ajustamento, justamente intitulado “Portugal: assessing the risks around the speed of fiscal consolidation in an uncertain environment”. Note-se que não é um trabalho “alternativo”, mas sim do coração da disciplina de Economia. E o que faz o trabalho? Compara duas alternativas de ataque à crise. Na primeira, os objectivos são nominais, isto é, fixos; na segunda, os objectivos dependem do progresso da economia, ajustam-se ao andamento da economia. Em inglês técnico, o trabalho compara uma estratégia de “sticking to nominal deficit targets” com outra de “letting automatic stabilizers play”. Estas duas estratégias são semelhantes, relativamente aos objectivos de redução do défice público e da dívida, e não presumem nenhuma reestruturação ou negociação de juros. E têm níveis de risco comparáveis. Na primeira, na que o Governo segue, o principal risco é o de excessiva contracção do produto, do crescimento, que pode acabar por não beneficiar nem a redução do défice, nem da dívida. Tal como aconteceu em 2012. Na segunda, o risco cai sobre a redução da dívida. Mas ambas são arriscadas. E qual é a principal diferença? É de quem manda, quem tem o poder. O risco ou cai para o lado dos credores ou para o lado dos cidadãos. Mas, notem, não são os custos, a desconfiança, ou outras coisas negativas. É o risco.
Pegando nas palavras do artigo: “To sum up, both strategies considered would in most cases result in sustainable debt dynamics, but there is a trade-off regarding the risks implied. Relative to the ‘automatic stabilisers’ strategy, the ‘nominal targets’ strategy brings more certainty in terms of debt decline and lower interest rates in the medium-term, but at the risk of a deeper recession in 2013-14, reflected in higher unemployment and declining prices.” (p. 17).
E o que é que isto interessa? Interessa porque, ao se dar espaço aos estabilizadores automáticos, não são necessários ajustamentos selvagens como o que está em curso, nem a tal “reforma do Estado” dos 4 mil milhões. É fazer o resto das contas. Claro que a verdadeira questão não é essa, das contas, mas sim política. É por isso que é sempre falacioso falar da inexistência de alternativas.

Mas como o Pedro Lains é um economista levemente engagé fica-nos bem escutar outras opiniões:

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“Quatro mil milhões de euros! Quatro mil milhões de euros! Temos de cortar quatro mil milhões de euros! Crruác!”

Excelente, Curropaco. Toma um amendoim.

Luis M. Jorge

21 thoughts on “As “alternativas”.

  1. A arara é um belo animal que não merece tais comparações…

  2. Louro diz:

    Estes papagaios deveriam escrever no quadro 4 mil milhões de vezes:
    eu não sei de onde vem este número
    eu não sei de onde vem este número
    eu não sei de onde vem este número

    como recompensa até lhes dava um saco de amendoins.

  3. NS diz:

    Eu fico muito contente por saber que o Pedro Lains arranja 78 mil milhões de euros com credores que estão dispostos a manter a taxa para assumir mais riscos. As alternativas no papel são sempre muitas, a realidade é que é tramada. E reaccionária.

    • Você não percebeu a coisa, pois não?

      • fnvv diz:

        mas isto é dentro do “ajustamento”, depois, ou devia ter sido antes, filho? Olha que sou um ignorante, fala -me com carinho sff.

        PS: onde é a tal barra lateral com o link para a novela?

      • Filipe, dada a profunda sabedoria que exibo em tudo o que são assuntos económicos posso asseverar-te que se trata de dois caminhos de ajustamento, um mais lento que outro, com riscos diferentes. Se devia ter sido feito antes, provavelmente devia mas não sou o Zandinga do ISEG — o que me interessou foi a revelação de que afinal existiam “alternativas” não revolucionárias, coisa que por ser uma pessoa pessoa razoável já tinha desconfiado. E mais não digo porque tenho um intelecto limitado.

        Quanto ao link, deixa-me chegar a casa pá. Aqui trabalha-se, e tal.

      • NS diz:

        Desculpe, mas o que me parece é que se alguém não percebeu, não fui eu. O que o Pedro Lains descreve é uma alternativa em que tem que se aumentar a dívida num primeiro momento, usar esse dinheiro para o estado torrar em qualquer coisa – estradas, por exemplo, que nos fazem tanta falta, ou TGV – e esperar que a economia cresça mais do que a dívida, para os rácios ajustarem. Uma espécie de milagre da multiplicação dos pães. Para esta brilhante possibilidade, é preciso arranjar pessoal disposto a meter o guito, supõe-se que à mesma taxa, suportando muito mais risco – na minha opinião, exponenciando o risco.
        Ora, isto é tão alternativo à política actual como a minha alternativa que, diga-se, é muito melhor que a do Pedro Lains – a Europa deve garantir explicitamente toda a dívida portuguesa, em stock e em potência, a custo zero. E o dr. Passos Coelho tem toda a liberdade para implementar uma “política activa de emprego”. Good luck.

  4. henrique pereira dos santos diz:

    “O risco ou cai para o lado dos credores ou para o lado dos cidadãos. Mas, notem, não são os custos, a desconfiança, ou outras coisas negativas. É o risco.”
    Isto que transcrevi é do melhor que tenho lido sobre a arte de não dizer nada fingindo que se fala.
    O risco é uma abstracção, não tem nenhuma relação com os custos, a desconfiança ou outras coisas negativas. Isto é, se o risco da dívida subir, o problema é dos credores, nem eles ficam mais desconfiados, nem pedem maiores prémios de risco nem nada dessas coisas negativas. E se os credores não existirem porque o risco da dívida é elevado claro que isso não tem nenhuma implicação nos cidadãos, que continuarão a receber pontualmente tudo a que têm direito, mesmo que não se saiba de onde vem o dinheiro.
    Ora, ora, ora.
    henrique pereira dos santos

  5. XisPto diz:

    Interessante, acompanhar a evolução das opiniões de Pedro Lains, agora depois de se saber o resultado da emissão:
    .
    http://pedrolains.typepad.com/pedrolains/2013/01/o-que-fazer-com-a-viragem.html

      • XisPto diz:

        Por exemplo, sobre a “natureza” da evolução das cotações dos títulos de dívida portuguesa no mercado secundário. Quem tivesse lido no dia 16 de Janeiro o seguinte post
        .
        “…O IGCP deveria ser obrigado a revelar logo quem compra os títulos da dívida portuguesa, para que não hajam dúvidas de entendimento entre o Governo e os bancos portugueses (ou a Segurança Social). Claro que mais tarde se sabe sempre. Um trabalho jornalístico interessante, com esperanças de não dar resultados positivos, pois não se pode acreditar que se viva num país assim, seria o de correlacionar as vendas bem sucedidas dos títulos portugueses com momentos críticos do ciclo político do Governo…”
        .
        ficaria, como eu fiquei, com sérias dúvidas sobre se o atual governo não estaria a fazer como Sócrates/Teixeira dos Santos fizeram até ao fim, instando a banca nacional a subscrever as emissões, até à revolta da banca.
        .
        Mas hoje, após a emissão, escreve:
        .
        “…De facto, estamos numa viragem, pois uma parte considerável dos títulos vendidos pelos países periféricos está a ser comprada por bancos e fundos sedeados no estrangeiro. (…) Esta viragem está há muito planeada por Bruxelas e Frankfurt, com a intervenção dos mais importantes governos europeus e, obviamente, periféricos. A ideia é dar ao BCE um papel no mercado dos títulos da dívida pública, condicionado a que os países da periferia conseguissem colocar alguma dívida em mercado aberto.”
        .
        Eu, que sou um leigo generalista e nada percebo de finanças, mas que aprecio o contraditório, vejo uma evolução, e vindo de quem assumidamente é um crítico do governo e da política de austeridade, interpreto estas novas opiniões como uma “certificação” de que as cotações não andam a ser “manipuladas” como muitos comentadores têm afirmado.
        .
        Já sobre o seu significado, essa é outra história.

      • XisPto diz:

        Atento, tenho que rever a minha interpretação sobre o grau de confiança de Pedro Lains nos dados públicos sobre como decorreu a “volta aos merçados”, ou o regresso de uma boa teorizada conspiração:
        http://pedrolains.typepad.com/pedrolains/2013/01/visita-de-estudo.html

      • XisPto diz:

        Oops, maldito corrector automático: mercados, teoria.

  6. caramelo diz:

    Há sempre alternativas, ou do domínio da pura economia, ou revolucionárias. A do governo é revolucionária. O próprio governo já admitiu que não faz puta de ideia se o que pôs em marcha funciona, num daqueles assomos de sinceridade desarmante do Gaspar, que tem ar de quem todos os dias levava carolos dos mais novos na escola, o que pode explicar muita coisa. Eu não percebo nada disto, mas tenho a impressão de que se corre algum risco de a depressão não criar riqueza suficiente para pagar dívidas, seja as da água e da luz, seja as dos credores internacionais.
    O resultado disto tudo, até agora, é que “regressámos aos mercados”. Quer dizer, alguém terá regressado ao mercado. O resto, para saber se pode regressar ao mercado, está à espera do resultado da discussão sobre a refundação do estado, que parece que vai ocupar agora uns sete discretos anões geniais numa sala do parlamento. No entretanto, um dia destes, uma empresa alemã instala-se cá, cria 500 postos de trabalho, o governo organiza uma fanfarra durante um mês, vêm as trombetas anunciar que a economia descolou em glória, e nesse mesmo dia em que abre a fábrica, um só dia, mais 500 novos desempregados se inscreveram nos centros de emprego. Essa é que é a “realidade tramada”.
    A teoria dos estabilizadores automáticos é interessante, mas acho que o risco da subida da dívida é mais politico do que financeiro. Não estamos ao balcão de um banco a avaliar o risco de um empréstimo pessoal. O risco que se corre é o de os credores institucionais, FMI, BCE e UE, não cobrirem o risco, o risco da falta de um comando político na Europa, e o risco da coragem de cada um dos estados. O governo grego recebe moratórias atrás de moratórias, sucessivos perdões parciais de dívida, etc, com um estado em fanicos. E nós é que somos os darlings dos mercados e da Europa.

  7. caramelo diz:

    Estou só a melgar, como aquele gajo do the cable guy. O Pedro Lomba já veio fazer nova comunicação aos portugueses, para nos lembrar que “as coisas são o que são” e não podem ser de outra maneira. O sol nasce a oriente, os jogadores do zbordem vão para o fcp, a austeridade não vai abrandar. E naquele estílo que já se encontrava perdido e que tanta falta faz em tempos de desordem mental e crise de valores: que não se pense que… que não se veja aqui… não se enganem… concedendo um maroto “é não estar a ver o filme”. O Pedro Lomba é uma espécie de Homem Médio, o arquétipo do pater famílias, que esfria as discussões e os entusiamos de um lado e do outro, reduzindo-os a ilusões. Ler as suas comunicações é um descanso, porque evita que massacremos os neurónios, reduzindo-nos à nossa condição natural, que é o da infância. É uma espécie de estabilizador mental automático. Dizer que a austeridade e as reformas estão para ficar, sem sequer se dignar a discorrer sobre que austeridade e que reformas, deve ser o que nos está destinado, até aprendermos a ser homenzinhos. Erros todos os pais cometem, porque ser pai não é nenhuma ciência exata. Vai-se aprendendo e discutindo serenamente na sala, enquanto as crianças dormem como anjinhos. Mas somos ou não uma família respeitável? Alguém aqui no bairro nos pode apontar alguma coisa? Ali no mercado, todos nos elogiam o porte, a roupa lavada e bem remendada, e nenhum de nós é falado, nem deve nada a ninguém.

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