Ventos ( 3)

Em 1920, Joseph Roth  testemunhava  (  Neue  Berliner Zeitung, 23 de Setembro 1920)   o processo instruído  ao cidadão P.B. Tratava-se de um  sem -abrigo ao qual tinha sido aplicado o artigo 361 da subsecção 8 do Código da  Lei Criminal do Imperio Germânico. Se em seis dia não encontrasse  residência seria  condenado  a seis semanas de cadeia. Jovens sem-abrigo e outros solidários promoveram uma reunião em Weinesse, na Frobelstrasse ( andei por essas zonas há uns anos, mas não consigo localizar  com exactidão).Roth conta que meses depois da revolta, passavam mais de mil desgraçadso por noite na casa -abrigo. Na tradução inglesa  fica melhor:
“The provisional or the contingent has become  their normal way of life, and they are  at home – in their homeless”.

As pessoas desinteressam-se, uma sensação  de que os acontecimentos não dependem  do indíviduo, que pode ser  substituído por qualquer outro: Arendt apanhava bem , em 1951, o  capinzal que agora se adivinha.Esta sensação também combina com nevoeiro europeu que vai pousando  com suavidade. Olhamos para a esquerda e para a direita , para cima e para baixo e não vemos  uma lógica, uma  direcção. Por enquanto levemente psicótica, a ausência de  intenção,  de uma finalidade, qualquer  finalidade, começa a espalhar outra sensação:  nada conta, nada pesa realmente.

Gide escrevia a Valery ( 28 de Abril de 1918) sobre os tempos difíceis: (…) mais ne somme-nous pas comme les roses; nous n’avons jamais vu mourir de jardiniers. Il y a toujours un jardinier. Uma boa imagem esta, a de um jardineiro que vai lentamente compondo o jardim. Cortando e regando, regando e cortando.
Ernst Thalmann ( num discurso proferido na sessão plenária do Comité Central do Partido Comunista da Alemanha, a 19 de Fevereiro de 1932) apoiava-se em Estaline para caracterizar o SPD e os nazis como gémeos. Thalmann acusava a pequena burguesia de esquerda de ser a principal base de apoio , e factor transformador, do fascismo hitleriano( sim, este termo exacto).
Trago esta leitura porque parece disparatada nos dias de hoje, mas reflecte um elemento tradicional na análise do percurso dos projectos inovadores. Em tempos de perturbação, os quadros ideológicos esbatem-se em favor de valores primários. A segurança, a direcção, o cortar a direito. Trabalho de jardineiro, pois então.
FNV
Com as etiquetas

5 thoughts on “Ventos ( 3)

  1. balde-de-cal diz:

    a ventania sopra como nas ‘noites de lobos’, provavelmente baseada em Hobbes.
    Hannah Arendt deixou-nos o legado do conhecimento da ‘génese do totalitarismo’.
    todo o socialismo é totalitário, os indivíduos são vítimas dele. somos e seremos inevitavelmente esmagados por ele. a federação suicidário-socialista ue há muito que mostra os dentes.
    o socialismo é um estado definitivo tal como o de ‘cadáver morto’.

    suponho que a Fröbel strasse de Berlim seja dedicada ao pedagogo Friedrich do séc. xix

  2. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Filipe, o vento precisa sempre da maré.

  3. Ana diz:

    Caro Fernando, muito antes, antes dos ventos e da maré: o vento precisa do fogo.

  4. palavrossavrvs diz:

    Derrubar um Governo fraquíssimo e condicionadíssimo, realmente, não é um Projecto. É uma birra.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: