Lidos velhos & novos ( VII)

1) Muito , muito bom. Dezenas de mortos que nem recruta tiveram, um cabo em ceroulas a safar uma barcaça no meio  do fogo inimigo, praças assarapantados a confundir boches com hipópotamos. E muita empáfia dos homens de monóculo e bengalim, desordem logística monumental e portuguesa, uma  jovem república a querer ficar no pódio dos vencedores. Escrita  sã, toneladas de documentos, cartas, depoimentos . Vai a Quionga, vais querer sair de lá  com o rabo entre as pernas.

2) “A terra de meu pai “, uma coisinha arrancada ao esquecimento: Alexandre Pinheiro Torres, Plátano, 1972. Arranjei o original, quem quiser vai ter de esperar.  “O dia é uma opinião privada que os anos  tornam pública”. O arquivo da poesia faz-se, também , de resgates assim.

3) Recordar o início do califado. Recordar que  os comunistas iranianos foram passados a fio de espada pelos guardas da revolução ( não combina muito bem com  a miserável abertura de Argo, em que os revolucionários  são uns solidários justos  em luta contra aos mauzões do sha, pois não?).

FNV

10 thoughts on “Lidos velhos & novos ( VII)

  1. Luísa Correia diz:

    Depois do sucesso da sugestão nemesiana – realmente adorei! – não vou deixar de seguir estas, Filipe. Contudo… hesito em relação à primeira. Não sei se estarei preparada para rever uma certa imagem.

  2. João. diz:

    De minha parte, estando a algumas páginas de terminar o livro de C. Malabou, “The Future of Hegel: Plasticity, Temporality and Dialectic” e tendo Hegel como ‘um’ senão ‘o’ melhor encontro que tive com o pensamento humano deixo, como livro novo (embora já seja de 2005) o citado – muito bom para quem queira uma introdução ao pensamento de Hegel que não seja daquelas pasteladas da tese-antítese-síntese desenrolando-se feliz e mecanicamente tempo e história a fora.

    Como livro mais antigo, o clássico de Kojeve, “Introdução à leitura de Hegel”. São aulas que foram compiladas e reunidas por um de seus estudantes, Raymond Queneau. A forma não é muito sistemática mas o conteúdo é brilhante, enfim, melhor dizendo, a forma está no conteúdo. As aulas de Kojeve seriam tão brilhantes que pareceriam esmagadoras para os intelectos com ambições que as atendiam:

    “Each encounter with Kojève, recalled the French philosopher Georges Bataille, would leave the listener “broken, crushed, killed ten times over: suffocated and nailed down.”

    • fnvv diz:

      Tenho do Kojéve” O tempo e o conceito”: difícil mas como a minha tese foi sobre a temporalidade aguento mais ou menos.
      Vou inspeccionar esse Malabou, fiquei curioso.

      • João. diz:

        Malabou é uma essa – Catherine. A temporalidade (em Hegel) é um dos temas centrais do livro. O livro é suficientemente denso para não ser um passeio no parque mas suficientemente claro para valer a pena para quem um dia queira aproximar-se de Hegel antes de, ou sem querer, lidar com o bicho mais directamente. Eu comecei com o Kojeve e só depois passei para Hegel – cheguei a pensar que dada a potência da exposição de Kojeve – que em todo o caso, no livro citado, não aborda a totalidade da fenomenologia – me ia contaminar demasiado a experiência do texto; mas não. Hegel, como qualquer filósofo maior, transborda qualquer comentário e rapidamente faz esquecer o que trazemos connosco de comentadores prévios. Contudo um bom comentário é sempre um bom comentário e quando é excelente ainda melhor: Kojeve é genial na lide com a dialéctica do Senhor e do Escravo e suas implicações – é uma maravilha. Por seu turno, a excelência do trabalho de Malabou é pegar em algumas noções cujas virtualidades contêm vastos domínios do pensamento do alemão e tentar explicitá-las ao máximo. É essa explicitação que é capaz de uma excelente introdução ao, e interpretação do, projecto da Enciclopedia (Natureza, Lógica, Espírito) hegeliana; ainda que, como é evidente em quase todo o caso, não substitua o autor.

      • João. diz:

        Já agora…

      • João. diz:

        Só uma pequena precisão: a Enciclopédia na sua ordem de aparência é Lógica, Natureza, Espírito (e não como tinha escrito: Natureza, Lógica, Espírito).

  3. João. diz:

    Já agora, deixo uma referência a outro livro que comecei a ler há umas horas e que já me cativou:

    http://www.sup.org/book.cgi?id=17143

    É possível no link “Introduction” ler o primeiro momento do livro – a Introdução.

    • fnvv diz:

      também me parece bom. dê novas dele que incluo -o na minha série: que tal?

      • João. diz:

        Ok. Tentarei fazê-lo. Para já terminei o capítulo relativo à recepção de Kant à revolução francesa. Duas ideias gerais – cuja riqueza são também os pormenores que, no entanto, deixarei de fora dado o espaço e o contexto – que pontuam o capítulo são:

        de um lado as hesitações e até contradições internas aos textos kantianos que abordam a Revolução – alguns chegaram a suspeitar de senilidade; e de outro aquilo que para Kant foi o mais escandaloso, ou seja, não o terror propriamente dito, ou seja, a violência social, mas a condenação e execução do Rei – este é o grande crime para Kant chegou a ter quase proporções cósmicas ou apocalípticas – embora ao fim de contas Kant acabe ainda também hesitante quanto a levar a sua posição às últimas consequências: estas consagrariam a realização da vontade diabólica que Kant define mas considera impossível. Esta vontade diabólica significa uma razão que

        “it is a self-repulsion of reason against reason (…) – a desire to transgress for the sole purpose of transgression, unperturbed by pathological incentives, uncontaminated by self-regard, indifferent to consequences, undistracted by temptation, clear-eyed, unsentimental, scrupulous in its honesty, unswerving in its comitment – in other words the very image of moral purity and rigour” – ou seja, uma vontade com todas as qualidades da vontade determinada pelo perfeito desinteresse particular mas, ao invés, dedicada ao mal.

        Ao fim de contas, para Kant, mesmo o regicídio que chegou a aproximar-se do conceito de vontade diabólica terá que ter tido motivos patológicos que em Kant significam, grosso modo, interesses particulares. No fim de uma longa nota de roda-pé numa de suas obras Kant finalmente diz que o regicídio terá sido motivado por algum tipo de receio em vez do conceito de vontade diabólica.

        Numa nota à parte a revolução francesa, para Kant, seria análoga ao terremoto de Lisboa mas na medida em que a primeira é uma catástrofe moral.

        Vale a pena ver também os aspectos jurídicos do julgamento do Rei: ou seja, como se pode julgar um Rei pelo crime de ser Rei quando não havia no momento em que se tornou Rei uma lei que o determinasse como crime? Isto foi objecto de apaixonantes e extremados debates. Kant toma também o seu partido. O livro dá alguns pormenores sobre esta contenda que são de grande interesse mas isso fica, digamos assim, como isco para que se leia o livro ( e não é viável falar de tudo aqui).

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