Bento XVI: um grande Papa low profile

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A abdicação de Bento XVI é uma surpresa total. Primeiro, porque há rarísissimos precedentes históricos (um é o de Celestino V, eremita do século XIII eleito quase por aclamação popular, que inspirou a Giovanni Papini, ontem aqui citado, as fictícias Cartas aos Homens do Papa Celestino VI : estamos, portanto, no domínio em que a história se aproxima da mitologia). E depois porque, apesar da idade, o Papa parecia estar de boa saúde. Não vou especular, embora seja óbvio que os escândalos de pedofilia na Igreja ou as traições ao mais alto nível do famoso Vatileaks podem ter debilitado um coração que já não era novo. Interessa-me mais fazer um balanço, a quente, de um pontificado breve (2005-2013) mas intenso.
O que sempre definiu Ratzinger, antes e depois de ser Papa, foi a sua condição de intelectual. No inevitável contraponto com João Paulo II, o polaco era o globetrotter que arrastava multidões, “o Papa que venceu o comunismo”, o lutador que enfrentou a tirania totalitária, uma tentativa de assassínio e uma doença debilitante, e o alemão era o homem de gabinete. Injusta, como todas as simplificações (e quem não sairia diminuído na comparação com Wojtyla?), havia aqui parte de verdade. Toda a carreira de Ratzinger, até ser bispo, cardeal e Papa, é a de um académico. Ordenado padre em 1951, doutorou-se em Teologia dois anos depois e começou em 1957 uma vida de professor universitário que o levaria a Freising, Bona, Munster, Tubinga e Ratisbona. Consultor (na altura, com fama de progressista) do arcebispo de Colónia Joseph Frings, acompanhou o concílio Vaticano II a partir de 1962. O Maio de 68 apanha-o em Tubinga e tem um profundo impacto sobre o jovem professor. Dirá mais tarde que “nesses anos aprendi quando uma discussão tem de acabar porque se tornou uma mentira e quando é que tem de se resistir para preservar a liberdade”. Para alguém com fama de cerebral, não são palavras suaves. Em 1977, Paulo VI nomeia-o arcebispo de Munique e eleva-o a cardeal, desviando-o da universidade, mas é João Paulo II que o leva para Roma como Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, o ex-Santo Ofício. Aceita na condição de poder continuar a escrever sobre teologia, tão forte é a sua vocação de autor. Mais tarde, na entrevista-livro O Sal da Terra, confessa a Peter Seewald que não tinha a missão de perseguir teólogos, pois se assim fosse teria de se perseguir a si próprio. Mas o lugar é delicadíssimo e valerá a Ratzinger a eterna fama de grande inquisidor. A sua “inteligência lúcida e analítica”, como em tempos o definira um colega universitário, convence os cardeais a elegerem-no Papa em 2005. “Queríamos alguém que soubesse falar do Cristianismo a toda a gente”, confidenciou um deles. E confidenciou bem. Na sua primeira encíclica, Deus Caritas Est, o novo Papa citava Nietzche e Virgílio ao lado de S. João e do Cântico dos Cânticos. O professor da Germânia sabia ao que vinha. E continuou a publicar os seus livros, como mostra a trilogia Jesus de Nazaré, escrita por um teólogo especial que por acaso também era Papa (estatuto anfíbio que produziu um best-seller).
Esta fé na razão, mesmo no exercício de funções de governo, é a força mas também a fraqueza de Ratzinger. O Papa tem o sentido da fórmula, da palavra certa, da síntese lógica. E a capacidade de distinguir o fundamental do secundário. Daí a sua grande preocupação pastoral: a Europa. Sabe que o velho continente, onde há cada vez menos católicos, continua a ter uma influência cultural muito superior ao seu peso político, económico ou militar. Não por acaso, o nome de Bento evoca S. Bento, o padroeiro da Europa, mas também Bento XV, o Papa que viveu os tempos difíceis da I Guerra Mundial, essa guerra civil do continente europeu. Dois dos livros de Ratzinger publicados recentemente em português têm por título A Igreja e a Nova Europa (Verbo) e A Europa de Bento Na Crise de Culturas (Aletheia). O tempo passado na Congregação da Doutrina da Fé ensinou-lhe que heterodoxias como a Teologia da Libertação não nascem da sede de justiça do Terceiro Mundo, mas dos mestres da suspeita da academia ocidental. Se João Paulo II viajou incansavelmente pela América Latina e por África, os continentes-esperança da Igreja, Bento XVI privilegiou a Europa: Alemanha (três viagens), Espanha (três viagens), Portugal, França, Suíça, Áustria, República Checa, Polónia, Inglaterra, Malta… E a Turquia, a península vizinha onde o Ocidente cristão chocou ao longo da história com o Oriente muçulmano.
O Islão foi, de resto, outra das suas preocupações. Há mesmo quem diga que foi para Bento XVI o que o comunismo foi para João Paulo II (não é verdade: o “papão” do Papa teutónico foi o secularismo, a morte de Deus na sociedade moderna – “onde domina a dúvida sobre Deus, acaba inevitavelmente por seguir-se a dúvida sobre o Homem”, disse em 2011). E o Islão é também, curiosamente, uma das medidas da tal fraqueza que se pode atribuir a Bento XVI. A crença no valor facial das palavras e dos argumentos, defeito próprio dos intelectuais, fê-lo esquecer que vivemos na era do soundbite. Alguns exemplos desta desatenção abriram polémicas dolorosas, como a do célebre discurso de Ratisbona mal recebido pelos muçulmanos ou o levantamento da excomunhão a quatro bispos lefebvrianos, um dos quais, soube-se depois, era negacionista do Holocausto. Mais caricato parece hoje o caso do camauro, um barrete típico dos papas do Renascimento que Bento XVI usou numa manhã gelada de Inverno
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sem ter em conta a imagem de alguns dos seus antecessores mais detestados, como Alexandre VI, o Papa Bórgia, ou o terrível Júlio II.
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A história nunca está longe de quem dirige uma instituição tão antiga como a Igreja.
Para finalizar, deixo alguns links do que escrevi sobre este pontificado.
Sobre as última visitas à Alemanha e a Espanha.
Sobre as visitas à Turquia, aos EUA e a Inglaterra.
E o discurso ao mundo da cultura no CCB, durante a sua visita a Portugal em 2010, que tive a grata honra de ouvir presencialmente.
Obrigado, Bento XVI.

PP

19 thoughts on “Bento XVI: um grande Papa low profile

  1. O link “discurso do Papa ao mundo da cultura no CCB” não funciona: https://declinioqueda.wordpress.com/2013/02/11/um-grande-papa-low-profile/www.dn.pt/DNMultimedia/DOCS…/Bentoxvi_cultura_portugues.pdf

  2. Boa malha, Pedro, nada como um especialista.

  3. ppicoito diz:

    Coisas de família, nada mais.

  4. João. diz:

    “Esta fé na razão, mesmo no exercício de funções de governo, é a força e a fraqueza de Ratzinger.”

    Isto é muito interessante, é pena que o Pedro não desenvolva um pouco o seu ponto de vista sobre a questão da força/fraqueza da fé na razão (talvez numa outra ocasião se lhe parecer conveniente).

    Badiou em Ser e Evento convoca Pascal, digamos assim, em defesa da novidade (Event) cristã e parece trazer alguns ecos do que poderá estar em causa nesta questão que o Pedro entreabre –

    e.g.

    “Pascal ‘s particular genius lies in h s attempt to renovate and maintain the evental kernel of the Christian conviction under the absolutely modern and unheard of conditions created by the advent of the subject of science . Pascal saw quite clearly that these conditions would end up ruining the demonstrative or rational edifice that the medieval Fathers had elaborated as the architecture of belief. He illuminated the paradox that at the very moment in which science finally legislated upon nature via demonstration, the Christian God could only remain at the center of subjective experience if it belonged to an entirely different logic, if the ‘proofs of the existence of God’ were abandoned, and if the pure evental force of faith were restituted.” (Badiou, A, “Being and Event”, Ed. Continuum)

    • ppicoito diz:

      Vai uma certa confusão na cabeça do Badiou sobre o que era a teologia medieval, mesmo supondo que ele transmite com fidelidade o pensamento do Pascal (que era jansenista, convém não esquecer, ou seja, não era um católico ortodoxo). A oposição entre fé e razão é tipicamente moderna e tem uma origem cartesiana: nunca houve nada de semelhante ao fideísmo na Idade Média, pelo menos como experiência intelectual. O misticismo da devotio moderna e afins é outra coisa. Em todo o caso, o que quis dizer, talvez com pouco acerto, é que Ratzinger acredita realmente que o poder, para ser justo, implica uma ética e que essa ética é racional e livre, ou seja, não depende das circunstâncias, mas dos agentes. O que vemos na política é geralmente o contrário disso. Daí a distinção de Max Weber entre ética de convicção e ética de responsabilidade, uma distinção que levantaria provavelmente muitas reservas à acção de Ratzinger como governante da Igreja.

  5. caramelo diz:

    “Grande Papa low profile” é contradição nos termos. A maior função de um Papa é a pastoral e nisso o João Paulo II ainda é imbatível. Evangelizar a Europa é um caso perdido. Não surgem aqui (nem em lado algum) mais fiéis, nem mais vocações, por se evocar são Bento ou se dialogar com Habermas. Teria feito melhor em dar atenção sobretudo à América Latina, onde os movimentos evangélicos estão bem implantados, e de onde provavelmente sairá o próximo chefe da Igreja, para recuperar o tempo perdido. Ou a África, também bem colocada para a corrida. Virá o tempo da Ásia, provavelmente, no prazo de 100 anos, da China, se não for antes (talvez um dos bispos “oficiais”, com a bênção do partido…). Acredito que a sua renúncia tenha a ver com a vontade de dedicar os seus últimos anos de sanidade mental ao estudo, coisa que ele talvez já desejasse fazer há algum tempo, em detrimento do governo das trapalhadas e escândalos do Vaticano.

  6. ppicoito diz:

    É natural que considere uma contradição nos termos: a sua lógica não é a minha. Nem sempre a projecção mediática é o que importa (sobretudo quando se tem a irritante mania de acreditar que há mais mundos para além deste, e não estou a falar de marcianos). De qualquer modo, dou graças a Deus porque há sempre alamas caridosas para explicar aos católicos quem é que deve ser Papa e o que deve fazer um Papa. Transmitirei os seus conselhos ao Conclave via o Cardeal mais próximo. Já agora, como saberá, os bispos oficiais chineses, supondo que se esteja a referir à chamada Igreja patriótica, estão ainda fora da plena comunhão com Roma, o que levanta alguns obstáculos à sua eleição papal. Nada que um milagre não resolva, mas nós, pelo que vejo, somos ambos homens de fé.

    • caramelo diz:

      Bem, Pedro, eu, como sou baptizado e ainda não fui excomungado, ainda sou membro da Igreja Católica. É natural que tenha tanta legitimidade para falar da eleição do Papa, como da nova gerência dos corpos sociais ali do clube recreativo do calhabé, e ainda mais interesse porque a coisa ultrapassa o âmbito dos concursos de pesca à tainha. E tenho tanta influência no conclave como o Pedro. Não percebo uma resposta tão defensiva da sua parte. Tenho muita pena, mas o tema desperta interesse global e eu apenas estava a comentar, de forma que julgo séria, o papel deste Papa e possíveis cenários sobre a eleição. Continuo a achar que este Papa era mais teólogo do que Papa. Sempre foi uma eminência parda do Vaticano e foi elevado a uma posição que provavelmente não teria desejado. Parece que provocava alguma excitação em alguma intelectualidade conservadora europeia muito ciosa do rigor nos conceitos, na ortodoxia, que o pessoal acha que se perdeu, o que estará a provocar a decadência da civilização europeia, nhénhénhé, que é o paleio de tipos como o Viegas, um tipo que liga tanto à Igreja como eu, mas que acha que é fino dizer essas coisas.
      A eleição do novo Papa não vai ser inspirada pelo Espirito Santo, mas por razões geo-estratégicas. Eu sei que os bispos da Igreja patriótica da China estão ainda fora da plena comunhão com Roma, mas é como diz: nada que um milagre não resolva.

      • ppicoito diz:

        Ok, não resisti a brincar um bocadinho consigo. O seu comentário fez-me lembrar os jornalistas que, como de costume, não vêem o essencial que está à vista de toda a gente, mas empilham superficialidades totalmente ao lado sobre este papa e o próximo.

      • caramelo diz:

        Pronto, levei com o drone do essencial versus o superficial e lixei-me. Devo ter de ler latim de trás para a frente e matar uma galinha preta, para pescar alguma coisa disto. Só um conselho: o Pedro vote é num tipo que as velhinhas possam colocar em cima da mesinha, sem que os netos se assustem. E então, o raguebi? A minha douce France anda mal..

  7. João. diz:

    De minha parte julgo que a questão pascaliana é a mais actual, ou seja, o que pode oferecer a religião cristã ao sujeito ateu que não dispensa a ciência? Uma religião que não converte condena-se à extinção e por isso talvez Pascal gostava mais de falar para os ateus nihilistas, como diz mais ou menos Badiou, do que para as autoridades religiosas. O discurso do Papa, na visão fragmentada que eu tenho, parece-me insistir acima de tudo na conceituação ética, mas tal como a ciência consegue laborar dispensando a religião também o discurso ético é capaz de o fazer, de modo que, a meu ver, insistindo, é que especificidade consegue o pensamento religioso trazer aos temas a que se dirige de tal modo que ao mesmo tempo os que dão de face com esse pensamento possam encontrar nele um relevo que é também sinal da singularidade cristã.

    • João. diz:

      Julgo que para aqui a questão da aposta pascaliana é genial. Ela não disputa com a ciência, nem disputa ainda com a ética da polis mas, a meu ver, é singularmente religiosa, ou seja, só faz sentido pressupondo a questão religiosa e no caso, a meu ver, permite a retomada da singularidade do cristianismo, ou se quisermos, a singularidade de Cristo e do estar em face de sua pessoa. Veja-se que, a meu ver, esta aposta esteve presente também nos apóstolos, nos seguidores de primeira hora. Foi preciso que os apóstolos apostassem em Cristo, na sua divindade, se a sua adesão ao Evento foi livre. Sem esta aposta a adesão dos apóstolos a Cristo ou teria sido alguma forma de oportunismo ou alguma forma de intervenção divina sobre a sua vontade; sendo que em nenhum dos casos se firma o conceito de uma experiência religiosa que envolva não só uma novidade radical como ainda um acto de liberdade.

      Sinceramente penso que isto se perdeu na Igreja já há bastante tempo.

      • João. diz:

        Não é que a igreja não fale nisto, que o Papa não o mencione nos seus discursos mas, a meu ver, não consegue saír da abstracção ou quando o faz segue para a tentativa de moralizar. Mas isto deixa sempre a questão: porque razão eu haverei de dar especial atenção à moralidade da igreja católica; porque razão não é fundamentalmente uma moralidade como outra qualquer, cuja distinção quanto aos seus efeitos não precisa de mais nada do que o que já serve para todas as distinções entre propostas morais – nomeadamente o pensamento filosófico sobre esta matéria?

  8. João. diz:

    (coloquei o meu comentário em partes porque o blog pareceu-me não estar a aceitá-lo em bloco)

    • ppicoito diz:

      Tem razão quando diz que a fé é colocar-se diante de Cristo, tudo é resto é moralismo. O Cristianismo não é uma moral: é acreditar que Cristo é Deus. A moral vem daí e, se não vem daí, não faz sentido. Mas não tem razão quando diz que isso se perdeu na Igreja ou que é uma abstracção para o Papa. Não por acaso, a investigação teológica de Ratzinger, mesmo depois de eleito Papa, tem por centro a pessoa histórica de Cristo, como mostrou nos três volumes da obra Jesus de Nazaré. O mesmo se passa nas suas encíclicas (e vale a pena lê-las sem preconceitos). Toda a gente dise que a Deus Caritas Est é sobre o amor (caritas), e com razão, mas a maioria esqueceu-se de que título significa Deus é amor e a prova do amor de Deus não é qualquer xaropada sentimentalóide, mas um facto que exige a nossa fé: a encarnação de Cristo.
      Quanto à conversão, não é apenas uma questão de alguém ser convencido com argumentos racionais. Não era isso o que o Pascal dizia (lembre-se: o coração tem razões que a razão não conhece). As grandes conversões da história, mesmo depois de terem percorrido um caminho intelectual de dúvida e resposta, são muitas vezes inexplicáveis. Por uma razão simples: são um dom de Deus e um acto de liberdade do homem (o que não é contraditório). Basta pensar como Santo Agostinho narra a sua nas Confissões, aliás um dos livros preferidos de Bento XVI.

  9. […] hoje um ano que Bento XVI abdicou. Na altura, escrevi um balanço pessoal e a quente do pontificado de Ratzinger. Se tiver tempo, deixarei aqui, em breve, as minhas impressões sobre o Papa Francisco e estes […]

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