Em resumo.

Não, Danielzinho, a austeridade não se explica “porque nos portámos mal”. Já sei, essa é a história que a mamã e as outras senhoras da mercearia te contam; mas agora lê isto, está bem?

Há uma crise mundial e há uma crise especificamente europeia, muito distintas embora com uma raiz comum. A mundial, que deflagrou vai para seis anos ao rebentar a bolha do subprime, não tem uma única origem, mas várias. Uma das mais relevantes é o elevadíssimo nível de dívida acumulado pelas famílias, pelas empresas e pelos estados. (…)

Abolindo-se como se aboliu a distinção entre banca comercial e banca de investimento e admitindo-se ao mesmo tempo níveis baixíssimos de autofinanciamento das instituições financeiras, criou-se a montanha de dívida que agora pesa sobre todos nós.

Se as economias crescessem, gerar-se-iam recursos suficientes para pagá-la. Mas de onde virá o crescimento, se nem famílias, nem empresas, nem estados têm condições para gastar mais? Exigir-se que a dívida seja inteiramente paga equivale, portanto, a condenar a economia a permanecer estagnada durante uns vinte a trinta anos.

Parece inegável que o desbloqueamento das economias ocidentais exige uma desvalorização generalizada da dívida, seja através de negociações caso a caso, seja através de um aumento generalizado dos preços (vulgo inflação). Uma operação desse tipo implicaria, porém, uma massiva redistribuição de rendimentos dos credores para os devedores, razão por que é obstinadamente recusada por quem detém as rédeas do poder político e económico.

Viremo-nos agora para o outro lado do problema, ou seja, para a crise especificamente europeia. Ao contrário da anterior, esta é, na sua essência, uma crise política com um pretexto económico, fabricada de todas as peças pelo governo alemão coadjuvado pelo BCE (…)

Pronto, filho, diz “obrigado” ao senhor João. Não te enerves, coitadinho.

Luis M. Jorge

3 thoughts on “Em resumo.

  1. XisPto diz:

    Também em resumo, uma desregulação neoliberal do capitalismo e uma teoria da conspiração alemã depois, a solução alternativa proposta é:
    .
    a) uma desvalorização generalizada da dívida, seja através de negociações caso a caso, seja através de um aumento generalizado dos preços (vulgo inflação)
    b) união bancária, da união fiscal e, a prazo, da mutualização parcial da dívida
    .
    Ora bem, b) está em curso, assunto arrumado. Mas a) envolve essa pequena contrariedade de precisar do acordo dos credores que não estão para aí virados. Talvez uma boa campanha de marketing os leve a mudar de opinião…. mas depois já não os convencemos a comprar mais dívida. Ora nós precisamos dessa dívida para financiar o desenvolvimento, certo?
    .
    Não, ainda não foi desta que vejo uma solução alternativa consistente. Ah, esquecia a conclusão que partilho com o autor:
    .
    “…Sair do euro implica seguramente terríveis riscos, mas poderá chegar um tempo em que os encararemos como um mal menor. Para já, precisamos urgentemente de abandonar a ilusão de que, mais mês menos mês, despertaremos deste pesadelo.”
    .

  2. NS diz:

    O que eu mais gosto no JPC é a sua panóplia de soluções fáceis e a sua total incapacidade para reconhecer os erros que nós próprios cometemos. Claro que a culpa é dos alemães – afinal foram eles que nos incentivaram a endividarmo-nos à razão de mil milhões de euros ao mês durante seis anos. E claro que uma pressão inflaccionista reduz o valor da dívida e provoca uma transferência de riqueza dos financiadores para os financiados. Mas também faz outra coisa interessante: provoca uma redução dos salários reais (à socapa, como qualquer bom socialista gosta de fazer) e uma transferência de riqueza relativa do factor trabalho para o capital. Para quem tanto se enervou com o tema da TSU, vir defender uma desvalorização monetária é muito curioso.
    Outra coisa curiosa é não ter em conta o impacto no desemprego e nos salários de uma “reestruturação” da dívida. Querer atribuir valores morais aos fluxos financeiros e à situação económica é a via mais rápida para o disparate.

  3. Jorg diz:

    D’acordo – a Austeridade explica-se porque não há dinheiro…. E deixou de se “admitir níveis baixíssimos de autofinanciamento das instituições financeiras”. Na politica, o problema foi que houve gente demasiada a confundir uma sucessão de taludas com assegurado rendimento duradouro.

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