
A morte de um homem é a morte de um homem, mas a morte de um chefe é sempre mais do que isso. Um chefe é a personificação de uma comunidade, de um projecto colectivo, de uma utopia que lhe sobrevive pelo culto. Um chefe é sempre comunicacional, diz algures Paul Veyne: corporiza uma ideia.
Chávez não foi diferente. Por isso vimos, nas reacções das autoridades venezuelanas, as lágrimas misturadas com os vivas à pátria, ao socialismo e à revolução bolivariana. O povo nas ruas, menos abstracto, gritou que Chávez continua vivo nos corações de todos. São “os dois corpos do rei” de que falava Kantorowicz: o rei morreu, mas o reino continua no corpo dos seus sucessores.
Esta sobrevivência representa também o combate ao imperialismo, ontem espanhol, hoje ianque. Na América do Sul, o nacionalismo é anticolonial. O chefe, encarnação política do sagrado (Durkheim), é um inimigo das forças do mal, que conspiram na sombra para derrotar o bem. A morte de um chefe em luta nunca é natural. Daí a lenda, já com alguns meses, de que o cancro de Chávez foi causado por envenenamento da CIA. Escassas horas depois de morrer, “el Comandante” entrou já no outro mundo da mitologia. Como Evita Péron ou Che Guevara.
Paz à sua alma.
PP
Nos pretéritos casos citados, a mitologia são umas t-shirts e boinas iconográficas,uns filmes e musicais com musiquetas – quase ‘pop-corn’ entertainement, que só servem de paliativos para bolear as misérias que sempre acompanham estes logros – castelos de areia, que se desfazem com poucas vagas; eventualmente, são uteis para perceber que, por exemplo, no Brasil (não volto a acenar ao Chile, porque aparece logo uma catefrada de gente a falar do Kissinger..) se melhorou, mesmo a escala menos hiperbólica, quando se tiveram politicos que foram pessoas mais normais, e que não embarcam em demasiados folclores nem andavam ai a dar banhadas á malta…
… Para mitologias mais interessantes prefiro Borges e Garcia Marquez – como bónus, aprende-se muito mais, inclusive sobre imperialismo, colonialismo, nacional-populismo e por ai fora….
Com o Borges não se aprende grande coisa sobre isso, as mitologias dele são outras, e mesmo o coronel Aureliano Buendia e sua linhagem apenas dão uma pálida imagem da história místico-revolucionária da América do Sul. Nenhum romancista conseguia inventar uma coisa dessas.
Engraçado hoje comentei que estavam a fazer dele Mao. Os pais já não eram professores mas sim operários e já tinha sido envenenado pelo capitalismo (personificado EUA). Já era a lenda com toques “histórico” na biografia.
Ele teria preferido que o filiassem no mito do Bolívar, mais do que na linhagem da mãe dos pobres ou do revolucionário de esquerda.
Já agora, aqui vai um retrato dele por um dos jornais que sempre se lhe opôs:
http://www.eluniversal.com/nacional-y-politica/chavez-entro-en-la-historia/130224/el-nacimiento-del-mito
Eu acho graça aos americanos, que em face das acusações de envenenamento que refere falam delas com a estupfacção de quem não consegue enfiar na cabeça que os EUA nunca tiveram problemas em eliminar líderes de outros países sempre que a ponderação dos prós e contras assim o sugerisse. Isto não quer dizer que Chavez tenha sido envenenado, quer dizer que é ridículo achar que os EUA nunca o fizeram e não o voltarão a fazer de novo se assim lhes for conveniente.
E não há comparação, até agora, entre Evita Peron e Che Guevara. Che é um personagem internacional, na plena acepção da palavra. Evita é uma argentina, importante para os argentinos.
Acho que Evita Peron já conquistou a cena internacional há já algum tempo. Desde o momento em que existe um músical muito conhecido internacionalmente e desde que os Americanos fizeram, mais tarde, um filme (baseado no dito músical) em que quem representou a personagem principal foi um icone da musica pop dos anos 80/90, que Evita Peron é uma personagem internacional.
Eu não estou a dizer que ela não é conhecida internacionalmente; estou a falar em termos políticos – ela não tem grande relevância fora da Argentina.
Acho que vai ser esquecido. Era um charlatão que vivia do insulto e da mistificação. O seu legado é a superstição política – o legado típico dos generais tapiocas.
Não é ‘tapioca’ que eu queria dizer. É o outro, do “Spirou”.
Felizmente que temos o farol norte-americano para nos orientar:
http://expresso.sapo.pt/ex-diretor-da-cia-formou-esquadroes-da-morte-no-iraque=f791955
Esquecido? Houve uns rapazes jeitosos da América Central, esses sim, modelos do coronel tapioca, uma espécie de capatazes das plantações de bananas dos americanos, que ainda são lembrados. O Chavez, melhor ou pior (não lhes chega aos calcanhares), é de outra estirpe.