Óscar Lopes (1917-2013)

Óscar+Lopes
Por uma coincidência improvável, soube da morte de Óscar Lopes no Porto, cidade onde viveu a maior parte da sua vida, e num colóquio na Faculdade de Letras, instituição onde ensinou no fim da sua carreira profissional. Como tantos portugueses, o meu primeiro contacto com ele foi, no entanto, a História da Literatura Portuguesa que escreveu em conjunto com António José Saraiva. Publicada em 1955 e sucessivamente reeditada desde então, é impossível exagerar a sua influência sobre gerações e gerações de estudantes. O sucesso da obra, quanto a mim, não se deve à abordagem histórica, que envelheceu mal no marxismo vulgarizado das introduções da praxe, mas no facto de ambos, sobretudo Óscar Lopes, serem mais críticos literários do que historiadores. Poucos seriam capazes de reunir a erudição e a sensibilidade dos dois autores, mas ainda hoje impressiona que a análise literária tenha mantido uma frescura muito maior que as referências historiográficas.
Na verdade, Óscar Lopes nunca deixou de ser um espectador muitíssimo atento da nossa literatura. Além da investigação especializada em linguística e da docência, no ensino secundário entre 41 e 74 porque a condição de comunista o impedia de ensinar na universidade, fez durante décadas crítica literária na Seara Nova, na Vértice e no Comércio do Porto. Foi dos primeiros a descobrir Ruy Belo, por exemplo (“a sua poesia provoca um pequeno sismo vivificante no senso comum da realidade”, diz a contracapa do velhinho Homem de Palavra(s) da Dom Quixote, em 1970, e esta citação bastaria para mostrar o estatuto de auctoritas a que Óscar Lopes entretanto acedera).
Nascido em 1917 como Eric Hobsbawm, outro grande intelectual marxista que morreu recentemente, Óscar Lopes dedicou toda a sua vida às ideias – e a uma ideia muito própria de justiça. Já não há muitos assim.

PP

4 thoughts on “Óscar Lopes (1917-2013)

  1. henedina diz:

    Acabou de colocar este post, ainda só como título disse é o PP. E era. Estou já a apanhar-lhe o estilo.

  2. ppicoito diz:

    E eu a ver se ninguém dava pela minha longa ausência…

  3. Diogo diz:

    Aconteceu-me exactamente o mesmo. Pedro, escrevi-lhe um email.

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