A questão geracional (3):epelydes e epigonoi, ou a geração perdida e a geração comprometida

Vem-me à memória uma descrição ( via Beevor)  da vida de  García Marquez, em Paris, 1957. Enviado pelo El Espetador, colombiano,  instalado num sotão parisiense, no quarto de criada do Hôtel de Flandre,  na Rue Cujas, alimentando-se de esparguete frio, fumando três maços de Gauloises por dia. Escrevendo quase sentado em cima do aquecedor, com saudade de Mercedes, que ficara em Barranquilla, termimou La Mala Hora.  A geração perdida será a que estudou durante  o primeiro decénio ,  a comprometida será a que está agora fazê-lo. Estão,  ambas, como García Marquez em 1957, na Mala Hora.

Julgo existirem  diferença entre estas duas categorias. A perdida está forçada  a duas coisas: emigrar ou trabalhar abaixo das suas qualificações. Que tipo de consciência  política terão estes imigrantes ( epelydes) nas sua própria terra, é coisa que veremos. A classificação não é totalmente despropositada. Um estatuto menor, a herança de um deserto,  um certo estupor na forma como olham o país. Como emigrantes/imigrantes, operarão a dupla condição dentro  e fora do território.Interessa-me mais o estatuto de imigrantes de dentro. A um discurso  que lhes diz “desculpem qualquer coisinha, mas agora  não há  nada “, poderão responder com o alheamento, mas também com a antiga adesividade a modelos esgotados. Serão, provavelmente, os últimos moicanos tolerantes da velha e mansa ordem partidária.

A geração comprometida, os  epigonoi, ou  descendentes,  das opções tomadas pelas classes dirigentes ( nacionais e europeias),  desenvolverão  uma identidade grupal  diferente. Já sabiam com o que contavam, por isso o grau de crença é baixo. Poderemos  assim falar de epigonoi orfãos, que, como cães de ninhada de rua, lutarão como tiver de ser. O problema, parece-me, é que essa sobrevivência já não será à custa  do esquema assegurado pela antiga rulling class. É possível que o compromisso  dessa geração seja com ela própria, cavando um fosso ainda maior com os anqueos  geracionais e, portanto, também políticos.

FNV

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2 thoughts on “A questão geracional (3):epelydes e epigonoi, ou a geração perdida e a geração comprometida

  1. balde-de-cal diz:

    a minha geração (quase 82 mal passados) começou pobre. estudou fora, trabalhou. nos anos 70 convenceram-na que era rica ao meter-lhe o crédito pela boca abaixo.
    a geração do meu filho (50) esbanjou-se em novo-riquismo. fez obras sumptuárias. comprou casas, carros e iates de luxo. fez férias por todo mundo. tudo a crédito
    esqueceram-se de trabalhar e não repararam que o país empobrecia alegremente.
    agora contem com ‘histoires de bites e chattes’ e digam alto: ‘va te faire enculer, sale fils de pute!’

  2. António diz:

    (53), já disse aos meus filhos que se revoltassem contra a minha geração por lhes ter “chupado” o futuro, obrigando-os a pagar as contas que sustentaram os nossos vicios. a falta de sentido critico e histórico dos actuais 40-75 foi quase criminoso, de nada valendo quem tentou remar contra. só espero que no ocaso, não levem a coisa tão a sério…
    antónio.

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