No Cinco Dias, no ano da graça de 2013, há quem queira “defender a revolução contra o perigo da democracia”.
A sério.
PP
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No Cinco Dias, no ano da graça de 2013, há quem queira “defender a revolução contra o perigo da democracia”.
A sério.
PP
Ainda há operários?Não confundir com empregados dos serviços e lumpen.
O 5 dias é talvez o melhor blog humorístico que existe em Portugal. É extraordinário e dos meus preferidos.
henrique pereira dos santos
Mas o Pedro sublinhou no outro post sobre o pós-modernismo aquilo em que se tornou a democracia hoje em dia – parece-me, dado esse seu post, que a democracia nos termos em que lá é criticada e que é cada vez mais a democracia que temos é, também cada vez mais, alguma coisa de que nos devemos defender. Ou não?
Não. A democracia não é um regime de que nos devamos defender, mas que devemos defender. O que critico (e critiquei no post que refere) são as perversões da democracia, aquilo a que já os antigos gregos chamavam demagogia. Mas não é isso que se critica no Cinco Dias: para eles, “a democracia que temos” é burguesa, logo não é a verdadeira democracia, que deve ser revolucionária, popular e directa (na medida do possível). Todos sabemos como acabam as democracias “populares”. Prefiro mil vezes “o que temos”, com todos os seus defeitos, à utopia da revolução.
Caro Pedro,
o que se passa é que ambos chamamos “democracia” a regimes diferentes. Do meu ponto de vista, a sua democracia é um Estado de direito, liberal e representativo, que exclui o governo do demos pela propria divisão do trabalho político que estipula. A minha concepção é mais clássica, e define a legitimidade democrática pela participação regular, organizada, responsável, mas não-profissional, dos cidadãos no governo da cidade. Parafraseando a divisa dos rebeldes americanos (“não aos impostos sem representação”), a divisa democrática seria “não à decisão sem participação”.
Claro, a partir daqui, é que a discussão entre nós poderá talvez começar, talvez um destes dias. Mas falamos de regimes diferentes, de uma diferente relação com o poder político e com as instituições, de uma articulação diferente do espaço público, etc., etc. E, para já, teremos compartilhado o mérito de o tornar claro.
msp
Certo. Mas a questão é: o que é ‘A democracia’?
“Prefiro mil vezes “o que temos”, com todos os seus defeitos, à utopia da revolução.”
Há também que perguntar se o que temos não é sustentado apenas pela utopia inscrita no próprio desenvolvimento da noção de democracia? É que a mim parece-me que cada vez mais vivemos, no regime actual, de ideologia e utopia. E não há nada mais ideológico do que querer confundir o que temos com o que possa ser dito “as coisas tais como elas são” ou “a natureza das coisas”.
Caro Pedro,
com efeito, a Raquel Varela parece, autodesignado-se embora “revolucionária” e “anticapitalista”, partilhar as categorias do imaginário dominante, segundo as quais o governo pela economia capitalista pode ser democrático, por um lado, e, por outro, o anticapitalismo pode – ou deve? – ser antidemocrático.
Até aqui, quero crer, o nosso acordo é completo. Onde talvez comecemos a divergir é na ideia, que eu assumo, de que a democratização efectiva das instituições da cidade implica uma transformação radical das relações de poder dominantes, transformação essa que, ela sim, seria uma verdadeira revolução. A cidadania plena só pode ser governante, como Aristóteles não ignorava, que a definia como a capacidade de participação do cidadão no governo que o governa (e pelo qual ele se governa). É por isso que, sendo os aparelhos económicos aparelhos de governo e decisão cujo poder se exerce sobre o conjunto dos cidadãos, não pode haver democracia sem repolitização democrática da economia política governante. Dizer que os cidadãos se devem dar as suas próprias leis e ser responsáveis por elas é dizer que se dão também os seus próprios fins enquanto governantes da cidade – o que, abreviando muito, basta para declararmos incompatível com a democracia a hierarquia dos aparelhos de direcção da actividade económica, tanto a nível macro como micro. Que democratização do mercado pode existir sem igualização dos “salários” e rendimentos? É possível a igualdade de poder entre os diferentes cidadãos se a força de trabalho for uma mercadoria? Não havendo – ao contrário do que pensa a tradição marxista, nisso muito conservadora – maneira de calcular o contributo de cada um para o total da produção (e menos ainda para as condições de produtividade…), que outro critério de repartição da riqueza nos resta além do da igualdade democrática?
Enfim, poderíamos continuar por muito tempo. Mas, para bom entendedor como o Pedro, penso que isto dá suficientemente conta e razão do que me leva a recusar não só a tese da Raquel Varela, mas também a sua simétrica, que sustenta a necessidade da defesa da democracia contra a revolução. Afinal de contas, que outra criação histórica poderá ter sido mais revolucionária do que o projecto de autonomia e a concepção dialógica da verdade que emerge na criação solidária da filosofia e da democracia?
Abraço
msp
Caro Miguel, concordo consigo que, em democracia, o poder político não pode ser dominado pelo poder económico (o que o transformaria numa plutocracia ao serviço do grande capital, para usar a linguagem da esquerda): Discordo, porém, que a verdadeira democracia se alcance pela igualdade absoluta entre os cidadãos, nomeadamente salarial. A igualdade democrática é a igualdade perante a lei, é a igualdade de direitos, é a igualdade de oportunidades: não é a igualdade de condições sociais e económicas. Ou seja, não é absoluta, como a liberdade não é absoluta. Mas havendo um conflito entre a liberdade (por exemplo, a liberdade de ter lucro com uma actividade económica) e a igualdade, sigo a máxima de Tocqueville: escolho a liberdade. Acredito, porém, que há um certo grau de desigualdade que pode pôr em risco a liberdade e, portanto, a democracia. Quando a desigualdade de salários, ou de acesso a direitos básicos como a alimentação, a saúde, a segurança, etc., é tão grande que se torna uma injustiça, então é claro que a liberdade de alguns, talvez a maioria, também é atingida. Uma desigualdade tão extremada acaba por põr em causa a própria democracia. A questão é se estamos em semelhante situação (acho que não) e o que fazer para não virmos a estar. “o que fazer?” é a célebre pergunta de Lenine. Não conheço, porém, nenhum país em que a resposta de Lenine e do Cinco Dias (a revolução contra a “democracia burguesa”, ou seja, contra o parlamentarismo e o capitalismo) tenha servido para conjugar a liberdade e a igualdade.
“A questão é se estamos em semelhante situação (acho que não)”
De certeza que não?
Não é uma tese de doutoramento, nem uma monografia, vem sem bibliografia; parece-me, porém, próximo da realidade (em ordem de grandeza, pelo menos):
Pedro, a frase do Tocquevile é uma máxima cuja validade está sujeita a prova. Não se pode dizer, à partida, que se escolhe a liberdade, num conflito entre a liberdade e a igualdade. O Toqueville era um aristocrata que nunca teve de lutar contra a desigualdade. Como diz, e bem, à frente, a desigualdade pode provocar falta de liberdade.