Selecção natural

Cruel ironia. Na semana em que o Primeiro-Ministro descreve a economia portuguesa com outra das suas trôpegas platitudes (“a selecção natural das empresas que podem melhor sobreviver está feita”), ficamos a saber, pelo Público, que nove empresários da restauração se suicidaram nos últimos três meses e 11 mil empresas do sector foram à falência. José Manuel Esteves, secretário-geral da Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, acrescenta que se trata muitas vezes de “microempresas de cariz familiar, e por isso as consequências são ainda mais gravosas”.
O Governo, entendamo-nos, não é directamente responsável por estas mortes. Mas a crueza dos números mostra a realidade, na vida das pessoas, do “processo de ajustamento” que Passos quer fazer passar por certo, neutro e necessário como uma lei da natureza. Vivemos acima das nossas posses? Pois agora morremos abaixo das nossas posses. As espécies, quando não se adaptam, extinguem-se, lá dizia o Sartre.
Se o Primeiro-Ministro tivesse um bocadinho de mundo fora das jotas, das empresas dos amigos e dos concursos ganhos pela mão do Dr. equivalente Relvas, saberia que há metáforas venenosas. Sobretudo se vêm de um parasita que sempre fugiu à “selecção natural” pela troca de favores com hospedeiros bem colocados. A selecção natural actua por pequenos passos, mas até as espécies condenadas podem perder a paciência.

PP

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11 thoughts on “Selecção natural

  1. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Pedro, ao láparo Passos Kandimba falta sobretudo a visão ecossistémica das séries televisivas de Sir David Attenborough e o crasso desconhecimento da descoberta do “limiar de coesão” feita nos idos de ’80 pela equipa multidisciplinar coordenada pelo Prof. Eng.º Fernando Carvalho Rodrigues: é o que dá fazer o respectivo cursilho em universidades da farinha Amaparo…

  2. Daniel diz:

    Eu pergunto-me se grande parte dos individuos que compõem o nosso governo não sofrerão qualquer tipo de sociopatia…

  3. balde-de-cal diz:

    esta porcaria social-fascista está irremediavelmente falida enquanto não se alterar a mentalidade do comum dos portugueses.
    entre outras coisas confunde os factos com o que gostariam que fosse. acima de tudo desonestidade intelectual.
    se o governo é ultraliberal as empresas ou são boas ou fecham portas.

    apoio o pensamento de Emma Goldman se isto é uma democracia (para mim não é)
    «as democracias são regimes fascistas disfarçados»

    ‘roba da pazzi’

  4. Estou como os nosso deputados (salvo seja): muito bem, muito bem!

  5. JCL diz:

    Tudo pela rama…
    Do Darwin só sabe(m) uma frase. Falta-lhes algo mais. O resto da história da ciência por exemplo… (aqui http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_evolutionary_thought )
    Podiam começar por ler isto só para desenjoar e perceber que afinal a vida não é bem assim… http://en.wikipedia.org/wiki/Punctuated_equilibrium de Stephen Jay Gould (esse mesmo http://en.wikipedia.org/wiki/Stephen_Jay_Gould )

  6. Pedro: muito apoiado e quando nos encontrarmos por aí serás por mim muito cumprimentado. Parabéns e um abraço.

  7. João. diz:

    Se não me engano há um capítulo na “Fenomenologia do Ser” de Sartre sobre a Selecção Natural. Acredito que tenha sido lá que Passos se instruiu. Não é culpa dele, portanto, if it came up short, mas de Sartre.

  8. Duas coisas ditas por duas notórias personagens a que ninguém parece ter dado muita importância:
    António Borges, sempre sincero, displicentemente sincero: “o Governo está a limpar a economia.” As palavrinhas nunca são inocentes. Ele disse “LIMPAR a economia” Ora, meus queridos, o que é ‘limpar’, hum?… Também poderia ter dito “está a varrer a economia”. Nesse sentido, essas empresas foram limpas. E esses empresários suicidas também.
    Há pouco tempo, o brilhante Vitor Gaspar saiu-se com esta: “É precisa uma mudança estrutural da sociedade portuguesa.” Sim, ele disse ESTRUTURAL e SOCIEDADE. O homenzinho deve julgar-se Platão ou Karl Marx.

    Ora, quando um governo tem um programa revolucionário para o qual, como é claro, não foi eleito, que resposta merece? Isto é, quando um governo tem um programa para martelar “revolucionariamente” um país, quando procura fazer um país novo, como pode o “povo” defender-se desses programáticos tarados? Tudo se passa como se houvesse uma declaração de guerra de um Poder a um país. Está-se, em casos destes, a um ou dois passos da legitimação da “violência”. Em legítima defesa do país relativamente ao seu próprio governo.
    O problema e a dificuldade está na fundamentação teórica da “violência”. Se ela não for assim fundamentada, gera-se somente a partir duma raiva sentimental – inconsequente, dá-se por surtos e pode ser contraproducente. Não fundamentada, pode também ser vítima da reacção sentimental dos seus efeitos: por exemplo, quem está preparado para ver a cabeça de Passos Coelho ou de Relvas a sangrar? Essas hemorragias públicas, resultantes de fúrias inorgânicas, facilmente jogariam a seu favor. Então, que fazer? Como pode um país defender-se de semelhante gente?…

  9. Por outro lado, e este mais um sinal de quão perigosa é esta gente, as frases do primeiro-ministro revelam como não há nada naquela cabecinha. O homem não pensa e então socorre-se da primeira parvoíce sonora que alguém lhe sopra no vazio craniano. Ele sabe lá das implicações do que diz!
    (Que esperar duma personagem que leu na adolescência(!) um livro de Sartre (!) que este nunca escreveu?…

  10. Mais perigoso é um eleitorado que só quer mama, mais mama no dinheiro dos outros, e confrontado com o insanável dilema entre arrasar o Estado que criaram (e no qual ainda crêem) ou calar e morrer, deixam passar o tempo – anos – sem pegar na forquilha e correr com estes, ou outros, cabrões de lá para fora.

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