Krugman, Martin Wolf e as baratas.

Paul Krugman não gosta de estúpidos. A 2 de Fevereiro lamentava a persistência das “ideias de barata” — más ideias que, mesmo despejadas na sanita, acabam sempre por regressar. É por isso natural que um dos seus alvos electivos seja o “austeritarismo” da União Europeia.

A Olli Rehn, o estúpido perfeito, tem dirigido remoques que nos convinha — já que somos parte interessada no assunto — acompanharmos.

16 de Fevereiro:

Meanwhile, Olli Rehn of the European Commission, a firm advocate of austerity, responds to the disastrous economic news in Europe, which has confirmed the warnings of austerity critics and led to a widespread reassessment of fiscal multipliers; it seems that they are large in a liquidity trap, just as some of us predicted. Rehn’s answer? We need to stop putting out these economic studies, because they’re undermining confidence in austerity! As I said, these signs of desperation are gratifying. Unfortunately, these people have already done immense damage, and still retain the power to do a lot more.

A 22 de Fevereiro apresentava dois quadros eloquentes para avaliar o fracasso das medidas de austeridade na Europa do Sul. Rehn (ou “The Rehn of Terror”, como agora lhe chama) não escapou às críticas:

Olli Rehn of the European Commission, last heard declaring that the big problem with austerity isn’t that it doesn’t work, it’s the fact that economists keep publishing studies showing that it doesn’t work, says that the only thing we have to fear is fear itself:

Mr. Rehn insisted that Europe’s belt-tightening policies were working and would lay the groundwork for a recovery. He said the European economy should expand in 2014, with growth reaching 1.6 percent across the Union and 1.4 percent in the euro area.

“We must stay the course of reform and avoid any loss of momentum, which could undermine the turnaround in confidence that is underway, delaying the needed upswing in growth and job creation,” he said in the statement.

Well, that’s all right, then.

A 4 de Março dedica mais um post assassino à espessura obtusa da União (Cockroaches at the European Commission), concluindo:

The amazing thing is the way men who know neither theory nor the history of previous crises are utterly convinced that they know what to do in our current crisis; and how their confidence in their prescriptions has been unaffected by the fact that they have been wrong about everything so far. Of course, what’s even more amazing is the fact that these men are actually running things.

Os burocratas europeus ofenderam-se muito, ao que parece. A 6 de Março, Krugman contrapõe:

And let’s be clear: this stuff matters. The European economy is in disastrous shape; so, increasingly, is the European political project. You might think that eurocrats would worry mainly about that reality; instead, they’re focused on defending their dignity from sharp-tongued economists.

Quem julgar que esta sucessão um pouco pícara de episódios se resume a uma troca de tweets entre um Nobel da Economia e um grupo de sábios europeus deve ler este artigo de Martin Wolf no Financial Times. Chama-se  The sad record of fiscal austerity, e começa assim:

The ECB could have prevented the panic. Tens of millions are now suffering unnecessarily.

É obrigatório e assustador.

Luis M. Jorge

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26 thoughts on “Krugman, Martin Wolf e as baratas.

  1. È por estas e por outras que alguns economistas prefeririam que não existissem historiadores. Agora o nosso ministro das finanças, o Wolfgang Schauble, que inspira o Governo(?) de Portugal ao dizer que é preciso manter o rumo, será uma barata, um zombie ou uma barata zombie?

    • Esta gente lembra cada vez mais os imbecis da primeira grande guerra a mandar carne para canhão.

      • Miguel diz:

        Exacto. E aquela ideia muito clássica que, dada as leis da economia, os salários devem estar rés-vés o nível de subsistência, apenas o mínimo necessário abaixo do qual o trabalhador morre de fome, e nunca acima disso, até que comece a existir escassez de mão-de-obra (pressupondo-se, sem nunca o explicitar, que os desempregados entretanto se volatilizam, morrendo de fome ou de outra maneira que, em todo o caso, é irrelevante do ponto de vista económico), e aí então, finalmente, se materializam os efeitos virtuosos da austeridade e os salários podem voltar a subir até ver, isto é, até novo excesso de oferta porque essa malta que trabalha são piores que coelhos e, mal podem, zás truca truca . É o que se chama fazer avançar a economia para aí uns 150 anos para trás. Mas tudo muito clássico.

  2. Tenho seguido os posts dele. O de 4 de Março é especialmente demolidor, mas absolutamente correcto e justo.

  3. henedina diz:

    http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.pt/2012/04/peter-weiss-se-te-encontrasse-na-rua.html
    “Se um médico tratasse uma nova doença com um tratamento novo tipo grecia e o tratamento na grecia e o resultado fosse o grego.
    Se o mesmo medico tratasse novamente essa nova doença com o mesmo tratamento ruinoso, era processado e culpado de homicidio por negligencia.
    Eu não dava uma lamparina eu processava-o.”
    10 de Abril de 2012 à0 00:00
    Achava que o erro médico é que matava mas o erro do economista mata milhares.
    É preciso fazer um videojogo para a troika, para o governo, para o banco central, para os economistas porque na falta de videojogo estão a fazê-lo com o mundo e ups! enganei-me afinal isto não era solução era uma arma de destruição, faço reset. Pensamento de economista: afinal não era um videojogo era a vida de pessoas,…”pensei que estava num videojogo. É injusto não fazerem videojogos para economistas”.

  4. Jorg diz:

    Pegue-se só na premissa de Martin Wolf – cuja a validade no âmbito mais alargado que se pretende endereçar no artigo não se pretende aqui discutir, por agora- e num simples ‘mind game’ veja-se o que é que isso significaria para Portugal – onde é que estariamos hoje, e qual o caminho percorrido. Eu não vejo nem boa, nem virtuosa narrativa…
    Uma pista – Krugman, acho que em Fevereiro de 2012, defendeu ainda e mais uma vez- perante e.g. um Galamba e um Silva Pereira quedados com “muso lungo” – que os salários em Portugal deveriam desvalorizar pelo menos 30%….

    • A sério? Então isso significa que afinal a austeridade é uma excelente receita e está a resultar, não é?

      • Jorg diz:

        Não é isso que se discute – o que se discute, muito simplesmente, é se uma acção do BCE como preconizada por e.g. por Wolf teria benigno significado para Portugal.
        E neste ponto acho que a situaçâo de Portugal teve como ponto de partido não o pânico, mas a falência – e não só financeira….

    • Dr. Fonseca Galhão diz:

      Tomo a liberdade de lhe postar aqui o que o tipo disse na altura:

      “Considero que tem que ser feito um ajustamento. Obviamente, gostava de vê-lo pela parte da produtividade em vez de pelos salários. Mas não há forma de isso acontecer com garantias. Eu preferiria até que esse ajustamento fosse alcançado com os salários alemães a subirem em vez de serem os salários portugueses a caírem. É a análise relativa que interessa. Logo, se conseguirem persuadir a Frau Merkel a fazê-lo, seria óptimo. Caso contrário, tem de haver aqui um ajustamento.”

      e

      “Gosto de fazer um pequeno exercício de aritmética. Se dissermos que cerca de 20 ou 30% de redução nos salários da Europa do sul em relação aos alemães terá de acontecer, faz toda a diferença saber se isso ocorre com uma redução de 3% anual nos salários do sul da Europa, com uma subida de alguns pontos percentuais na Alemanha, ou se acontece através da manutenção ou subida dos salários do sul da Europa, enquanto os salários alemães sobem 5 ou 6%. É uma enorme diferença a nível do desemprego que irá existir na Europa do sul, a nível de dinâmica da dívida…”

      Está a perceber a diferença? Eu sei que seria muito lhe aprazeria a oportunidade de descrever o monco caído do Galamba e do Silva Pereira, mas o “soundbyte” que se gerou é pura e simplesemente resultado da ignorância ou, pior, da má fé.

      O Krugman não duvida que tenha de haver um ajustamento de 20% a 30%. A questão é que o ajustamento deveria passar pelo aumento dos salários na Alemanha vs. a contração dos mesmos na Europa do Sul.

      O problema é que a dita não o quer fazer, por várias razões:

      – Repugnância histórica (govs. Weimar, décs. 20/30)
      – “Ajustamento” (décs. 90 / 2000) para um modelo de salários relativamente baixos
      – Questão moral vs. os preguiçosos povos do sul (muito bem representados pelo “regabofe” grego… que, a não ter acontecido àquela escala, talvez não tivesse precipitado a mesma toada punitiva sobre Portugal)

      Então o que pode fazer – e aqui serve perfeitamente a tese da punição – é fazer o ajustamento totalmente pelo “nosso” lado, pela desvalorização AQUI, sem acautelar qualquer tipo de paridade.

      Claro, o Krugman também diz que “conseguirem persuadir a Frau Merkel a fazê-lo, seria óptimo” porque sabe que o solução mais simples, a que involve menos chatice para os banan… passos coelhos desta vida, é baixar as orelhinhas.

      Contudo, o que está a ser feito é uma desvalorização brutal, os 20 ou 30% em 3 anos, só pelo “nosso” lado, sem que, ao menos, estas alimárias tentem atenuar a dose, bem pelo contrário.

      • Jorg diz:

        O problema é que um ajuste mencionado como mais benigno (e tenho dúvidas se Krugman o subscreva dessa maneira) tem pelo menos um concreto contra-exemplo histórico – e o resultado chama-se “Mezzogiorno”……

    • caramelo diz:

      E se o Krugman disse isso, deveria repeti-lo até ao fim da vida. Isto é um argumento da fase infantil em que achamos que o mundo é estático. Também infantil é a narrativa, muito em voga, mas agora da área do bullying, de que se não fosse esta austeridade estariamos muito pior, do tipo, dou-te uma carga de porrada, mas dá-te por satisfeito que se fosse com outro estarias agora morto. Desculpa, mas não posso evitar bater-te. Há uma tira do Calvin & Hobbes em que um pobre grandalhão diz isso mesmo ao Calvin.

  5. XisPto diz:

    O que é surpreendente são as paixões que os economistas ainda suscitam, os politicamente empenhados e Krugman em particular. Claro que não os podemos exterminar e pelo contrário devemos prestar a máxima atenção ao que dizem. Mais do que ter vindo a Portugal dizer que no fundo faria o mesmo que o governo actual, acho muito interessante a maneira como ele fala do ECB (como se fosse comparável à US Federal Reserve) e da ausência de uma política à Obama.
    .
    O Luis Jorge vai seguramente perdoar-me, mas, ver como “esgrime” Krugman faz-me lembrar os dias felizes do Sócrates keynesiano depois de o malvado Olli Rehn lhe dizer para gastar o máximo que pudesse…

  6. António diz:

    Bem ao menos parece que parte foi a comprar tintol nacional… bem haja…
    http://dailycurrant.com/2013/03/06/paul-krugman-declares-personal-bankruptcy/

  7. Buiça diz:

    Acho que pessoas crescidas já deviam pelo menos suspeitar que quando alguém recorre tão insistentemente ao insulto é porque lhe começam a faltar argumentos. Acontece. Mesmo para alguém especialista em emitir opinião a metro, como o senhor Krugman, haveria de chegar o dia, afinal de contas já disse tudo e o seu contrário e ainda assim continuam a pedir-lhe opiniões.
    Por mais que sejam de respeitar algumas opiniões em abstracto sobre Economia e o funcionamento dos mercados, desde o início que o senhor Krugman revelou não fazer a mínima ideia do que é a União Europeia, considerando-a aliás uma “aberração”.
    Aplica-se então a velha máxima: se a única ferramenta que conhecemos é o martelo, naturalmente todos os problemas terão que encaixar na nossa definição de prego.
    Só que na realidade, essa desmancha-prazeres:
    – A UE é uma zona de comércio livre entre 27 nações soberanas.
    – A Eurozona é uma zona de comércio livre entre países que decidiram, soberanamente, partilhar a mesma moeda, gerida por um banco central independente e que olha exclusivamente aos números agregados de toda a Eurozona e nunca aos interesses desta ou daquela nação.
    – O BCE não é o FED nem existem Estados Unidos da Europa.
    – A Sra. Merkel não foi eleita para mais do defender os interesses soberanos da Alemanha.
    – Os países soberanos que deixaram de ter quem lhes empreste dinheiro a preços aceitáveis só se podem queixar de si próprios, não cabe a absolutamente mais ninguém gerir com a necessária cautela a confiança que merecem junto de credores a quem pedem dinheiro emprestado regularmente.
    – A “Austeridade” é uma cura de emagrecimento, o único “resultado” que se pode esperar é ficar mais magro, não engordar ou voltar a ser feliz com os níveis de obesidade anteriores.
    – Comparando o desemprego em Itália (39%), Grécia (50%), Irlanda (15%), Espanha (35%), e que só alguns destes países declararam bancarrota, não me parece que estejamos assim tão mal.

    Quando a realidade for outra, talvez alguma das “pastilhas” do dr. Krugman surta algum efeito.
    Cumps,
    Buiça

    • João. diz:

      “Os países soberanos que deixaram de ter quem lhes empreste dinheiro a preços aceitáveis só se podem queixar de si próprios (…)”

      – Isto é o que tem que se pensar a todo o custo. Não se consegue admitir que a natureza do sistema possa ser tal que ao fim de contas, tirando uns poucos de países, a maior parte está sempre em risco de perder esse financiamento. Se a finança é assim tão racional como o seu comentário sugere, porque razão é que se fartou e farta de fazer merda?

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