Quando me falam em empregabilidade, saco logo da pistola

Eugene_Bataille_(Sapeck),_Mona_Lisa_with_a_Pipe,_1887,_photo
Voltemos, então, ao camarada Camilo Lourenço, mas não o levemos demasiado a sério. Se lhe perguntarmos o que significa “estas pessoas não servem para nada”, responderá com a falta de “empregabilidade” dos licenciados em História, ou em Línguas e Literaturas, ou em Filosofia, ou em artes, e que nada tem contra eles, e muito menos contra a história, a literatura, a filosofia e as artes, e que a cultura é muito importante, e que somos um país com novecentos anos, e tal. O problema não são as declarações de Lourenço, que estão protegidas pelo direito constitucional de fazer figura de urso.
O problema é que estas declarações são um sintoma. Representam, num excepcional momento de franqueza ou ingenuidade, o pensamento (?) dominante entre as elites que estão no Governo, nos partidos, nas empresas, nos jornais, até nas universidades. Em substância, não são muito diferentes da tirada sobre a “selecção natural” do Primeiro-Ministro ou da frase atribuída a Relvas, há meses, de que sairia mais forte de todos os ataques. Para esta gente, a vida em sociedade, as relações entre as pessoas, as mil e uma circunstâncias da economia e da política são uma luta pela sobrevivência em que só vencem os predadores de topo. Os outros, segundo a lei da selva, são inimigos ou aliados na cadeia alimentar. Palavras “piegas” como bem comum, espírito cívico, responsabilidade social, vergonha na cara ou accountability, um dos barbarismos saxões tão do seu agrado, só existem para florear discursos. Os licenciados sem utilidade são um peso que os vencedores, os empreendedores, os inovadores têm de sustentar. Prescindindo de quem não serve para nada, um futuro radioso espera os portugueses de sucesso.
A dificuldade de explicar o erro aos Camilos, Relvas e Passos é quase insuperável. Porque exige provar a “utilidade” das humanidades e das artes, uma utilidade tão evidente para aqueles que lhes dedicam a vida como obscura para aqueles que as põem a render na vida. Não estou à espera que os filisteus compreendam a resposta, mas recordo aos meus confrades que esta é a pergunta inicial da Apologie Pour L´Histoire ou Métier d´Historien de Marc Bloch: “Papá, para que serve a história?”. Bloch escreveu essa obra-prima, traduzida entre nós com o pobre título camilolourenciano de Introdução à História, na dramática condição de francês, judeu, resistente e prisioneiro de um campo nazi à espera da morte. Contudo, a pergunta que o levava a escrever, enquanto a civilização se desmoronava à sua volta, é a mesma que nos fazem outros bárbaros nos dias presentes de “barbárie acolchoada”, assim os resume o Steiner.
Não tenho a pretensão de dar a resposta do grande Marc Bloch. Limito-me a notar que a pergunta sobre a utilidade da cultura está viciada porque a resposta se mede por uma escala de valores que os utilitaristas não reconhecem. De acordo com a Sophia, “mesmo que fale somente de pedras ou do vento, a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser”.
Talvez isto seja demasiada metafísica para a carroça dos Camilos, pois é exactamente assim que nos vêem a todos – animais acossados na luta pela sobrevivência. Mas é a única liberdade concedida aos Untermenschen. Ensinar história, literatura, filosofia ou artes nos tempos que correm, sem emprego certo porque os úteis decretaram que tais coisas “não servem para nada”, tornou-se um modesto contributo para resistir à barbárie. As musas servem, e muito. Servem para nos devolver a contingência do real: há alternativas à suposta fatalidade e somos livres de escolher. Servem para mostrar a complexidade do real: nada é tão simples como o poder nos diz e estamos atentos às suas meias verdades. Servem para apelar à imaginação do real: há outros caminhos, há outros mundos possíveis.
Coisas inúteis aos olhos dos úteis. Coisas que obrigam a pensar, e talvez seja esse o problema. De modo que, inútil me confesso, quando me falam em empregabilidade saco logo da pistola, lá dizia o… o… o… Ó Camilo, como é que o gajo se chamava?

PP

24 thoughts on “Quando me falam em empregabilidade, saco logo da pistola

  1. Miguel diz:

    “a pergunta sobre a utilidade da cultura está viciada porque a resposta se mede por uma escala de valores que os utilitaristas não reconhecem.”

    Totalmente de acordo. Mas acrescentaria ainda que o facto de o tipo ser incapaz de reconhecer a utilidade de uma educação liberal, começando pelos clássicos da literatura, da filosofia e da história, e continuando até à nossa época, demonstra que o que o define não é tanto o utilitarismo, como a estupidez, a ignorância e o provincianismo. Provavelmente não faz ideia onde é que o Tucídides (esse inútil milenar) é estudado nos EUA. Deve estar para lá da imaginação dele que mais do que um entre os maiores físicos mundiais começaram por se licenciar (grau undergrad) em História. Nem deve imaginar as carreiras profissionais de numerosos licenciados em humanidades, nomeadamente os mais inúteis, os da filosofia, nos EUA, em Inglaterra, em França,…

    • zeca diz:

      Deixem-me entrar neste jogo de palavras que nos tempos em que vivemos até dá vontade de rir ler certos comentadores , não só os da televisão como os dos blogs..
      sem querer ferir susceptibilidades….na minha opinião concordo em parte com o Camilo Lourenço ..não precisamos de tanta gente que se diz Intelectual , e que tem um discurso lindo de encher o ouvido(felizmente em Portugal é o que mais há ..é papagaios falantes)..Voltando ao meu raciocínio ..eu tenho pouco mais que a Quarta classe do antigamente, e no que aprendi até então de nada me valeu na vida a não ser um cursos técnicos que tirei de empreitada…hoje estou reformado.Isto apenas para dizer que o que o nosso Pais precisa é gente que saiba fazer alguma coisa não só com a cabeça , mas principalmente com as mãos…SE tem duvidas sobre estas minhas palavras ..tomem nota deste pormenor que aconteceu numa das varias empresas que eu trabalhei..um dia é chamado ao “Patrão” um funcionário que fazia nessa empresa tudo ..era pau para toda a colher..então o Patrão na reunião lhe fez uma pergunta “”O Fulano afinal de contas diga-me lá qual foi o primeiro Rei de Portugal….e onde é que nasce o Rio Douro ?….O homem profissional exemplar com mãos de oiro disse “”Sr. Doutor ..para que raio preciso eu saber dessas coisas.., se para fazer bem o meu trabalho não preciso de saber essas coisas….Tenho dito ……interiorizem como quiserem

  2. O que ultimamente me tem perturbado é a constatação das más escolhas de comentadores e de governantes para Portugal quando, pelo menos para comentadores, seria fácil escolher muito melhor.

    Eu tão pouco gosto do uso que tem sido dado à palavra “empregabilidade” mas quanto a puxar da pistola faço-o com maior rapidez quando ouço o termo “utilizador-pagador” pois é sinal que estão a desviar os meus impostos para coisas que não uso e querem que pague outra vez as coisas que já deveriam ter sido mais que pagas com os impostos que já me cobraram.

  3. A dificuldade de explicar o erro de tudo isto aos Camilos, Relvas e Passos é quase insuperável.

    É insuperável. Porque é preciso um mínimo denominador comum para se conversar com quem quer que seja. Mesmo com um adversário. E isso é que é trágico e explicará a pistola 🙂

  4. fnvv diz:

    se isto não é o melhor blog de Benfica ( o Luís está convertido e de toda a maneira não conta porque de relvados só conhece os dos hosteles de charme), não sei qual será.

    • Fica sabendo que o Luís dos “hotéis de charme” jantou hoje um kebab com sopa de lentilhas e chá de maçã num antro de terroristas barbudos em que vocês jamé colocariam os pézinhos.

      E viva o Sportem.

      • fnvv diz:

        ná…isso é turismo de intervenção.
        fiz-me com os pescadores da Cova Gala onde comi e fumei coisas que nunca engolirias, comi na tropa ( a antiga, mais de um ano obrigatória)…és do charme à mesma.
        Deixa-te de snobismos e viscondes_ já és do SLB.

  5. Rui diz:

    Eu acho que o que o Camilo se referia com “estas pessoas não servem para nada”, era a pessoas que tiram cursos que não podem, directamente criar emprego, ser “empreendedores” que trazem dinheiro (não confundir com valor) para a sociedade.

    Porque mais do que anti-humanidades, o que existe na sociedade é a ladaínha do temos de ser empreendedores, abrir empresas e tal. E o resto da malta, os “trabalhadores por conta de outrém” são uns agarrados aos direitos, que práticamente dormem com o Código do Trabalho à cabeceira (Lei do Trabalhao que deveria ser um pormenor para quem realmente é talentoso). E, a maioria da malta de humanidades, e não só, estuda para trabalhar por conta de outrém, no fundo, para ser um “encostado”.(O Camilo, estou certo, não se considerará um trabalhador por conta de outrém, antes, um colaborador freelancer, que arrisca, faz coisas, etc).

    A minha visão ainda é mais pessimista que a sua, porque o que a mim me parece é que algumas élites gostavam é que sociedade regressasse aos tempos “do antigamente”, em que uns estudavam para ser “doutores”, uma casta muito selecta. Os outros, essa ralé da classe média, têm é de ir para cursos “profissionais e profissionalizantes”, quando muito itrar um bacharel e arranjar um modesto emprego numa das empresas do Sr. Dr.E é isso que incomoda muita gente, é as faculdades estarem cheias de “primeiras gerações” com curso superior, quando durante muito tempo apenas foram o sitio onde os filhos da malta endinheirada se reunia.

  6. zé serra diz:

    prezazdo pedro picoito, isto não tem nada a ver com o conteúdo do seu post. mas não interessa. divirta-se 😉 http://youtu.be/WTMcNfs366c

    • ppicoito diz:

      ah, magnífico… muito obrigado.

    • caramelo diz:

      Fantástico. Eu, às vezes, para verem o inútil que sou, ando por caixas de comentários americanos a chamar-lhes sissis por terem uma espécie de jogo de rugby com capacete e armadura, fazendo parelha com camaradas ingleses. E que não, e que não, que se magoam muito e tal, usa forever. Pronto, vida triste. Talvez o Pedro um dia fale desse magno assunto.

      • João. diz:

        Prefiro o Rugby ao Futebol americano mas…

      • ppicoito diz:

        Talvez, mas confesso algum desinteresse pelo futebol americano (aliás, pelos desportos americanos em geral. muito star system, muito high five, muito cheerleaders, too much ado abou nothing).

    • Miguel diz:

      Este foi o melhor comentário. Perante esta espectacular demonstração de inutilidade!, gostava de ver o articulista insistir na tecla: que os tipos deviam era frequentar a escola para mecânicos e canalisadores em vez de perder tempo a correr atrás de uma espécie de melão (e se se puser a invocar o número de bilhetes vendidos e o merchandising e o caneco, é porque ainda é mais casca grossa do que se julgava possível)

  7. André diz:

    Um país que tem o seu máximo de glorificação social nas figuras do economista ou do gestor merece ser rapidamente aniquilado, conquistado, ou coisa que o valha. É um equívoco da História.

  8. caramelo diz:

    Na escala de 1 a 10 do camilómetro, dou ao Pedro uma utilidade de grau 3. Não vale a pena agora estudar mais do que o doutoramento, porque o que o Pedro ainda não sabe, o Camilo e os amigos explicam com gráficos. Inúteis mesmo, os seres mais inúteis que Deus pôs ao mundo, mais baixo do que os ornitorrincos e aquele o.. coiso do sportem que joga a coiso, são os poetas, e já em graduação negativa, a pedir rápido extermínio por absorção desnecessária de oxigénio, os de lombada fininha que não fazem suficiente contraste numa estante.

  9. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Pedro, salvo melhor opinião, solicito-lhe que, de futuro, quando se referir a “elites” com o significado que lhe atribui neste contexto desgraçado que Portugal atravessa, substitua o termo em causa por “cliques”:
    1) “elite” = “escol” = “aristoi”;
    2) “clique” = “escumalha” = “kakoi”/”kakistoi” (não estou inteiramente certo de qual dos dois, mas é por certo um deles).
    O que temos numa sociedade em declínio e queda é a hegemonia dos piores que nos (des)governam em (quase) tudo; neste sentido, as finanças públicas, com o seu cortejo de derrapagens e desvarios em matéria de défice e dívida, são apenas a medida quantitativa e monetária do nosso falhanço institucional enquanto comunidade política: a estabilização económica e financeira do país de nada serve sem a (sem piada) indispensável “Refundação do Estado”, muito, muito longe do significado rasteiro que hoje lhe atribuem Passos, Relvas, Raspar & Rodrigues (aquele puto doutor em Finanças na Alemanha que é Sec. Estado das ditas e futuro Raspar-no-lugar-do-Raspar).

  10. Jorg diz:

    Acho que a extrapolação “anti-humanidades” é um pouco inflamada – e é, num certo aspecto, dar-lhes um crédito de um “projecto” de des-construçâo, para o qual lhes falta engenho, capacidade de concentração e provavelmente interesse.

    Existe um problema de ‘empregabilidade’? Claro que existe – não são de agora as multidões de expectativas goradas com canudo na mão. Muitas delas sem ansiar o esticar de braço e dedo do homem de Miguel Ângelo – no tecto da Capela Sistina. Antes, decepcionadas na expectativa de vida um pouco mais prosaica, numa empresa, numa escola, como independente, onde o valor do conhecimento reforça (e se reforça) e melhora e faz sentir, mesmo que só a ‘tiny bit’, que o que saiu é algo melhor do que o que entrou não só para si mesmo mas para outros, uns próximos outros mais longe.

    Pode-se discutir? Certamente, descartando superficialidades ‘televisionada’ como a do Camilo e de palermices como o “não servem para nada” – mas também demitindo á partida a retórica de uma marginalização que não se sistematiza para além das preguiças e ignorâncias de ‘talking heads’ (ou politicos um pouco possesos com tanto escolho (e mais recentemente “grandoladas”) que lhes cai em cima da mona), porque os perigos sérios e prolongados não é dai que vem – como ensinam (nesta caso ás esquerdas) as eleições italianas, as traulitadas vieram do lado que menos se esperava, de ‘clowns’ ou ‘Jokers’ que até têem imensa piada -Grillo, no seus ‘Stand-Ups’ é simplesmente hilariante…..:-))

    Mas isso é outra discussão, que vale a pena mas não agora, de tão longa que seria. E eu, mesmo entrevando um pouco em mim algo de “herdeiro da liberdade e da dignidade do ser” depois de um dia de ‘blend’ entre o conhecimento e analise – beneficio de estudo supostamente superior – embrulhado o protocolo burocrático também fico com um bocadito de fome e lá em casa, a arte de cozinhar tem de se comprometer com muito “utilitarismo” porque me deparo muitas vezes com seres que tomam emprestado algo dos “animais acossados na luta pela sobrevivência”, pelo menos até os pratos estarem na mesa…:-)))

  11. Um texto belíssimo. E certeiro.

  12. Flanca diz:

    Bom texto e concordo com outro leitor, falamos de cliques e não de elites demasiado grande a diferença.

  13. Davide diz:

    Obrigado por isto.

  14. […] O artigo do Pedro Picoito continua no Declínio e Queda. […]

  15. vasco Silveira diz:

    Caro Pedro
    jÁ O ENCONTREI – o livro do Marc Bloch, no “Pó dos Livros”, em versão livro bolso Europa América, e a preço de bolso de alfarrabista, e parece-me fantástico, apesar da tradução ( mau Portugês ).

    Obrigado pela informação e um abraço

    Vasco.

  16. ppicoito diz:

    Caro Vasco, ainda bem. É um grande livro. Mas eu não disse que a tradução é má (embora pudesse ser melhor), disse apenas que o título é infeliz. Seja como for, vale a pena ler.
    Um abraço

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