Isegoria

Entre os cães e o lobo, prefiro o lobo, como dizia Verger.  Aconteceu-me o mesmo, há uns anos, no teatro Gil Vicente. Como uma  tipa  disse que eu fedia, acendi um enorme Romeo y Julieta,  churchill,  e recusei-me a sair.

Se isto alastra,  só fala quem os meninos deixarem.

FNV

52 thoughts on “Isegoria

  1. Jorg diz:

    Mais John Wayne:
    “I have found a certain type calls himself a liberal . . . Now I always thought I was a liberal. I came up terribly surprised one time when I found out that I was a right-wing conservative extremist, when I listened to everybody`s point of view that I ever met, and then decided how I should feel. But this so-called new liberal group, Jesus, they never listen to your point of view . . .”

    • João. diz:

      Look…! Is it a bird? Is it a plane?
      No! It’s John Wayne.

      Já agora porque é que a malta tem que ser a única a ouvir os “point of view” do Relvas? Porque não o Relvas ouvir os “point of view” da malta algumas vezes? Relvas falou, falou, falou (sugeriu até que Sócrates era uma vergonha para os filhos dele – e isto é um ataque que nem o BE nos seus dias iniciais fez a algum primeiro-ministro): agora bardamerda para o Relvas; lá terá que escutar se quiser e se não quiser que se fod@ (pardon my french).

      • fnvv diz:

        Para mim,m o problema não é Relvas, é passar a haver uma milícia qu edecide quem fala.
        Cuidado com o que desejas, diz o ditado, não é João?

      • João. diz:

        Certo. Estas iniciativas uma vez tornadas um hábito podem tocar a todos. Mas qual é a alternativa? Proibi-las? Julgo que não. É melhor correr o risco, penso eu de que. Uma bloquista, a Catarina Martins, não foi vaiada numa manifestação de que fazia parte? Os políticos não gostam de banhos de multidão quando lhes convém? Então, com banhos se limpam e com banhos se sujam.

      • João. diz:

        É isso Filipe. É o risco da política. Qualquer ideia que concretiza um objecto tem depois os seus acidentes. O que é essencial, o objecto ou os acidentes? A meu ver é a relação entre ambos. É isto que, basicamente, é o material da experiência.

      • João. diz:

        E neste caso, o que linkou de Espanha, não se saberá ainda quem sai a ganhar se ela ou se os que a insultaram. Como também há o risco de estas manifestações contra o Relvas gerarem novos simpatizantes do Relvas, os vencedores podem ser os derrotados, os derrotados os vencedores: a política é um bicho em movimento. Cada um que tome a sua posição.

    • caramelo diz:

      The poor boy…. jorg, isso foi durante ou depois da perseguição aos seus colegas esquerdistas em Hollywood, em que ele fervorosamente participou?

  2. João. diz:

    É assim, caro Filipe. O governo quis dividir o povo entre formigas e cigarras, entre empreendedores e piegas e o povo dividiu-se à sua maneira: entre os que aceitam ouvir Relvas e os que acham Relvas inaceitável. Talvez o governo pensasse que assim colocada a divisão os opositores ao governo se recolhessem envergonhados a um canto; pois bem tudo indica que talvez o governo se tenha enganado e, se o governo e os políticos têm a comunicação social para amplificar a sua mensagem, também a têm os demais se se organizarem.

    • fnvv diz:

      Sabemos como estas coisas começa, João. A isegoria, sempre.

      • João. diz:

        Sim, o Relvas tem muito mais tempo de antena do que os manifestantes. Os manifestantes têm aquele tempo de antena. Se não o usarem o Relvas chega, o Relvas fala, o Relvas volta para casa e a malta só ouve e cala.

  3. balde-de-cal diz:

    são apenas arruaceiros
    ‘o povo é quem mais ordenha’ acaba em ”povo sem ordenhado.
    povo são os sociais-fascistas que querem viver à custa dos contribuintes.
    não ganham nos votos, mas ganham nas ruas
    já me chamaram fascista e depois lambiam-me as botas se deixasse

  4. Relvas um lobo? Por Deus, Filipe!

    (agora sim, ‘a rat, a big, big rat’)

    • fnvv diz:

      bem, a zoologia fica à escolha, Carlos, o sentido é claro, claríssimo. Oxalá eu esteja enganado.

      • Eu percebi o alcance da sua questão, Filipe, e acompanho-o até certo ponto. Mas só podemos aferir caso a caso, e não me choca que cortem ou tentem a palavra a Relvas, porque uma pessoa é ela e as suas circunstâncias.

        (e, na verdade, se queria a palavra, que lutasse por ela. Afinal, segundo o patrão ou sopeiro dele (ainda não percebi bem), este mundo não é para fracos, verdade?)

      • fnvv diz:

        Por falar em Gasset, sabe que ando há anos para fazer nos blogues ( tambºém pensei na Ler e em tempos esteve para abrir uma revista coimbrã que não chegou a ver a luz do dia e isso foi motivo da minha conversa com Cunhal) uma divulgação da sua obra ( tenho-a completa. seis belíssimos e enormes volumes)?

      • Parece-me um belíssimo projecto, Filipe.
        Eu conheço superficialmente a obra de Ortega y Gasset, não mais do que isso, confesso (li 2 ou 3 livros; já agora: o que recomenda?). Conheço muito melhor a obra de uma aluna e discípula sua: María Zambrano.

      • fnvv diz:

        ui…tantos Maestanza, En torno a galileo, artigos, cartas, prólogos etc

      • Reformulo: o que recomenda para iniciados?

        (eu li “A Rebelião das Massas” e “O que é a filosofia?”, e tenho “Estudos sobre o amor”, mas não o li)

      • fnvv diz:

        Olhe, por exemplo, um pouco falado: El quijote en la escuela, normalmente agrupado nos Ensayos Filosóficos. A página tantas, Ortega diz que as pessoas têm a ideia de que a humanidade atravessa um período de selvajaria ( estamos em 1920). Ortega sublinha: as pessoas opõem a essa ideia as da cultura e civilização, mas não supeitam de que dentro dessa selvajaria está a forjar-se uma cultura e civiização superiores.

      • Muchas gracias, hombre! É isso mesmo que eu espero de quem conhece bem uma obra: a divulgação dos pouco falados. Vou procurá-lo e lê-lo.

      • fnvv diz:

        ora essa. mas olhe que o Ortega, ao olhos de hoje, é um perigoso “fassista”…

      • Eu sou de esquerda, Filipe, mas, dentro da esquerda, sou muito heterodoxo (o que explica que os meus amigos de esquerda, embora errados, me acusem de não ser de esquerda). Além disso, não leio só o que vai no mesmo sentido daquilo em que acredito — bem pelo contrário.

      • fnvv diz:

        Acho bem. Eu não sou de nada ( nem sou nada, aliás).

      • Mas, como o outro, à parte isso, tem em si todos os sonhos do mundo?! 😉

        (eu diria que é de direita no mesmo sentido em que eu sou de esquerda, mas de si sabe V.)

      • (clarificando: de uma direita não alinhada)

      • A Internet é um mundo. Caso algum dos seus leitores esteja interessado: http://www.revistas.usp.br/rfe/article/download/33508/36246.

  5. henrique pereira dos santos diz:

    Para mim isto é muito simples: o Governo está a pagar a figurantes para fazerem a mais eficaz campanha de reabilitação do Miguel Relvas que alguma vez alguém poderia ter imaginado.
    henrique pereira dos santos

  6. XisPto diz:

    Conviria distinguir. Uma coisa é o Relvas ser vaiado por alunos numa universidade que visita, outra são as milícias, sim, milícias, organizadas para vaiar e aparecer no telejornal. Basta estar atento aos fóruns e equiparados para o perceber.

    • fnvv diz:

      Na minha opinião, não. O que está larvar é impedir a fala. Começa pelo Relvas, veremos onde acaba.

    • João. diz:

      A meu ver convinha não exagerar no uso do termo milicias. Se aparecerem armados, militarizados até, então sim, temos milicias. Fora isso, o que temos só são milicias com a devida licença poética. Quanto ao mais as pessoas tem todo o direito de se organizarem e mandarem o Relvas para o crlo. Tão simples quanto isto. Se não gostam continuem a fazer o que fazem: apoiem o Relvas.

      • XisPto diz:

        O João tem a vantagem de nos impedir esquecer o que seria um tipo com uma certa ideologia colocado numa posição para julgar e condenar, como os juízes dos processos de Praga por exemplo. E tenho a certeza que dormiria tão bem como o nosso primeiro.
        .
        “Se não gostam continuem a fazer o que fazem: apoiem o Relvas”
        .
        A crítica a uma certa maneira de fazer oposição (uso crescente na AR de uma linguagem ofensiva (“ladrões”, “roubo”, “o governo vão sair pela porta das traseiras”, etc), assistência impávida e serena de indignados a tentativa de assalto à AR, etc) não significa apoio ao governo ou ao Relvas, como ensaliva de imediato. Relvas deveria ter sido demitido quando mentiu descaradamente na AR no caso do espião, e por muitas outras coisas posteriores, não por usar da palavra num regime democrático. A confusão com coisas simples ainda o vai “transformar” numa vítima.

    • caramelo diz:

      Ui, ui, milicias, sim milicias, organizadas para vaiar e aparecer no telejornal. Olha o despautério. Ainda se fossem malucos no máximo em grupos de três que se encontrassem a uma esquina e se passassem docemente da cabeça de vez em quando, à hora da novela, democratica e respeitosamente…

  7. caramelo diz:

    Filipe, não és tu que gozas com os meninos por serem só paleio e não se atreverem a fazer a revolução? Só Zizek, só Zizek. Então?… Mas acho que não tens de te preocupar com estas cenas. São pequenos movimentos tectónicos. Das duas, uma: ou se cumpre a promessa do governo que isto volta ao sítio, e então tudo acalma, ou a situação agrava-se, e aí vai ser muito pior do que essas imagens. O risco não parte desses jovens, não é da parte deles que isto abala; é cão que ladra e não morde, não por enquanto. É fácil vê-los como caricaturas, mas alguns deles já sentirão dificuldades em manter-se nos estudos e sentirão as dificuldades dos seus pais, ou de colegas. O Pedro Picoito diz ali em baixo que as pessoas podem perder a paciência e tem toda a razão. Deixa os miúdos crescer, chegar cá fora e misturarem-se com o resto do barril de pólvora, que ainda está silencioso. Quem sabe, pode até ser que sejam eles a pôr água na fervura.
    A revolução está a ser feita pelo governo, não pelos meninos. E o silêncio forçado é mesmo para as pessoas comuns, o medo de falar provocado pela precariedade, a depressão, etc. Alguns que já terão pouco a perder, desopilam a insultar os do governo.
    A fábula do lobo e dos cães tem um conteúdo preciso; a questão é mesmo zoológica. Não me parece que se aplique aqui, pelo menos, não da forma que tu pensas. O “lobo” saiu dali com um sorriso de triunfo, como as hienas.
    Com isto tudo, ia-me esquecendo de te perguntar: mas a que raio é que tu fedias no Gil Vicente?

    • fnvv diz:

      Ou bem que há queijo ou bem que não há.Se não há, se estamos em democrcia, tem de haver isegoria. Se formos para período revolucionário, então não se venham queixar de umas bastonadas e de estar duas horas sem comer numa esquadra.
      Gil Vicente? Ora, foi no tempo em que participava em debates organizados pela RUC e pela reitoria e tal. Nessa noite levei à loucura o tipo do SOS Racismo. Para aí em 95-96.

      • caramelo diz:

        Tenho boa impressão de um tipo do então PSR, o José Falcão, que esteve (ou está) à frente do SOS Racismo. Quem o conhece diz-me que é um tipo decente e generoso; não terias de te preocupar com ele.
        A fumar romeo y julieta ao pé dos camaradas, heim? 😉 Mas olha que poderias perfeitamente partilhar uma boa charutada com alguns.

      • fnvv diz:

        Foi esse mesmo, mas não foi com ele que me preocupei ( um lingrinhas). Disse-me que eu o tinha irritado mais do que o Nuno Rogeiro.

      • João. diz:

        Estamos agora mais próximos da isegoria do que estávamos antes. Nunca vi um ministro “isegórico”; um que fosse para uma iniciativa destas disposto a ter o mesmo tempo para falar do que todos os demais presentes que quisessem ter a palavra. A tradição sempre foi a de ouvir o ministro e depois talvez abrir um momento de perguntas para o ministro se o ministro quisesse; a tradição sempre foi o ministro ter o controlo dos tempos destas iniciativas. O que acontece agora é mais isegoria do que antes. Ou seja, se o ministro não está disposto a escutar em pé de igualdade estas assembleias de gente a que vai as assembleias de gente cada vez mais estão indispostas a estas indisposições do ministro.

      • fnvv diz:

        Péricles também teve mais tempo de antena do que os atenienses.
        “Não falarás” não faz o meu tipo, cheira a dez mandamentos.

      • João. diz:

        Não é um “não falarás” que de facto tem essas proporções bíblicas que com muita graça o Filipe menciona; é mais um: “não falarás sem nos ouvir também”.

  8. António diz:

    Assim como Marx disse que a inteligência militar era uma contradição nos seus termos, permitam-me pensar em voz alta: Clube dos Pensadores/Relvas…

  9. Bone diz:

    De facto, ouvi alguém gritar cala-te! várias vezes, mas foi o chefe de cerimónias e não se dirigia a Relvas. Dissonância cognitiva, fnvv?

  10. João. diz:

    Em todo o caso concedo que o protesto sistemático talvez ganhe se for feito mais à entrada e saída dos eventos e menos durante. Mas sublinho “menos”, ou seja, não digo que é ilegítimo, enfim há lugar também para acções mais incisivas como as reportadas pelo post.

    Se banqueiros podem convencer, chantagear, os governos a assumir em nome do Estado 12 mil milhões junto da troika então a malta também pode e deve interromper um discurso de governantes para mandá-los para qualquer lado. Afinal 12 mil milhões não são peanuts e se o povo é obrigado pelo governo a assumir a rebaldaria dos bancos parece-me adequado que existam momentos mais quentes como este com o Relvas.

    E parece-me, sinceramente, que fazem faltas acções como estas dedicadas aos banqueiros. Era de começar a descobrir as agendas públicas deles e aparecer lá para lhes dar uma sessão de insultos cabeludos. Como eles gostam de dizer, não há almoços gratis. Talvez esteja na hora de começar a apresentar-lhes alguns custos.

  11. Miguel diz:

    Sim, estou de acordo com o princípio da isegoria. Mas não sem estabelecer algumas condições prévias: que a efectiva universalidade da isegoria seja assegurada, que as regras de funcionamento das instituições e dos seus actores sejam claras, justas, consensuais e sejam postas em prática. O problema com o Sr. Relvas é que sabemos que, no minimo, ele violou as regras académicas, isso foi tornado público, ele não se retratou,
    ficou impune e ainda se arroga o direito de continuar a ser nosso representante político. Creio que, neste caso, quem não está a ver o seu direito à isegoria respeitado é o conjunto dos cidadãos portugueses.

  12. Bone diz:

    Tem razão, fnvv, mas é compreensível que o seu “só fala quem os meninos deixarem” me tenha remetido para esse episódio, o único em que alguém foi mandado calar.

    • fnvv diz:

      Não foi único. Se eu apagasse ( o equivalente aos berros e ao enxotar) o seu comentário não a mandava propriamente calar, mas calava-a, não é?

  13. Bone diz:

    I rest my case.

  14. p D s diz:

    FNV,

    assim a “grosso modo” e “retorcendo o exemplo” para chegar ao “ponto”, deixe-me lançar uma inocente questão:

    – Aqui átrasado, não foi um senhor qualquer do Governo, que terá telefonado para um Jornal a solicitar que determinada jornalista e determinada matéria fossem silenciadas ?

    – Não foi tambem por essa mesmissima ocasião, que foram lançadas ameaças de divulgação da dados e informações do foro privado da respectiva jornalista ?

    Pois é! eu percebo o seu ponto, e a questão dos “cães e do lobo”, e reconheço que é preocupante, no entanto, existe um contexto e um sujeito especifico e concreto.

    Embora se corra o risco de “pegar moda” e tornar-se habito, julgo que devem ser analisadas as circunstancialidades historicas intrinsecas á personagem em causa.

    Olhando a realidade com mais afinco, pergunto:

    e os varios e distintos “cães” teem ladrado a mais algum “lobo” ?

    Aqui chegados, parece-me que embora o “padrão” que identifica possa ter riscos/aproveitamentos/abusos que se podem em teoria generalizar…parece-me que no caso concreto este “Lobo” é um caso particular e tem um tratamento que deriva da sua peculiaridade intrinseca.

    Ou seja, a personagem por si só justifica e alimenta a “pressão” que lhe é direccionada.

    Não me parece, tratando-se na metafora de “cães” atrás de um “lobo”, que a “raiva dos canideos” esteja fora de controlo e direcionada tambem para as “galinhas” e “porcos” do curral….!

    E obvio que concordo com os perigos da generalização, e tambem não me parece que actos como os de ontem tenham resultados minimamente positivos…

    …mas carambas : È O RELVAS… a botar faladura numa Universidade….”…dasss!!!”
    e são ou não são os “cães” os melhores amigos do Homem ? ,o)

  15. João. diz:

    Já agora Filipe permita-me inverter os termos do seu receio.

    Você diz que se começamos com estes protestos, onde acabaremos?; eu direi também se começamos com esta indignação com estes protestos onde acbaremos – leis mais restritivas, criminalização, infiltrações de serviços secretos; dossiers sobre manifestantes para chantagens…?

    E já agora:

    http://www.dn.pt/especiais/interior.aspx?content_id=3063016&especial=Revistas%20de%20Imprensa&seccao=TV%20e%20MEDIA

    – como se percebe os políticos estão cheios de medo do povo. Deve ser por isso aliás que já estão a enviar familiares e amigos para o estrangeiro.

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