Órfãos de Sócrates procuram liberais para adopção gay. Assunto sério

O artigo de Miguel Vale de Almeida sobre a adopção por casais homossexuais, no Público de hoje, ajuda a perceber a acrimónia dos órfãos de Sócrates com António José Seguro. Depois da vitória do casamento gay na anterior legislatura, o actual PS não tem feito muito pela causa. Com toda a gente preocupada em sobreviver à crise, a questão revela-se o que realmente é: uma bandeira de minorias. E o combate à austeridade parece ser agora a única bandeira no Largo do Rato. Daí o apelo de Vale de Almeida a que os socialistas voltem a pensar na felicidade dos gays, apelo também lançado aos “liberais” do PSD e do CDS (que, afinal, sempre servem para alguma coisa). Curiosamente, os “liberais” do BE e o PCP ficam de fora, talvez por serem uma minoria sem direitos.
Tenho sobre isto uma posição que mudou com o tempo. Fiz campanha contra casamento entre homossexuais, como é sabido (menos pelos meus camaradas de blogue, que se esqueceram de tal prova de atraso civilizacional quando nos juntámos aqui), mas nunca vi grandes razões jurídicas contra a adopção por homossexuais. Se a lei lhes permite o casamento (e um dos argumentos contra é que o matrimónio se destina em grande parte a proteger um efeito natural da união heterossexual: a procriação), não há razões legais para que ao casamento não se siga a adopção.
Pensava eu de que. Há uns meses, no entanto, por via de uma crónica na Renascença e de uma polémica com a Ana Matos Pires que deixou o Jugular ao rubro, levando a Fernanda Câncio à histeria de usar os meus filhos como argumento, mudei de opinião. Passei horas na internet a ler estudos sobre a matéria, ciência algo bizarra, e uma das conclusões a que cheguei é que as uniões gay são estatisticamente muito mais instáveis do que as hetero. Hoje, penso que a adopção por homossexuais comporta riscos para as crianças que a lei não pode ignorar. Isto, claro, se estivermos de acordo que a felicidade das crianças vem antes da felicidade dos gays. Ah, e que a adopção não é um direito nem uma bandeira.
Não sou, portanto, um dos liberais que farão avançar a pátria rumo ao progresso. Está dito. Sintam-se à vontade para me insultar na caixa de comentários (mas aviso que histerias à Câncio vão direitinhas para o caixote de lixo).

PP

44 thoughts on “Órfãos de Sócrates procuram liberais para adopção gay. Assunto sério

  1. Pedro Picoito, encontramos sempre estudos para justificar posições divergentes. Mas o que me faz confusão nesta questão da adopção por casais constituídos por pessoas do mesmo sexo é o seguinte: uma das grandes reclamações que ouço de casais que pretendem adoptar é o tempo que o processo de adopção demora porque, supostamente, os técnicos querem conhecer bem os casais, que são sujeitos a uma avaliação. Ou seja: cada caso é avaliado individualmente. Sendo assim, qual é o problema?

    • ppicoito diz:

      Dois: risco estatístico e instrumentalização das crianças.

      • Risco estatístico deve existir em ambas as situações; daí a necessidade de avaliar casuisticamente. Nessa avaliação, caberá a quem de direito verificar se os futuros pais efectivamente reúnem as condições necessárias (e, mesmo assim, evidentemente, existirão sempre riscos).

        (quanto à instrumentalização das crianças, devo dizer-lhe que, se for a pensar nisso, pelo que conheço — através de amigos advogados que tratam de processos de divórcio e de situações que acompanhei de perto –, a partir do momento em que um processo de divórcio tem início, os filhos seriam logo retirados aos pais — a instrumentalização dos filhos é enorme)

      • Anthony bourdain. diz:

        Por isso existe a avaliação individual (e não estou a dar de barato que esse risco exista).

  2. PM78 diz:

    O Pedro tem noção que:

    1 – Pessoas solteiras podem adoptar em Portugal e isso não constitui escândalo público nem motiva protestos
    2 – Os casais de lésbicas são considerados os mais estáveis – mais, na média, que os heterossexuais, pela ausência do factor desestabilizador “cromossoma xy” na relação
    3 – Há países, como os EUA, em que o casamento gay é um tema fracturante, mas a adopção, que se pratica há muitos anos sem que o mundo tivesse acabado, não é

    Para quê combater tão acerrimamente alguma coisa que as pessoas se cansaram de temer. Deixar de temer é muito mais forte do que “aceitar”.

    Cada caso é um caso, cada casal é um casal, cada pai potencial é um pai potencial. E cada criança é uma criança.

    Se já se aceitam adopções por pessoas solteiras – ou seja, uma situação que não é a ideal pai+mãe – é muito duvidosa a sustentabilidade, a longo de prazo, de impedir a adopção por casais de homossexuais.

    • ppicoito diz:

      Carlos Azevedo, o risco seria maior com os gays. E quando falo de instrumentalização, estou a pensar em isntrumentalização política.

      Anthony Bourdain, sim, mas repito que estou a falar em termos gerais.

      PM78,
      1-Sim, mas não é assim tão frequente.
      2-Não estou assim tão certo, teria que ir rever os tais estudos.
      3-Não, não tenho nada essa noção.
      E, finalmente, a adopção por pessoas solteiras, sempre invocada, talvez não seja o ideal.

      • Pedro Picoito, quanto ao seu primeiro argumento, como lhe disse antes, é através da avaliação casuística que se resolve, e não limitando o direito a adoptar e a ser adoptado; quanto à instrumentalização política das crianças, devolvo-lhe o argumento: parece-me que quem é contra a adopção também não se importa de instrumentalizar as crianças, limitando a sua possibilidade de serem adoptadas por um casal gay que reuna todas as condições só e apenas porque ainda não ‘engoliram’ o casamento gay.

        Deixo-lhe um caso prático: um dos casos possíveis de adopção é alguém adoptar plenamente o filho do cônjuge. Parece-lhe normal que num casamento entre pessoas do mesmo sexo um dos cônjuges esteja impedido de adoptar o filho do outro? Pense em tudo o que está implicado (segurança da criança em caso de morte do progenitor/a; questões sucessórias, etc.).

      • Miguel diz:

        a adopção por pessoas solteiras (… ) talvez não seja o ideal. – diz o Pedro.

        Vc. já se deu conta que quando se trata de adopção o ideal já ficou para trás? Trata-se de encontrar a solução que seja o mal menor. Será preferível que uma criança fique a cargo de uma instituição, se existir um casal homossexual responsável disponível para a adopção. (Aceito sem grandes problemas que, sendo o resto tudo igual, um casal heterossexual deve ser primeira escolha. Se o meu filho ficasse orfão e sem mais família, preferia que fosse criado por um casal homossexual fazendo parte de uma família a ficar a monte numa instituição. Família neste contexto não é pormenor menor.

  3. Pedro: junto a minha à tua voz no que à adopção de crianças por casais gays diz respeito. Também sou contra “casamentos” entre pessoas do mesmo sexo. Mas, lamentavelmente, nunca ninguém me fez caso…

  4. XisPto diz:

    Concordo globalmente com a sua posição,mas creio que dá uma importância excessiva ao “jurídico”, incluindo no “direito à adopção”, coisa evidentemente inexistente, e na prática conflituante com a ausência de reservas à adopção por um único gay. A adopção coloca, mesmo para quem aceita o casamento, o “problema” da ausência da “figura” de um sexo no desenvolvimento de um ser entregue pelo Estado. A sua recusa afigura-se uma manifestação de prudência. Já o impedimento de celebração do contrato por mais do que dois elementos se afigura incompreensível.

    • ppicoito diz:

      Carlos Azevedo, a avaliação é casuística, mas não deve esquecer princípios gerais de prudência, digamos assim. Por exemplo, acha que um casal de deficientes tem as mesmas hipóteses de adoptar que um casal de não dficientes? E porquê? porque, em princípio, têm mais dificuldades em garantir o bem-estar da criança. Podem ser pessoas óptimas, mas impõe-se alguma prudência. e antes que comecem a disparatar, esclareço que não, não, não estou a comparar gays e deficientes, estou apenas a levar a lógica ao extremo para se perceber melhor o meu ponto.
      Instrumentalização política: vejamos. Já disse que não vejo nenhum argumento legal contra a adopção gay se o casamento gay já está na lei. Não tenho, portanto, muito a ganhar politicamente com este debate. Ao contrário do activismo gay. Quem é que instrumentaliza as crianças? Quem as quer proteger de serem uma arma de arremesso na batalha dos gay pelo reconhecimento social ou quem as usa como uma arma de arremeso na batalha dos gays pelo reconhecimento social?
      O caso que cita é um bom exemplo de que, admitido o casamento gay, a adopção pode dar origem a um imbróglio jurídico. Mas é um caso diferente dos que estamos a tratar. Aí, a criança vive com o/a pai/mãe biológico/a, ou pelo menos o/a pai/mãe biológico/a é também o/a pai/mãe legal, e portanto nunca se trataria de uma adopção propriamente dita. Mas não percebo bem a questão. Morrendo o pai ou a mãe, qual é o problema de sucessão ou de segurança da criança? A sucessão está garantida pela lei, da segurança trataria o outro pai, se fosse vivo (e, se não fosse, isto já pareceria mais um romance do charles dickens que um caso jurídico).

      • ppicoito diz:

        Miguel, quando se trata da adopção não podemos optar pelo mal menor. O ideal não ficou para trás pela simples razão de que a felicidade das crianças não pode ser objecto de experiências. O facto de as crianças institucionalizadas nem sempre serem felizes não significa que devam ser adoptadas a todo o custo, ou seja, ao custo de serem tão ou mais infelizes numa “família” disfuncional. Aliás, toca num ponto interessante quando diz que está disposto a correr esse risco com os seus filhos. É que há muita gente que não está. E que tal levar o tema referendo, como já foi tantas vezes proposto?

      • Miguel diz:

        Claro que é de mal menor que se trata. O ideal já ficou para trás com a morte da mãe e do pai. Ou não?

        Não creio que a adopção por um casal homossexual, se devidamente enquadrada, tenha um “risco” especial relativamente aos outros. Provavelmente, e digo-o por intuição, é menos adequada porque as crianças terão algo a ganhar em ter um pai e uma mãe, mesmo que adoptivos. Daí a preferencia a dar aos casais heterossexuais. Mas o argumento torna-se manco quando a opção é a instituição. E não brinquemos com as palavras. A literatura está cheia de relatos na primeira pessoa do que significa crescer a monte numa instituição. seja de que tipo for. Ninguém cresce feliz numa instituição, porque ninguém é feliz numa caserna. So um louco furioso, ou um tipo que acha que os seus filhos não correm risco algum de ficar abandonados, é que defende que a instituição é preferível a uma família, que passou pelo crivo do processo de adopção, entenda-se.

        De qualquer modo, do ponto de vista do “risco” que invoca, não é necessário nenhum referendo, bastaria os pais indicarem a sua decisão quando registam o filho.

      • Pedro Picoito, a sua expressão «e antes que comecem a disparatar» é dirigida a quem? A mim? Gostaria que respondesse claramente porque da sua resposta, tal como está redigida, e sendo dirigida a mim, concluo uma de três coisas:
        1) ou afirma que eu costumo disparatar consigo, o que não é verdade;
        2) ou assume que usualmente não percebo o que escreve, o que também não é verdade (posso é não concordar);
        3) ou, usando o plural (“comecem”), parece que se arroga legitimidade de se dirigir a mim inseririndo-me em algum grupo (o ‘grupo’ dos gays?), o que, não lhe tendo eu dito nada a respeito da minha orientação sexual, seria do domínio da adivinhação.

        Passando ao que afirma sobre a adopção:
        1) os deficientes não estão impedidos de adoptar, os casais de pessoas do mesmo sexo estão (curiosamente, pessoas solterias podem adoptar, independentemente da sua orientação sexual), pelo que a comparação não faz sentido;
        2) as crianças podem ser arma de arremesso por ambos os lados, e expliquei-lhe claramente o porquê;
        3) a adopção plena pelo cônjuge do pai/mãe biológico(a) está tipificada na lei, que até diminui a idade necessária para se poder adoptar plenamente nestas circunstâncias. Morrendo o pai ou a mãe biológica, a criança pode ser retirada ao cônjuge deste(a) que a criou como tal, possivelmente durante anos. Isto não o choca? Questões sucessórias: o cônjuge do pai/mãe pode querer que o filho deste(a) herde como se fosse realmente filho, o que poderá não ser possível se, perante a lei, não se estiver perante uma adopção plena. Há muitos mais exemplos, claro. E sim, o mundo jurídico e o mundo em geral são muitas vezes mais complexos do que um romance de Dickens.

  5. caramelo diz:

    Estamos a falar de crianças concretas, não de bandeiras. Onde é que está o aproveitamento politico? O facto de em certos casos, os casais gays falarem das crianças, seus filhos, como exemplos de crianças saudáveis e felizes? Mas isso é o que acontece com os casais “normais”, sem que isso traumatize as crianças. Um casal gay não o poderá fazer, com orgulho, porquê? Quanto ao método estatístico da adoção, se afinal a única coisa que interessa é a felicidade das crianças, porque não estendê-la a qualquer caso? Vamos ver as estatísticas dos casais de bombeiros. São 5% mais propensos a não ajudar os seus filhos nos trabalhos da escola, ou a discutir à frente dos filhos, do que um casal de contabilistas? Coloquem-se os contabilistas à frente, ou elimine-se os casais de bombeiros dos ficheiros. O problema aqui é falar-se das crianças e adultos como entidades abstratas. As pessoas não são factores de estatítica, são pessoas. O que se deve verificar é se aquela criança fica bem como aqueles pais.
    Quanto ao argumento de que o único fator a ter em conta nesta conversa de ter ou não ter filhos, ser o interesse das crianças, daria também um grande debate.

    • ppicoito diz:

      Concordo: estenda-se o argumento estatístico aos bombeiros e contabilistas (embora me pareça que bombeiro ou contabilista não é orientação sexual, mas depois do que disse o Viegas dos fiscais de impostos já não sei).

  6. caramelo diz:

    Não sei. Nestas coisas da felicidade das crianças o único factor é a orientação sexual dos pais? Podemos ver para que lado, estasticamente, os bombeiros se inclinam. Os americanos é que são bons nests coisas da estatítica, mas podemos criar aqui um rico nicho de mercado para as empresas de sondagens. Uma vantagem dos bombeiros é que estatisticamente acorrem mais rapidamente a apagar os fogos ateados pelas crianças com caixas de fósforos.

    • ppicoito diz:

      Parece-me que o único factor não será a orientação sexual dos pais, mas tenho a leve impressão que a orientação sexual é um dos elementos que define ser homossexual ou heterossexual. Não deve ser apenas andar no Chiado depois das 8 da noite.

      • ppicoito diz:

        Miguel, a alternativa não é entre “instituição terrível” e “casais gays adoráveis”. Há muitos casais heterossexuais que esperam anos por adoptar e t~em todas as condições para adoptar. Não percebo porque é que, em nome da não discriminação, a lei deve ignorar os riscos de adopção por um casal gay. É esse o ponto.

  7. Miguel diz:

    “a lei deve ignorar os riscos de adopção por um casal gay. É esse o ponto”

    É um ponto obscuro, porque não se fica a perceber quais são esses riscos. Se se refere à estatística que apresentou há uns meses, e passando por cima da questão se se deve começar por estatísticas desse tipo, devo dizer-lhe que tem de ir refazer o seu trabalho de casa. O que vc. tem de comparar com os casais heterossexuais não é a “estabilidade” de todos os “casais” homossexuais, ou de todas os seus “relacionamentos” sexuais, ou todos os seus encontros sexuais. A comparação deveria ser restrita ao universo de todos os casais que pretendem adoptar. As idiossincrasias de todos aqueles que andam a dormir à esquerda e à direita, mas não são, nem querem ser, candidatos a adoptar são totalmente irrelevantes e desvirtuam a sua amostra estatística. Aviso-lhe que um trabalho estatístico desse tipo não se faz entre o almoço e o jantar de um domingo chuvoso.

    Concordo que seria melhor um casal heterossexual para adoptar, só que não se pode ficar 20 anos à espera de encontrar esse casal. Tem de se resolver a questão em tempo útil. Se há ‘n’ crianças que crescem em instituições, é porque faltam casais adoptantes.

    • Miguel diz:

      PS: eu não estou preocupado com a “discriminação” dos homossexuais no que diz respeito à adopção (com excepção dos casos em que se juntam seja ao pai ou à mãe biológicos, pela razão óbvia de não prejudicar os filhos complicando a vida de um dos seus pais biológicos); em geral, não se aplica pois a adopção não deve ser vista como um direito dos adoptantes, é um mecanismo legal que serve para resolver um problema muito grave de uma criança que ficou sem mãe e sem pai.

    • ppicoito diz:

      Pois, a chatice é quando se descobre uma correlação estatística entre homossexualidade e instabilidade afectiva. Aí, já se sabe, é preciso fazer mais trabalho de casa e as idiossincrasias de quem dorme com quem são irrelevantes.

      • Miguel diz:

        “quando se descobre uma correlação estatística entre homossexualidade e instabilidade afectiva”

        Isso não sei, não percebo o ponto. Apenas mais uma consideração de ordem geral. O trabalho estatístico é apenas o primeiro passo. Entre outras coisas, porque correlação não implica causalidade.

        Por fim, estou curioso, o que pensa da minha sugestão acima, não é uma solução plausível? Os pais quando registam o filho optam pela possibilidade de, em caso de acidente mortal de ambos, o filho poder ser adoptado por um casal homossexual, caso este cumpra os requisitos normais do processo.

  8. ppicoito diz:

    Carlos Azevedo, não estava a falar para si, estava a falar em geral. Quando o tema é a homossexualidade, já sei que todas as palavrinhas podem ser distorcidas. Não dou para o peditório da vitimização gay, é só isso.
    Quanto ao resto:
    1) a comparação tem limites e disse-o. o que pretendo é mostrar a regra com um caso extremo.
    2) já lhe expliquei que não tem razão, se não quer perceber, paciência.
    3) os casos a que se refere também incluem casais hetero. porque é que os transforma em problemas dos gays?

    • Pedro Picoito, já percebi que não vale a pena continuar nisto, até porque os termos e tom em que me responde não me agradam; estando o Pedro Picoito em sua casa, retiro-me eu.
      Em todo o caso, embora me pareça que fui claro, não deixarei de responder à sua questão: os casos que refiro são um problema apenas para os casamentos entre pessoas do mesmo sexo porque nos casamentos entre pessoas de sexo diferente a adopção é permitida nas situações que refiro, ou seja, não é um problema.

  9. ppicoito diz:

    Miguel, a sua sugestão significa que os riscos da adopção gay não devem ser levados em conta se os pais não quiserem. Mas convenhamos que a hipótese é um bocadinho rocambolesca, não é?

  10. miguel serras pereira diz:

    Caro Pedro,
    a minha ideia é que a lei deveria ser omissa na matéria: não autorizar nem proibir a adopção por pessoas do mesmo sexo – como não deveria sequer exigir que fossem necessariamente duas as pessoas que adoptam. A idoneidade requerida seria objecto de avaliação obrigatória para qualquer pessoa que se dispusesse a adoptar – e estabelecida caso a caso. Não pode nem deve ser avaliada estatisticamente.

    Quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, temos posições difernetes. No meu entender, penso que se combate a discriminação ou a desigualdade abolindo privilégios e não multiplicando-os. O estatuto de todas as uniões de facto – passassem ou não pelo comércio sexual, do qual o legislador não teria de averiguar para esse efeito – deveria ser o mesmo, e o casamento não deveria ter reconhecimento jurídico distinto. O que, fosse como fosse, não impediria a protecção dos menores gerados ou adoptados pela união. Uma solução desta ordem, sim, teria sido libertadora tanto para os homossexuais como para os outros, que também são gente. E, claro, não impediria que quem entendesse celebrasse também religiosamente ou consagrasse noutros termos, mas que não jurídicos, a sua união.

    Cordialmente

    msp

    • ppicoito diz:

      Caro Miguel, a minha posição, já o disse, mudou com o tempo. Também pensava não haver argumento jurídico contra a adopção por homossexuais, mas mudei de ideias quando me apercebi do tal risco estatístico. A questão não é considerar os gays como um grupo, mas a lei não pode ignorar que a homossexualidade está aparentemente ligada a uma maior instabilidade das relações. Isto tem óbvias consequências para as crianças adoptadas.
      O casamento é outra questão e, em princípio, não vejo nada contra uma regulação jurídica das uniões de facto homo ou hetero que contemplasse a sucessão, por exemplo. Mas não se iluda: o casamento gay (civil) tem efeitos sobre o casamento religioso porque este se toena automaticamente a próxima bandeira do actvismo gay contra a discriminação. Basta ver o que se está a passar neste momento em Inglaterra.

      PS: Nunca pensei trocar “correspondência” directamente consigo, mas aproveito para lhe agradecer a tradução do Presenças Reais do Steiner. Um dos livros da minha vida e uma das melhores traduções que já li.

      • miguel serras pereira diz:

        Caro Pedro,

        muito obrigado pela nota pessoal que entendeu acrescentar e cuja generosidade não sei como agradecer.
        Mas, hélas, é de outras questões que temos de nos ocupar aqui. Quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, não tenho grande coisa a acrescentar. Só o seguinte reparo: embora por razões indirectas, a minha defesa da “abolição jurídica” do casamento e da sua substituição por uma figura de união de facto “sexualmente indiferente”, deixaria subsistir apenas o casamento de tipo confessional ou afim, que celebrariam aqueles que quisessem fazê-lo, independentemente de terem contraído ou não a união de facto acima evocada.

        Sobre a questão da adopção, creio que a única avaliação aceitável é a que se faça caso a caso, independentemente de considerações estatísticas. É que a “prevenção” nestas matérias abre caminho a lógicas totalitárias, que sei que lhe repugnam. Se definirmos os homossexuais como incapazes de adoptar por serem um grupo de risco, segundo a estatística, porque não condicionaremos a adopção definindo outros grupos de risco a excluir, definidos estes não na base da “orientação sexual”, mas na dos antecedentes patológicos, por exemplo (alcoolismo com forte incidência na linhagem familiar; psicose de um avô e de um irmão, de um dos lados, e de dois tios, do outro; hemofilia e outras doenças genéticas…)? E porque nos ficaremos pela prevenção apenas na adopção e não tentaremos condicionar legalmente o direito do casal a procriar ou a assumir à partida o cuidado dos filhos ?

        Abraço

        msp

      • fnvv diz:

        E o MSP tem mais, tem mais e boas …

      • miguel serras pereira diz:

        Caro Filipe,
        o seu comentário sobre o meu trabalho profissional lisongeia-me, ao mesmo tempo que, tal como o do Pedro, me embaraça: pelas mesmas razões. Dito isto, a verdade é que faço traduções todos os dias, sem férias, há dezenas de anos, e que me saio ora melhor, ora pior. Faria melhor e evitaria grande parte do que de menos bom faço se as condições de exercício do métier não fossem tão incapacitantes.Mas não é este o lugar adequado para falarmos da precariedade ofensiva e humilhante a que o tradutor profissional e submetido – da privação contratual de direitos a que tem de se submeter ao assédio fiscal sistemático, passando pela ausência de regimes de protecção adequados e à necessidade de trabalhar contra-relógio para sobreviver. Das centenas de coisas que traduzi, só uma percentagem ínfima resultou de sugestões minhas, e, embora seja um pouco maior a percentagem das coisas que considero ter valido a pena traduzir, é enorme a massa daquilo que não teria traduzido – por pouco recomendável ou por não ser o que poderia fazer menos mal – se tivesse podido escolher. Um dia destes talvez volte a falar do assunto. Hoje e aqui, é afinal bem outra a questão em debate.

        Muito obrigado, uma vez mais. Com um abraço

        msp

      • fnvv diz:

        Miguel,
        O único Blanchot que não tenho em francês, e assim permaneceu, é traduzido por si.
        saravá e obrigado eu

      • miguel serras pereira diz:

        Filipe,
        obrigado eu – e saravá

        msp

  11. Miguel diz:

    “uma correlação estatística entre homossexualidade e instabilidade afectiva.”

    Como não esclareceu o seu ponto, eu faço a pergunta concreta. Como é que se pode medir e quantificar a instabilidade afectiva?

    • ppicoito diz:

      pelo número de parceiros sexuais (critério usado em vários dos estudos em causa).

      • Miguel diz:

        Então apenas me resta repetir o que escrevi acima.

        O que vc. tem de comparar com os casais heterossexuais não é a “estabilidade” de todos os “casais” homossexuais, ou de todas os seus “relacionamentos” sexuais, ou todos os seus encontros sexuais. A comparação deveria ser restrita ao universo de todos os casais que pretendem adoptar. As idiossincrasias de todos aqueles que andam a dormir à esquerda e à direita, mas não são, nem querem ser, candidatos a adoptar são totalmente irrelevantes e desvirtuam a sua amostra estatística.

  12. ppicoito diz:

    Não são irrelevantes se a instabilidade tiver uma correlação com a homossexualidade. Da mesma forma, suponho que um casal com vários casamentos anteriores terá mais dificuldade em adoptar.

    • Miguel diz:

      Mas, Pedro, a observável utilizada para medir a instabilidade é, segundo as suas próprias, palavras dado pelo n;umero de parceiros sexuais. Se o universo dos casais (homossexuais ou não) que se propõem a adoptar tem relações estáveis, então vc tem de fazer a distinção. Senão está a medir maçãs e a tirar conclusões sobre as melancias. A sua amostra deve incluir apenas aqueles que se propõem adoptar. Isto é o bê-a-bá para utilizar e tirar conclusões de resultados estatísticos.

      • ppicoito diz:

        O ponto central não é esse: é definir se existe ou não uma relação, que se manifesta nas estatísticas, entre homossexualidade e instabilidade. Das duas uma: ou dizemos que não, o que me parece difícil, ou dizemos que sim, e temos que considerar esse risco. Não tem que ser na lei, já o disse, mas é uma questão de prudência.

      • Miguel diz:

        Pedro, como é que quer que eu lhe explique melhor? O Pedro não percebe que está a assumir, sem poder saber a priori se isso é verdade, que a população homo tem uma distribuição de comportamentos uniforme? Não é assim que se faz uma investigação estatística, nem que se aprende se um certo traço caracteriza uma população. Pensei que isso fosse trivial.

        Mudemos de exemplo, para desanuviar. Suponha vc que há um surto de intoxicaçÕes alimentares entre bebés. Decide-se determinar o que pode ser a causa. Faz-se um estudo. Conclui-se que todos os bebés que foram intoxicados comeram fruta; os outros não. Conclusão: há uma correlação estatística forte entre comer fruta e intoxicação alimentar. Logo, os bebés não devem comer fruta. Precaução e prudência elementares. Certo?

        Errado. Um outro médico decide aprofundar o estudo e analisar que fruta é que os bebés comeram. Uns comeram banana, outros maçã, outros comeram frutos exóticos. AH! Os bebés intoxicados comeram frutos exóticos. Bom, afinal, apesar da correlação estatística do primeiro estudo, concluímos que a fruta em si não é um factor de risco. Apenas os frutos exóticos.

        E por aí fora.

        Junte todos os casais que querem adoptar, calcule a instabilidade afectiva dos casais da amostra, se a distribuição for bimodal e existir um grupo de maior instabilidade, identifique-o. Se esse grupo tiver uma propriedade que o distinga, eg homossexualidade, nesse momento poderá colocar a hipótese de que exista, de facto, uma ligação entre as duas propriedades. E, se o assunto lhe interessar, poderá pensar em desenhar novos estudos para tentar perceber melhor a natureza dessa correlação.

        I rest my case.

  13. Miguel diz:

    pequena correcção, uma frase ficou de fora:

    AH! Os bebés intoxicados comeram frutos exóticos. Os outros não.

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