Ser estúpido, insistir.

João Ferreira do Amaral em entrevista ao Público. Sublinhados meus.

O que acha do debate sobre a reforma do Estado que o Governo está a querer lançar?

Fazer o debate, sim, é importante. Mas não desta maneira. O começar com o corte de 4000 milhões de euros foi um mau começo. Por várias razões: primeiro, porque é um corte que macroeconomicamente não faz sentido. Se tivermos um corte de 4000 milhões e ainda para mais tudo concentrado em 2014, isso significa um impacto recessivo no PIB que eu avalio em cerca 3% do PIB e provavelmente uma taxa de desemprego que vai até aos 20%. A não ser que fosse compensado com uma descida de impostos imediata, mas aparentemente não é essa a ideia. Isto cria uma dúvida total sobre se isto é exequível ou não. Depois, do ponto de vista da própria acção do Estado, não é boa política, porque, se o corte de 4000 milhões for para levar a sério, vai-se cortar de uma forma que acaba por não ter racionalidade, porque a pressão para cortar é tão grande. Teria sido preferível olhar para aqueles aspectos onde há realmente ineficiências do Estado e discutir a forma de as ultrapassar, só depois retirando as poupanças que daí adviriam.

Mas não será necessário para reduzir o défice?

Objectivos demasiado intensos na austeridade do Estado têm resultados contraproducentes. Isto é, obteríamos melhores resultados no défice e na dívida com menos austeridade. Houve duas subavaliações tecnicamente imperdoáveis na análise feita pela troika à situação do país: uma é que subavaliaram os feitos do endividamento das famílias. Em famílias muito endividadas, o efeito da austeridade amplifica-se, porque estas cortam ainda mais no consumo quando os seus rendimentos são afectados. O segundo efeito que subavaliaram foi o desemprego. Eles próprios reconheceram, mas a meu ver foi imperdoável. Sabe-se que o emprego, na sua enorme maioria, está ligado à procura interna, e a queda desta, tão drástica como foi, iria certamente ter consequências no desemprego muito graves. Ora o desemprego é gravoso para quem cai nessa situação, mas também o é para as contas do Estado. Tudo isto junto levou a uma subavaliação dos efeitos sobre as finanças públicas e a uma austeridade excessiva. É ridículo descer o défice real o que se desceu, pouco mais de um ponto percentual de 2011 para 2012, com uma austeridade tão brutal. Infelizmente, a troika continua a reincidir nos mesmos erros e a exigir este corte de 4000 milhões.

Luis M. Jorge

Anúncios

16 thoughts on “Ser estúpido, insistir.

  1. XisPto diz:

    Uma opinião credível, acima de qualquer intenção política imediata, discutível, evidentemente.

  2. João Pereira da Silva diz:

    Mas… mas… os 4 mil milhões não deviam não ser discutidos? Afinal?

    • hein? Refere-se ao relatório daquele tipo que aldrabou um think-tank?

      • João Pereira da Silva diz:

        He, he. Acha que estamos empatados de vigaristas? Ou a esquerda ainda leva vantagem?

      • Depende. Qual a importância relativa de um estudo espectacular do FMI perante a de um tipo que discursa no Grémio Literário?

      • João Pereira da Silva diz:

        Depende de facto. Um socialista espanhol por ser aldrabão desvaloriza um relatório sobre algo que tem de ser feito, independentemente do que acharmos? Como propõem o Luís Jorge reduzir a despesa em montante equivalente? Faz como Freitas do Amaral e sugere taxar os ricos? Ou como Sócrates e sequazes pretende continuar a cobrar aos mercados a nossa ineficiência e indisciplina? De algum modo o Luís M. Jorge, tem de cortar. Onde, ainda o o li sobre isso, ou então não leio tudo.

      • Mas qual “montante equivalente”? Você deu-se ao trabalho de ler a entrevista que citei, onde “o que tem de ser feito, independente do que acharmos” é revirado do avesso? É impressionante como os seus comentários conseguem ser variações ad infinitum de um “tem que ser, tem que ser” que nunca demonstra nem analisa. A isso é o que eu chamo papaguear.

    • João Pereira da Silva diz:

      Bem, sem sermos agressivos ou descorteses por favor não que eu tenho-lhe respeito. O montante tem de ser superior. Claramente, “netamente” em estrangeiro. Analisar e demonstrar? A informação está mais do que disponível, ou não vê quem não quer, ou não vê a quem não interessa. E o interesse é o resumo de tudo. Ou não concorda?

    • João Pereira da Silva diz:

      Mas, Luís M. Jorge, sem perder muito tempo, pois sei que jamais mudará de ideia enquanto for tempo para isso, deixe-me dar-lhe esta síntese: http://www.pordata.pt/Portugal/Administracoes+Publicas+defice+publico+em+percentagem+do+PIB-834. O défice é igual ao volume que é necessário ajustar. Acha pouco demonstrativo? os 4 mil milhões, são pouco ou muito, agora? Já não insisto mais. Gostava, porque gosto de o ler e muitas vez é interessante, que saíses um pouco do quadro quadrado em que insiste deixar-se. Mas enfim. Gostos não se discutem e o seu é pessoal como o meu.

  3. António diz:

    Há um pequeno detalhe, “isto” não é um programa económico, é uma agenda ideológica.
    E nesta matéria tudo está a correr bem.

  4. balde-de-cal diz:

    tínhamos uma excelente programação de emprego nas obras públicas:
    centenas de milhares de casas por vender e hotéis por ocupar
    auto-estradas desertas para não danificar a paisagem e evitar emissão de CO2.
    cozinheiros de croquetes desempregados por falta de inaugurações

  5. Caro Luís,
    acho que tem razão normativamente mas não positivamente. Deixo-lhe um texto (o último de uma série que vale o tempo) da Priscila Rêgo: parededecasadebanho.blogs.sapo.pt/6036.html.
    Um abraço
    Rui

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: