A entrevista.

Permitir que Sócrates seja entrevistado por um canal de televisão não reabilita as acções do governo que dirigiu. Pelo contrário, qualquer tentativa de impedir esse depoimento é que protege e iliba o governo actual. Muitas das críticas feitas à entrevista de José Sócrates ocultam a angústia da direita portuguesa com o legado de Pedro Passos Coelho. É uma angústia justificada.

Ouvi muita gente afirmar que o governo Sócrates nos “trouxe até aqui”. Permitam-me rectificar. O que “nos trouxe até aqui” (à ruína, ao opróbrio, a descrebilidade da política) foram também dois anos de uma estratégia que pretendeu ir “para além da troika”, com resultados lastimáveis. Os loucos que espumam nas caixas de comentários deste blog contra a “esquerda” e o “social-fascismo” escusam de tapar o sol com a peneira.

Ao contrário da maioria, sempre julguei que o grande problema de Sócrates era uma fraqueza de carácter. Defendi a sua demissão em 2011 por acreditar que Portugal não devia ter um primeiro-ministro corrupto. Ainda acredito. E não sustento as minhas convicções sobre o carácter do homem apenas nos episódios do caso Freeport (embora conheça pormenores que me bastam), mas acima de tudo na sua obsessão com obras faraónicas a poucos meses do resgate, no enfraquecimento das garantias de transparência dos concursos públicos e no enriquecimento súbito de alguém que fazia projectos de engenharia para casas de emigrantes, anos antes de morar em Saint-Germain. Tudo isto devia ser explicado e não foi.

Por isso, as únicas perguntas a que eu gostaria de ver Sócrates responder eram estas: Quanto dinheiro tem? De onde veio esse dinheiro? Se recebeu heranças, quanto recebeu? Alguma vez ganhou dinheiro com empresas de obras públicas? Foi recompensado por angariar financiamentos partidários? Quanto ganhava como primeiro-ministro? Quando dinheiro acumulou nas suas várias contas desde que tem cargos governativos? Tem alguma poupança em offshores?

Quanto ao resto, parece-me muito bem que defenda o seu trabalho. Até porque há muito para defender, por comparação.

Luis M. Jorge

31 thoughts on “A entrevista.

  1. henedina diz:

    Falem bem de mim ou mal de mim mas falem de mim. Falar de alguém é sempre dar importãncia.

  2. palavrossavrvs diz:

    Concordo, excepto com a ideia de que «há muito para defender [nas legislaturas socratesianas], por comparação». Não há muito. E o Luís elencou as razões: foi com um dinheiro fatal que se fazia e se simulava fazer o grande circo optimista para lado nenhum; e se cavava o sepulcro que Passos, por obstinada e cavalar asnice, cavou ainda mais fundo..

    No mais, tenho pena de ainda não ter escrito isto.

    • Há muito para defender, na minha opinião. A começar por uma visão do estado social que foi chacinada por esta canalha em nome de um liberalismo para chico-espertos, visão essa que não depende de “haver dinheiro” como proclamam as cabeleireiras, mas de se distribuir melhor aquele que há. As criticas a Sócrates fiz quando devia fazer, não fico no passado quando o presente é infinitamente pior.

      • henedina diz:

        Luís o problema do Socrates não foi uma fraqueza de caracter foi o caracter.
        Fora isso era inteligente e de todos os politicos tipo jotinha, politicos de carreira, tentava pelo menos ser aberto a inovação. Apenas já era incomportavel por falta de caracter e como um verdadeiro politico de carreira tinha uma auto-estima indestrutivel, tinha e tem, o que há quem considere muito bom e eu apenas convencimento perigoso.

  3. caramelo diz:

    Luis, o Socrates vem de uma familia endinheirada, embora não seja de deitar fora o rendimento de fazer projectos de engenharia, onde se ganha mais do que como pedreiro. Um dos avôs ganhou fortunas no volfrâmio, a sua mãe, filha desse homem, casou com alguém que também lhe deixou bastante, e ele é agora filho único. Portanto, não seria enriquecimento súbito; não é a lenda do rapaz modesto de familia humilde que veio da provincia para a capital e se fez rico na politica. Tudo isto aliado aos salários que ganhou em anos de governante, talvez, não sei se deliro, lhe desse para viver em Saint Germain. Se é corrupto ou não, não sei. Sei do caso Freeport, que foi arquivado, e não sei de pormenores para além disso.
    O Socrates foi um bom primeiro ministro e já tinha sido um bom ministro e secretário de estado do ambiente do Guterres, outro bom primeiro ministro, mas neste país a história começa sempre a escrever-se desde ontem, como nos salões de cabeleireira: comenta-se o que disse e fez ontem a vizinha do terceiro esquerdo. É o espaço estreito e a memória de peixinhos dourados. O rendimento mínimo é execrado, porque alguém sempre conhece alguém pessoalmente que vive do rendimento mínimo porque não quer trabalhar. Também toda a gente conhece uma rotunda que não serve para nada, e como ninguém se lembra dos prefabricados que faziam de escola, cospem à vista de uma escola nova, bem pintada e com material reluzente. Consta que qualquer tijolo que assentou e metro quadrado de asfalto que colocou, foi dinheiro deitado à rua. A ministra Maria de Lurdes cometeu o deslize moral de dizer um dia que as obras no parque escolar foram uma festa e foi um ai jesus. A direita é comedida, circo e festas só nos dias santos, e os governos de esquerda era um desfile permamente dos LGBT de braço dado com os empreiteiros, a tocar cornetas e envoltos em bandeiras arco-iris, dizem os que vêm o mundo através do vidro do seu pequeno aquário.
    Sobre o caracter, tenho dificuldade em perceber do que é que se está a falar. O homem era arrogante para com os seus iguais e para as estrelas do jornalismo. Isso é defeito de caracter? Demasiada auto-estima é defeito de caráter? E a corrupção, a cunha e o favor, são defeitos de carácter? Pode-se ser isso tudo e ser humano. O meu teste sobre o caracter é a escolha das pessoas com quem convivo. Dou-me bem com toda a gente, menos com aqueles que têm a cobardia moral de ensinar os que estão abaixo, os mais pobres, a lavar os dentes ou de lhes dizer que devem aguentar, ou de dizer às familias em dificuldade que se tivessem poupado e não tivessem ido para as ilhas maldivas nas ferias, estariam agora melhor. Ou de fazer pacetições para alguém não aparecer na televisão. É este o pequeno mundo com gente de caráter canalha que envolve este governo. É aqui que batemos no fundo.

    • Concordo em grande parte consigo. Mas a questão não é essa. A questão é que a vigilância sobre a transparência do exercício de cargos políticos tem de funcionar para todos, e o PS, nesse campo, é miserável. É pena, porque seria o meu partido se não fosse miserável.

      • palavrossavrvs diz:

        Meu caro Luís, a narrativa doce e delicada do caramelo é todo um implante mamário, uma correcção ao nariz de um percurso piroso e absolutamente duvidoso.

        O spin de conselheiros de Imagem & Lábia vai pôr a circular a versão caramela e escarrapachá-la nos fora, nos comentários de jornais e sobretudo nos blogues do Passado. Se há uma cassete socratista, o caramelo deu mais um contributo.

        [Eu estaria escandalizado e estritamente focado no Presente se o Passado – esses blogues ainda promotores do ‘engenheiro’ – se conformasse com o seu estatuto de Passado]. Não. Reincidem. E reincidem com uma gula e uma ambição imperdoáveis, na minha opinião.

      • caramelo diz:

        Concordo que todos os rendimentos dos políticos devem ser declarados, investigados e tornados públicos, e que a vigilância dos cargos públicos deve ser exigente e permanente. Só não sei se será de exigir uma especial vigilância do PS e se se justifica uma particular suspeita sobre o Socrates, é esse o meu ponto. Sobre transparência, sou ainda de um tempo em que ninguém sabia quem contratava com quem, e quanto se gastava, com os contratos públicos. De repente, muita gente começou a abrir a boca de espanto quando se criou o portal dos contratos públicos, a apontar quanto esta e aquela firma de engenharia ou consultadoria juridica ganhou em contratação. Lembro-me ainda quando ninguém sabia quando ganhava quem era nomeado para os gabinetes. Quem queria saber, teria de se dirigir a uma biblioteca ou à junta de freguesia para pedir o favor de consultar o diário da república. O poder e a admnistração pública sempre foram entidades fechadas e secretas, e isso não provocava um especial incómodo, porque era assim que era suposto ser. Foi sobretudo nos últimos dez anos, com os governos PS, mas não só, que o poder se começou a abrir e já se sabe que quando se vê uma porta entreaberta se quer a porta escancarada. Acho muito bem, que me dera que isto em transparência e honestidade fosse uma finlândia, ou pelo menos a ideia que fazemos de uma finlândia.

    • Daniel diz:

      Eu também concordo em grande parte. O que se está a vender neste país é uma mentira que escamoteia tudo o que se fez pré-Sócrates. É verdade que o homem esteve lá e podia ter feito muito melhor, mas não foi ele que colocou o país como está. O país já estava assim e já nos tempos do famoso “o país está de tanga” que se falava disso e que se sabia o que poderia acontecer. O pecado foi ter continuado com o regabofe das grandes obras, em menor escala, com que se veio dos anos 90 em vez de endireitar as contas do nosso país. Tal como Passos de Coelho teve a oportunidade de seguir outro caminho em vez do da destruição do resto da economia Portuguesa…

    • palavrossavrvs diz:

      As petições são uma espécie de plebiscito: não servem para nada, mas representam um mínimo de cidadania, por muito que não concordemos com elas: cento e trinta e dois mil duzentos e cinquenta sentem-se ofendidos com o regresso de uma Face Insolente. Aceitem isto. Respeitem isto.

      O socratismo foi um desastre e abriu caminho ao desastre. Não compreendo que, à luz de quanto se sabe e o Luís, honra lhe seja, sabe e tem escrito com não pequeno sarcasmo sobre isso, caramelos cantem com cândida doçura esta simplificação canora que «1. o Socrates vem de uma família endinheirada, embora 3. não seja de deitar fora o rendimento de fazer projectos de engenharia, onde se ganha mais do que como pedreiro. 4. Um dos avós ganhou fortunas no volfrâmio, 5. a sua mãe, filha desse homem, casou com alguém que também lhe deixou bastante, 6. e ele é agora filho único. Portanto, não seria enriquecimento súbito; não é a lenda do rapaz modesto de família humilde que veio da província para a capital e se fez rico na politica. Tudo isto aliado aos salários que ganhou em anos de governante, talvez, não sei se deliro, [eu acho que delira!!!!!] lhe desse para viver em Saint Germain. Se é corrupto ou não, não sei. Sei do caso Freeport, que foi arquivado [em Portugal aquiva-se tudo], e não sei de pormenores para além disso. O Socrates foi um bom primeiro ministro e já tinha sido um bom ministro e secretário de estado do ambiente do Guterres, outro bom primeiro ministro.»

      Bom? Bom? O que é um Primeiro-Ministro bom? Lê-se o caramelo e fica-se confuso, obtuso acerca de tanta bondade.

      Enquanto «canalha» forem exclusivamente os outros, está tudo comprometido.

      • João. diz:

        O que o palavrossavrvs talvez não queira ver é que o desastre do socratismo só adquire o seu pleno alcance com o contributo deste governo. Este governo não é a resolução do desastre do socratismo é a sua consumação.

  4. Miguel diz:

    “A começar por uma visão do estado social que foi chacinada por esta canalha em nome de um liberalismo para chico-espertos, visão essa que não depende de “haver dinheiro” como proclamam as cabeleireiras, mas de se distribuir melhor aquele que há.”

    Muito bem. Aplausos.

  5. caramelo diz:

    Ó palavrossaurus, eu respeito o “plebiscisto” mas é a c. da tia. Não se zangue, que isto também é uma manifestação de cidadania, cada maluco com a sua, ou cada cem mil malucos com a sua, vá.

  6. Jorg diz:

    Conversa da treta. As origens dos dinheiros e o estilo de vida do postiço engenheiro domingueiro, se podem interessar a alguém é às finanças ou entes tributários, eventualmente á policia e tribunais, ou a algum jornalista, de corpo inteiro, que faça um trabalho – e que para isso trabalhe a sério – de investigação sem andar a emprenhar d’ouvido. Ou então a qq gaja – ou gajo, para ser politicamente ‘cool’ – com interesses bem ou menos bem intencionados de emparelhamento. Na TV, e nos termos em que o põe – e que cauciona a legitimidade de qualquer jornalista ou tarefeiro á frente das câmaras se possa pôr com tal tipo de inquisição quando lhe dá na mona – é circo para ressabiamentos e ressabiados e foge daquilo que, de modo substantivo, foi inflgido a sociedade e ao Pais com as gestões da xuxalada.

    Eu tenho uma especie de rima de motes que sintetiza a coisa inflingida –
    “o dinheiro sempre aparece”,
    “isso é para os governos de direita fazerem”
    “´há vida para além do défice”
    “As dividas gerem-se [¨pois “pagar a divida é ideia de criança]”
    «Nós temos de definir o padrão de vida (quer dizer, rendimento) de que não estamos dispostos a abdicar e então pedir solidariedade europeia (para o manter)»
    “uma política europeia de progressiva mutualização dos sistemas de apoio ao emprego e de combate ao desemprego, em particular do subsídio de desemprego”

    e desaprender isto é doloroso.

    • É. Tão doloroso como desaprender que a austeridadezinha, além de fazer bem à moral e aos bons costumes, é uma excelente maneira de saldar dívidas e gerar crescimento.

      Quanto à importância das políticas de transparência financeira dos titulares de cargos políticos prefiro não maçar um admirador de Miguel Relvas.

      • Jorg diz:

        Vá lá – não precisa de escrever mentiras como essa do “admirador do Relvas”. Como interlocutor, pelo menos para mim, você vale mais que isso.

        Quanto á “austeridadezinha”, fosse ela por morais e bons costumes, já tinha acabado ou porventura não tinha começado e ainda tinhamos o mitómano ao leme, e as ‘élites’ xuxas na sua bovinidade a condescender com ou a caucionar o patife, enquanto nos ensinavam as ‘boas maneiras’ e nos aparvalhavam com os seus impressionantes ‘pugressos’. Ninguém bate a esquerda em combates de ‘culpas’, ‘moralidades’ e ‘bons costumes’…..

      • fnvv diz:

        Muito teria gostado de ver ( bem que aconselhei, de cima do meu caixote de sabão) a tal outra política socrática de crescimento etc etc que teria sucedido aos PEC I, II, III e IV…

      • Filipe, seria outra porque seria renitente. Não seria uma política de crescimento. Seria apenas menos nefasta como política de austeridade. Mas não estou cá para defender o defunto, excepto por comparação.

    • caramelo diz:

      Culpas, moralidades e bons costumes? Jorg, isso parece que é o departamento da “desaprendizagem dolorosa”. Está bem agora para a Páscoa. O governo PS era o carnaval, não te lembras? Não te esqueças que tens de fazer jejum, não comer bifes, uma lasca de carapau e um copo de água, sem loucuras. Qualquer coisinha, depois ressuscitas.

  7. Os meus amigos notem que há neste blog muitos leitores de direita, pelo que se recomenda um linguajar elevado.

    • caramelo diz:

      O palavrossauros disse cona, sem respeito nenhum pela henedina, a única senhora que é aqui comentadora residente. É por estas e por outras que a Maria Teixeira Alves não vem aqui mais vezes.

  8. Estava com saudades de te ler.
    Fico à espera dos teus comentários ao jogo (90 m é um jogo de futebol, não é?).

    Um abraço e boa Páscoa.

  9. henedina diz:

    Luisinho, férias. Acho bem, acho bem. A vida não é só trabalho. Feliz Páscoa.

  10. henedina diz:

    Fica assim quando se emociona? Ou é a conego remédios? É que se é a norte quero-lhe dizer que costumam perguntar se eu sou de Setúbal, parece que se tenho sotaque é esse.

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