Cesário / Pavia

Cesário Verde, no meio de tanta luta de classes, consegue escrever versos de amor  com o rasgo  da ironia que os torna  letais. “Gasalhosa” é  a mulher  a que nos agasalhamos:

Todas as noites ela me cingia

Nos braços, com brandura gasalhosa;

Todas as noites eu adormecia

Sentindo-a desleixada e langorosa

( Proh pudor, 1874)

Cristovam Pavia ( Bugalho) , desprezivelmente desprezado pelos iniciados lusos, esse é sempre amorosamente amargo:

Cortei a poesia ao meio,

Metade foi para o lixo,

Metade para as estrelas.

FNV

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7 thoughts on “Cesário / Pavia

  1. balde-de-cal diz:

    Verde escreveria hoje sobre a ‘fermosa estrevaria’ que é a cidade de Lisboa:
    ‘a madame vai à rua com o cão
    cagar no chão’

    moro em frente do jardim ‘merda de cão’ onde coloco os pés por entre os cagalhões.
    no verão respiro o pó dos mesmos

  2. João. diz:

    Falando em poesia uma das coisas mais belas que eu já contemplei. No caso não é de Cesário mas de Mário de Sá-Carneiro.

    VIII – Quasi

    Um pouco mais de sol – eu era brasa,
    Um pouco mais de azul – eu era além
    Para atingir, faltou-me um golpe de asa …
    Se ao menos eu permanecesse aquém …

    Assombro ou paz ? Em vão … Tudo esvaído
    Num grande mar enganador d´espuma;
    E o grande sonho despertado em bruma,
    O grande sonho – ó dor ! – quasi vivido …

    Quasi o amor, quase o triunfo e a chama,
    Quasi o princípio e o fim – quasi a expansão …
    Mas na minh´alma tudo se derrama …
    Entanto nada foi só ilusão !

    De tudo houve um começo … e tudo errou …
    – Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim …
    Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
    Asa que se elançou mas não voou …

    Momentos de alma que desbaratei …
    Templos aonde nunca pus um altar …
    Rios que perdi sem os levar ao mar …
    Ânsias que foram mas que não fixei …

    Se me vagueio, encontro só indícios …
    Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
    E mãos d’ heroi, sem fé, acobardadas,
    Puseram grades sobre os precipícios …

    Num ímpeto difuso de quebranto,
    Tudo encetei e nada possuí …
    Hoje, de mim, só resta o desencanto
    Das coisas que beijei mas não vivi …

  3. henrique pereira dos santos diz:

    Penso que já lhe terei dito: gosto dos dois, acho mesmo Cesário do melhor que tenho lido (que é pouco reconheço) em português, apesar de com frequência achar as palavras irritantemente pretensiosas. Mas quando isso não acontece, é espantoso como ser de uma crueza e rigor descritivo implacável e o resultado global ser outra coisa qualquer para lá de uma descrição nua. E gosto do Cristovam Pavia, quando de tempos a tempos me cruzo com o livro dele. Mas nunca o suficiente para ficar preso.

    • fnvv diz:

      “achar as palavras irritantemente pretensiosas”
      É necessário entender sempre a época ,embora mesmo dentro de cada uma há mais e menos, claro.

      • henrique pereira dos santos diz:

        ao reler, logo imediatamente depois de ter mandado o comentário, ainda comecei outro comentário exactamente para dizer que grande parte dessa coisa do “irritantemente pretensiosas” não passava do ar do tempo, mas acabei por não escrever.
        Tem toda a razão, e racionalmente eu percebo isso, mas da mesma maneira que não consigo de deixar de achar supimpas algumas expressões usadas no que leio de coisas mais antigas (coisas como “tão fora de esperar bem”) mesmo que seja só esse ar do tempo, não deixo de tropeçar nessas tais coisas irritantemente pretensiosas de parte do século XIX e XX (incluindo, por exemplo, parte do Mário de Sá-Carneiro).
        A cabeça manda entender a época, mas o resto estatela-se ao comprido, rasteirado por algumas palavras e outras coisas que se tornaram lugares comuns da pretensão.
        henrique pereira dos santos

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